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Política & Poder

Lula usa pobres em política rasteira e tenho receio de candidatura que começa muito alta, diz Caiado

Médico, produtor rural, deputado federal cinco vezes e senador uma vez, Caiado volta à disputa presidencial após mais de 30 anos de sua derrota

Lindauro Gomes

23/04/2026 6h01

brasília (df), 28/05/2025 governadores do pará, helder barbalho, e de goiás, ronaldo caiado na comissão de constituição, justiça e cidadania (ccj) da câmara para debater a pec da segurança pública. foto: lula marques/agência brasil

Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Pré-candidato à Presidência da República, Ronaldo Caiado (PSD) afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) “usa as pessoas mais pobres e mais humildes” para o que chamou de “política rasteira”, ao comentar medidas como o programa Desenrola Brasil, lançado pelo governo em 2023 para o combate ao endividamento. “É como dar Novalgina a uma fratura exposta”, disse.

Em entrevista ao Estadão/Broadcast, ele afirmou ainda, sem citar o senador Flávio Bolsonaro (PL), também pré-candidato, que vem crescendo nas pesquisas, ter “receio de candidatura que já começa muito alta”. “Preservar a campanha sem antes ir para o debate, sem antes as pessoas conhecê-lo bem, é um falso positivo”, disse.

Médico, produtor rural, deputado federal cinco vezes e senador uma vez, Caiado volta à disputa presidencial após mais de 30 anos de sua derrota em 1989. O ex-governador admitiu que o fato de ser desconhecido por mais da metade da população é a principal fraqueza de sua candidatura neste início da corrida eleitoral, mas afirmou acreditar que há tempo para reverter o quadro.

“A minha campanha é igual música sertaneja. Todo mundo dizia que era um pouco caipira. Na hora em que começaram a ouvir, tomou conta do Brasil”, disse.

Ele também anunciou o ex-ministro da Previdência e Asssistência Social do governo Fernando Henrique Cardoso Roberto Brant como coordenador de seu plano de governo.

O ex-governador afirmou ver claros excessos do Supremo Tribunal Federal (STF), defendeu a anistia geral aos condenados pelo 8 de Janeiro e prometeu retomar o presidencialismo no País, com mudança nas emendas parlamentares.

Simone Tebet era a terceira via em 2022 e terminou a eleição com 4%. O sr. receia estar no mesmo lugar e acabar com uma votação muito baixa?

A pesquisa diz que existe um porcentual maior de pessoas indecisas. Nesta eleição, o importante não é apenas eleger o presidente. O desafio é se o eleito vai saber governar. Se não souber, vai ser igual ao que o PL fez: entregou de novo para o Lula. Por que o PT não é opção em Goiás nos próximos 100 anos? Porque nós governamos bem. Se o eleitor quer manter o que já teve, eu respeito. Agora, se o povo quer mudar e quer um governante que faça entregas, aí ele vai olhar para o Caiado e falar: “Bom, aí tem palavra e compromisso”.

O Bolsonaro não soube governar?

Ora, se perdeu a eleição… Veja bem, se você está no mandato, perde a eleição no mandato e não faz o seu sucessor, é lógico que você não pode se credenciar como bom gestor naquele momento. Se fosse uma boa gestão, o PT não seria mais uma opção no Brasil.

O Flávio não vai saber governar também?

Eu não fulanizo o debate. Eu debato dentro de teses e de ideias que devam ser determinantes numa campanha eleitoral. Eu posso dizer o seguinte: Estados bem governados não têm o PT como opção de poder. Eu fui eleito no primeiro turno, reeleito no primeiro turno, e se Deus quiser eu vou eleger o meu vice. É a sucessão de uma boa gestão de entregas à população. O cidadão não está preocupado em fulanizar. A população quer um presidente que tenha coragem de devolver o Brasil aos brasileiros, tomar território do narcotráfico, botar fim na corrupção desvairada, oportunidade para jovens, programa de emancipação social e obras de infraestrutura.

O sr. disse que o presidente do PSD, Gilberto Kassab, seria o nome perfeito para ser seu vice. Uma chapa pura demonstra que está difícil fazer alianças?

É muito difícil construir alianças, que nós chamamos de coligações partidárias, antes do processo de convenção, principalmente para partidos de oposição. Quem tem muitas vezes a capacidade de aglutinar, por outros motivos, muitas vezes até não republicanos, é o PT, que sabe fazer isso com a máquina do governo. A situação não é muito facilitada para os partidos de oposição que vão disputar a eleição enfrentando a máquina do PT. Me perguntaram sobre o Kassab, eu disse: “Olha, ele é um vice ideal, ele sabe articular, trabalhar a política, trazer força e fazer política partidária”.

Há nomes ou partidos sendo cogitados?

Neste momento, a última coisa que você faz é priorizar vice. O que você faz hoje é exatamente conversar com todo mundo. Se você já fecha a única janela que você pode buscar uma aliança amanhã no futuro, você já está diminuindo a sua capacidade de conversar. O importante é avançarmos no plano de governo, em debates no Brasil. Eu tenho um apoio forte no setor rural, ampla maioria do mundo evangélico e católico. Tenho uma frente ampla de apoio de colegas médicos na área da saúde. Aos poucos, estamos construindo essa base. Eu tenho muito receio de candidatura que já começa muito alta, porque preservar a campanha sem antes ir para o debate, sem antes as pessoas conhecê-lo bem, é um falso positivo. A campanha se alicerça no decorrer do processo eleitoral.

O sr. é a favor ou contra o fim da escala 6×1?

Você acha que algum deputado federal ou algum senador vai votar contra uma proposta que diz que você vai trabalhar 5×2 e vai receber a mesma coisa? Qual é o deputado que vai votar contra? Qual é o senador que vai votar contra?

Mas o sr. é a favor ou contra?

Neste momento, a minha tese é da hora trabalhada. Mas respeito essa situação. Essa situação hoje é colocada como unânime no Congresso Nacional. A minha tese é de evoluir para a hora trabalhada: você trabalha quantas horas desejar e no dia em que desejar. Isso dá muito mais liberdade e resultado para a convivência familiar e na criação dos filhos. Esse é um debate que eu quero enfrentar ao lá estar. Agora, eu acho que, esta pauta, colocada hoje, já está decidida. Vai ser uma votação como foi a isenção do Imposto para quem ganha até R$ 5 mil. Não foi por unanimidade?

Mas o sr. acha que os deputados e senadores não vão sofrer pressão dos setores produtivos?

As pessoas (parlamentares) quando recebem de um governo, numa reta dessa (eleitoral), e não podem discutir o que está levando à falência das famílias hoje, todas endividadas, quase 100% das famílias brasileiras endividadas… O Desenrola é como dar Novalgina a uma fratura exposta. Você vai tirar a dor momentânea, daqui a pouco volta a mesma gravidade. Com taxa de juros neste porcentual, as pessoas estão sendo enganadas por um falso positivo. E amanhã ele estará devendo valores maiores. Agora, às vésperas de lançar a eleição, ele coloca: vamos “isentar R$ 5 mil”. Teve uma pesquisa, disseram: eu nem senti, porque a diferença foi R$ 200, R$ 300 no meu holerite, e na verdade eu estou pagando juros de 15%, de 22%, de 24%, de 400% no cartão. Quer dizer, não teve resultado. Mas o que está empobrecendo a pessoa?

Dizem que vai ter um novo programa para combater o endividamento.

Esse Desenrola vai durar 60 dias. Fala que vai prolongar as dívidas por sete meses, exatamente para passar a eleição. E a população vai de novo (se endividar). Porque você não está combatendo a causa, você está combatendo um fato imediato. Então, veja o quanto ele (Lula) usa as pessoas mais pobres e mais humildes nessa política mais rasteira, que está levando o Brasil para o abismo. As pessoas estão começando a acordar.

O fim da escala 6×1 é uma política rasteira?

Eu não diria a você uma política rasteira, eu diria que é uma política que você tem que conversar com os dois lados. Agora, num ano eleitoral, quando você bota isenção de Imposto de Renda até R$ 5 mil, ninguém vai contestar isso. Por que, qual é a meta dele (o PT)? É jogar a tese de rico contra pobre. O PT só governa no enfrentamento da luta de classes. O PT não gosta de quem trabalha. Ele gosta de ter a pessoa aprisionada nos seus programas sociais.

Os Estados Unidos expulsaram um policial federal brasileiro depois da prisão do ex-deputado Alexandre Ramagem. As autoridades americanas disseram que ele tentou manipular o sistema de imigração. O presidente Lula falou que o Brasil pode aplicar algum tipo de reciprocidade (o que foi feito após a entrevista). O que o sr. faria se fosse presidente?

Como presidente, imediatamente, eu teria ligado para o presidente dos Estados Unidos. O que ocorreu? Houve uso indevido da função do delegado? Ele extrapolou os limites dele dentro do território americano? Você tem que julgar com imparcialidade, não pode declarar guerra a outro país. Eu governo dialogando, não governo com bravata. O que o Lula mais quer foi o que aconteceu, quer criar de novo a tese de que não aceita e não admite… Ninguém vai admitir outro país mandar no Brasil. Mas, provavelmente, ele vai elevar isso ao máximo até ver se sobe uns pontinhos na pesquisa.

O sr. tem uma trajetória associada à direita, buscou o apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro, e ele decidiu apoiar o filho Flávio Bolsonaro à Presidência. Então, o sr. passou a se posicionar ao centro. O sr. rompeu com o bolsonarismo?

Tenho uma trajetória de vida, fui candidato a presidente da República em 1989 com 39 anos, o mais jovem candidato. Defendia direito de propriedade, economia de mercado e livre iniciativa, princípios que jamais mudei. Você nunca viu o Caiado pular para um lado ou para outro. Sempre defendi no momento em que defender produtor rural não era pop nem era tech. Na minha vida política, é lógico que você constrói alianças políticas. Mas eu tenho uma história construída pela minha coerência de vida e dentro da minha independência moral e intelectual durante esses meus 40 anos de vida pública.

O sr. já disse que deve conceder anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro. O sr. não acha que essa medida vai exacerbar a polarização no Brasil? Receia que o Supremo Tribunal Federal a considere inconstitucional?

Eu sou médico, aprendi a trabalhar no sentido de cuidar de vidas, tratar das pessoas. A anistia é como um tratamento. Você, às vezes, precisa de uma terapia mais agressiva para sair de um processo que o Brasil se arrasta há três anos e quatro meses. Essa pauta prevaleceu exatamente porque as pessoas que vivem dela querem mantê-la viva. Um se beneficia do outro. É um ciclo vicioso que precisa ser rompido. Anistiarei todos, e, a partir do outro minuto, eu já estarei governando para o Brasil sair desse atraso que está aí, desse populismo de endividamento e de juro alto. O Supremo sabe que eu não estou enganando a população. Eu estou sendo bem claro: ganhando, eu vou propor a anistia na mesma hora ao Congresso, vou aprová-la, sancioná-la, e encerrou. Isso não pode ser julgado como uma agressão contra um Poder constituído, porque cabe ao presidente da República, na sua proposta de governo, consultar a população. É o que estou fazendo.

Há uma discussão sobre reforma do Judiciário. O sr. acha que há um abuso de poder no STF?

Esse excesso está muito claro. Não é “eu acho”. Isso é uma realidade. Você vive uma anomalia do sistema político brasileiro. Você não sabe qual é o sistema, é semipresidencialismo, presidencialismo, parlamentarismo, anarquia? Eu resgatarei o presidencialismo no Brasil e darei regras em cima de um plano de governo. A desordem institucional prevalece hoje no Supremo, a desordem no Congresso Nacional se ocupa do discricionário, que são as emendas impositivas, a desordem no Executivo tenta abafar escândalos de corrupção de familiares, então, você vê um governo onde todos os Poderes constituídos estão contaminados. Não podemos fatiar o problema. O Supremo tem que ser reformado, sim. Eu proponho 60 anos de idade como idade mínima e um currículo consagrador de jurista e constitucionalista. Antevejo, sim, reforma substantiva, como também o resgate do Congresso Nacional e do presidencialismo, com o uso da verba discricionária, para que você implante o seu programa de governo.

O sr. defende reduzir as emendas parlamentares?

No presidencialismo, você elege um plano de governo. E o plano de governo é viabilizado dentro da proposta orçamentária. O projeto de governo foi aprovado pela população. No momento em que você dissolve essa responsabilidade em 594 parlamentares, você individualiza o projeto de governo. Isso não está previsto na Constituição nem no sistema presidencialista.

A campanha do senador Flávio Bolsonaro vê a candidatura do sr. como mais uma para criticar um adversário em comum, o presidente Lula. Quais são as principais críticas que o sr. tem à candidatura do senador Flávio e quais qualidades que faltam a ele para ser presidente da República?

Quem tem que responder isso é o eleitor, não o governador Ronaldo Caiado. O que eu tenho mostrado é o que o Caiado tem como competência e experiência de vida. Ora, se eu atingi 88% de aprovação no Estado que eu governei, é inédito isso na história política brasileira, é porque eu soube governar. Eu não vou ficar polarizando. Eu vou mostrar o meu potencial. Essa discussão tem que ser elevada, não pode empobrecer o debate. O debate da Presidência da República não é de tititi para cá e para acolá. Ao me perguntar sobre educação, eu vou dizer a você o que eu implantei. Se você me perguntar sobre segurança pública, Goiás é onde você anda em plena segurança no País. Você quer discutir sobre terras raras e minerais críticos?

Mas o sr. não é semelhante ao Flávio nesses debates?

É a sociedade que vai analisar quem está mais preparado. O que for melhor vai ganhar a eleição. Já ganhei eleições, já perdi. A vida é essa. Vou mostrar o que eu consigo fazer, o que eu sou, e o eleitor vai falar: eu vou votar no Caiado. É igual música sertaneja. Antigamente, todo mundo dizia que era um pouco caipira. Na hora em que começaram a ouvir, o sertanejo tomou conta do Brasil. A minha campanha é igual a música sertaneja. O cidadão vai conhecendo o Caiado, vai vendo que ali realmente tem coragem, tem autoridade moral, faz acontecer e tem credenciais para isso.

Pesquisa CNT/MDA disse que o sr. ainda é desconhecido por 50,9% do eleitorado. Essa é a maior fraqueza de sua campanha?

Verdade, isso é uma realidade. Concordo plenamente. Eu sou desconhecido por mais da metade da população brasileira que vai votar. Mas onde me conhecem, eu tenho 88% de aprovação. Então, o que falta? Ter a oportunidade de falar aos brasileiros: você não precisa acreditar em mim, mas dê uma chegadinha lá em Goiás, pergunte a qualquer pessoa no meio da rua o que é que foi feito. Respeito ao dinheiro público, não tem escândalo de corrupção, não tem facção mandando em Goiás, as pessoas vivem com a melhor educação do Brasil.

Como a campanha vai fazer para levar isso para o resto do País?

Brasília já sabe o reflexo disso, porque sabem que em Goiás bandido não se cria. O problema é fazer chegar em regiões distantes, como Amapá, Acre, Rondônia, Roraima, Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo. Eu preciso ter espaço. A população só vai se inteirar da campanha na reta final. Quando começarem os debates, será uma oportunidade de mostrar a diferença que cada um tem.

Estadão Conteúdo

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