Dos mais de 158 milhões de brasileiros aptos a irem às urnas em outubro, 23% têm mais de 60 anos, formando o maior eleitorado idoso já registrado no país. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o número de idosos com título de eleitor ativo cresceu cerca de 74% desde 2010, e hoje eles somam mais de 36,8 milhões de pessoas.
Para a doutora em Ciência Política e professora do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Mayra Goulart, esse contingente transforma o grupo em um segmento decisivo para qualquer candidatura nacionalmente competitiva. Ela afirma que o envelhecimento do eleitorado tende a aumentar a importância de temas como saúde pública, acesso a medicamentos, previdência, assistência social, segurança, mobilidade, cuidado de longa duração e custo de vida.
A pesquisadora destaca ainda que a idade pode estar relacionada a posições mais conservadoras em algumas questões morais ou comportamentais, mas isso não significa que eleitores idosos votem necessariamente em candidatos de uma determinada esfera política. Segundo ela, esses eleitores têm maior preocupação com políticas públicas, proteção social, previdência, saúde e estabilidade de renda, por terem contato mais direto com o Sistema Único de Saúde, aposentadorias, pensões, medicamentos e outros serviços estatais. Ainda assim, Mayra ressalta que há diferenças internas de renda, religião, escolaridade, gênero e região.
Entre os eleitores acima de 70 anos, o voto é facultativo desde a Constituição de 1988, sem necessidade de justificar ausência e sem penalização pelo não comparecimento. Caso passem três eleições sem votar, o título também não é cancelado. Mesmo assim, a abstenção nesse grupo permanece alta: atualmente, o país conta com cerca de 16 milhões de idosos com mais de 70 anos, 10,6% do total de eleitores aptos. Na última eleição, dos 25 milhões de brasileiros que não foram às urnas em 2022, 8 milhões estavam nessa faixa etária, o que representa quase 60% de abstenção.
A reportagem mostra, porém, que há idosos que fazem questão de comparecer às urnas. No bairro de Laranjeiras, na zona sul do Rio de Janeiro, Antonieta da Silva Campos, de 96 anos, lembra da primeira eleição em que votou, quando ajudou a eleger Getúlio Vargas, nos anos 50. Ao escolher um candidato, diz que pesquisa o histórico e a postura dos nomes em disputa, e que a honestidade é o principal critério.
Já Ivalda Barbosa, de 76 anos, moradora de Vista Alegre, na zona norte da capital fluminense, relata que passou a votar mais por necessidade de manter o título regular do que por incentivo à participação política. Nascida no interior do Rio, ela só teve título eleitoral aos 38 anos. Ainda assim, afirma que observava propostas e se aproximava de candidatos que diziam algo que lhe interessava.
Mayra Goulart avalia que ampliar conteúdos dirigidos à população idosa, com temas, linguagem, formatos e canais adequados, pode ajudar a reduzir a abstenção. Para ela, isso depende de um esforço específico de mobilização para esse grupo e da diminuição de barreiras concretas ao comparecimento, como limitações de mobilidade, problemas de saúde, distância do local de votação ou dependência de familiares e cuidadores.
Com informações da Agência Brasil