
Entra governo, sai governo e o desafio continua o mesmo: tornar a capital dos brasileiros menos desigual. A constatação é do presidente da Companhia de Planejamento (Codeplan), Júlio Miragaya. Durante divulgação da análise dos números de população, renda e ocupação nas Unidades de Planejamento Territorial, Miragaya apontou a necessidade de novos rumos nas administrações regionais para enfrentar o problema.
“A profunda disparidade social que temos no DF está diretamente relacionada à extrema concentração de emprego na área central. É preciso nortear as ações públicas para a questão do trabalho descentralizado”, avaliou.
O estudo acompanhou a nova divisão do DF em sete unidades territoriais, anunciada na segunda-feira pelo governo. As estimativas populacional, de renda domiciliar e de empregos segmentam-se nas áreas Central, Central-Adjacente 1, Central-Adjacente 2, Oeste, Sul, Leste e Norte.
A primeira, que abrange Plano Piloto, Sudoeste, Octogonal, Cruzeiro e Candangolândia, é a de maior concentração de renda domiciliar anual, que soma R$ 18 milhões. Já a penúltima, que envolve o Paranoá, Itapoã, São Sebastião e Jardim Botânico, é de menor ganho familiar, com a soma de R$ 5 milhões por ano.
Até nove vezes mais
Em cidades como Itapoã e Paranoá, na região Leste, a renda média familiar é de R$ 740 mensais. Já em áreas como o Plano Piloto, ela chega a R$ 4,4 mil. No Lago Sul, que está na Central-Adjacente 1, o valor supera R$ 6 mil. Outra constatação da pesquisa é que a distribuição da população também é fortemente concentrada na porção Centro-Oeste, entre Plano Piloto e Taguatinga: 1,7 milhão de pessoas (60%) moram em 10% do território do DF.
Diante do cenário, que ainda aponta a área Central de Brasília como principal geradora de emprego do DF, com 555,6 mil postos de trabalho (47,66%), Miragaya acredita que é preciso modernizar e racionalizar as Administrações.
Cidades devem ter atrativos econômicos
“A possibilidade de unificações destas regiões, tornando-se Unidades de Planejamento Territorial, vem, agora, ao encontro da necessidade de tornar estes locais atrativos do ponto de vista econômico”, afirmou o presidente da Codeplan, Júlio Miragaya. O economista lembrou que em outras metrópoles, como o Rio de Janeiro e São Paulo, as áreas centrais concentram, em média, 15% dos postos de trabalho.
E não é preciso ir longe para confirmar o que o estudo mostra. No Itapoã, por exemplo, basta uma rápida passagem para constatar que algumas famílias sobrevivem com menos de um salário mínimo. Este é o caso da dona de casa Ilda Regis da Costa, de 46 anos. Quem sustenta a casa é a filha, que trabalha como atendente no Paranoá. O salário mensal da família é de R$ 600. “Dá para comprar o básico mesmo. Nada mais”, conta.
Muitas vezes, é preciso sair da cidade para ter um emprego. “É muito difícil, principalmente quando você tem mais quatro bocas para alimentar, que é o nosso caso”, confessa a dona de casa Rosângela Alves, de 33 anos. Mãe de três filhos, ela mora em uma pequena casa, de dois cômodos, com o marido que é auxiliar de serviços gerais e precisa ir ao Plano Piloto para conseguir trabalhar.
Já na área Central de Brasília, no Cruzeiro, um simpático casal revela a outra realidade do DF. Sentados à sombra de uma árvore, tomando chimarrão, eles dizem que a renda mensal da família é de aproximadamente R$ 15 mil. O marido, Daniel de Jesus, de 61 anos, é servidor público. A mulher, Marlene Wilges, de 52 anos, é dona de um salão de beleza. “Não temos luxos, mas também não falta nada. Somos muito econômicos. Tudo o que fazemos é programado”, contam.