
O novo presidente do Conselho Deliberativo do Sebrae-DF, Luís Afonso Bermudez, defende uma mudança nas regras para concessão de alvarás de funcionamento. “É óbvio que a lei atual não estimula que eu possa ter na minha casa uma empresa de tecnologia da informação, por exemplo. O que não posso é ter uma empresa que polua, que incomode o vizinho ou que eu descaracterize o bairro que eu moro”, disse. As perspectivas para o novo governo que se inicia são as melhores, “ele conhece bem a universidade e a política no DF”, opinou o também decano de administação da Universidade de Brasília. Para ele, investimentos para informatizar o governo são mais do que necessários, para dar mais eficiência aos serviços públicos e comodidade ao cidadão.
Em que sentido a Universidade de Brasília pode contribuir para o empreendedorismo no DF?
A universidade é o celeiro de formação de recursos humanos altamente capacitados, em um Distrito Federal carente disso, formador de vários líderes políticos, servidores públicos. A universidade é a provedora desses recursos. No setor empresarial, todas as áreas imagináveis tem os cursos saindo da universidade. Então o trabalho da UnB é fazer que esses jovens que saem daqui saibam que não é só concurso público, que eles podem empreender, seja no setor público, criando seu próprio negócio ou participando de iniciativas empresariais privadas. A universidade tem essa função de capacitar para a chegada ao mercado de trabalho. Contribuímos para a formação dos recursos humanos. Formar não é só pegar um livro e transmitir conhecimento, mas também gerar conhecimento e induzir esse jovem a ser criativo. Fazer o estudante a usar sua criatividade para propor novas ideias, discutir a sociedade, política, técnica, como fazer melhor ou solucionar um problema. Não é fácil fazer com que alguém compartilhe ou tolere uma ideia diferente da sua é difícil, mas isso é a universidade.
É possível mudar no curto prazo a perspectiva do jovem, voltada em especial aos concursos públicos?
Isso é uma mudança de cultura. O conceito de empreendedorismo não é apenas criar uma empresa. Eu posso empreender e, no meu próprio caso, me considero super empreendedor na UnB, e sou servidor público e disso não abro mão. Eu gosto de fazer coisas novas, diferentes, provocar meu estudante a resolver problemas. O empreendedorismo como uma postura, cultura, é tempo, com certeza. O que não era. Tivemos durante muito tempo esse pensamento, por exemplo, de advogados, que durante muito tempo, se formavam apenas para fazer concursos. Hoje, poucos vão para o setor público. Eu acredito, e se não acreditasse não estaria aqui, de que é possível mudar essa visão, de que só o concurso público é o caminho a ser seguido. Acho que temos tido sucesso dentro da UnB nessa mudança. Somos pioneiros em Brasília de criar programas de iniciação à atividade empresarial, de dar exemplos de como empreender, seja na iniciativa privada ou pública.
Qual seria o maior desafio do governador Rodrigo Rollemberg nos próximos quatro anos para fomentar os investimentos?
É difícil falar por ele, mas acredito que o maior desafio é dar as condições e criar um ecossistema econômico em que as iniciativas não sejam mortas na raiz, que deixe aflorar as iniciativas. É preciso juntar os jovens nas várias universidades e digam “temos um problema de saúde”, ponham eles em uma sala e os deixem resolver. É como se faz em tecnologia da informação. Saem excelentes ideias e soluções assim. Claro que em TI se pode fazer isso e a solução sair em 48h, mas em uma área de engenharia ou com um problema social, demora mais tempo. A proposta do governador Rollemberg passou muito por isso, de que ele quer ouvir a sociedade, a população, o jovem. Acho que fomentar isso é importante para qualquer político. Senão, ele fica cercado de assessores, não fica sabendo os problemas. E acho que o governador tem todo o perfil, conhece a cidade e viveu a universidade. Ele participou da política estudantil e da cidade, portanto conhece muito bem.
A dificuldade na obtenção de alvarás é apontada pelos empresários como uma das travas no crescimento. Qual é a saída para esse problema, na sua opinião?
Acredito que a legislação de controle dos alvarás de funcionamento tem que ser mudada. Existem profissões sendo criadas. Eu posso estar criando na minha casa qualquer coisa e ser um empreendimento. O Super Simples, que começa em janeiro abarca todas as profissões. Vai ser limitado a ser pequeno ou grande pelo que você faturar no ano. Isso é um ambiente, um mecanismo que vai colocar desafio. Para nós, universidade, que tem um capítulo na lei que diz que nós temos que capacitar as diversas profissões, e para o Sebrae, que vai ter que se preparar. Não são mais aquelas profissões de serviço básico, mas, sim, exigem novos conhecimentos. O desafio é: como vamos trabalhar esse jovem que quer abrir seu empreendimento. E quando se fala em alvará, é óbvio que a lei atual não privilegia que eu possa ter na minha casa uma empresa de tecnologia da informação, por exemplo. O que não posso é ter uma empresa que polua, que incomode o vizinho ou que eu descaracterize o bairro que eu moro. Agora, quando está na minha massa cinzenta a ideia desse empreendimento, aonde eu funcionar não interessa muito. Se eu vou abrir uma padaria, o consumidor quer que o pão seja bem feito, que quem vá comer não seja intoxicado e que eu não polua o vizinho. Depósito de gás, posto de gasolina não pode estar em qualquer lugar. É um desafio, sim, para o governador eleito, que as administrações saibam qual é o novo perfil dos empreendimentos que estão surgindo. Se eles são baseados em conhecimento, o que se pode poluir? No máximo, o barulho dos teclados digitando.
Quais investimentos devem ser prioritários para o próximo governo?
Tecnologia de informação e novas tecnologias. E aí quando falamos em TI, trata-se sim de governo eletrônico, com o cidadão tendo acesso a uma carteira de identidade online, serviço de marcação online de consultas no SUS. Se eu tiver qualquer problema de saúde, eu não sei em qual posto de saúde eu preciso ir. Ter esse serviço para o cidadão. São áreas que necessitam de ferramentas para atender bem à população. Nós somos a capital da República e isso se espalha por todos o País. Não são tecnologias caras. Criar esse ambiente que qualquer governo que venha possa incentivar, é uma saída. Nas horas de volta para a casa, existem filas enormes nas paradas de ônibus. Será que alguém não pode dizer para quem faz o planejamento de transporte que de manhã e no fim da tarde precisa ter ônibus? A burocracia e a papelada podem ser diminuídas. Tudo isso poderia ser tornado eletrônico.
Como anda a sobrevivência das empresas? Isso tem melhorado com a atuação do Sebrae?
Eu acho que está. O Sebrae tem essa estatística de que as empresas que recebem essa assistência, seja do Sebrae ou não, sobrevivem mais. No DF, as empresas têm uma média de sobrevivência maior do que na média nacional. Essa é uma estatística que eu te falo como um cara otimista. Eu até quero que morram bastante dessas empresas. Não por má-fé, porque errar no lançamento de um empreendimento é salutar. Você nunca mais vai errar daquele jeito. Quando você erra um experimento na universidade, você vai fazer melhor no próximo. Muitas vezes uma ótima empresa lança um produto que não dá certo, mas nem por isso passa a ser uma péssima empresa. Se nós aceitamos isso, porque não aceitar que o pequeno erre? A partir de janeiro, a lei vai facilitar o fechamento das empresas. O conceito de errar e acertar é importante quando você quer empreender. É importante que quem está começando a empreender saiba que se não der certo, é só partir para outra. Essa cultura que o Sebrae tem muito a trabalhar e dizer que essa facilitação de abertura e fechamento para auxiliar as pequenas empresas. Não adianta dizer que o tomate vai ser trazido para cá de São Paulo e que ele vai aguentar a viagem. Vai ficar caro. A população compra o melhor. Tem uma série de áreas, como a de medicamentos, por exemplo, que tem que receber atenção especial do governo. Não é preciso que o governo ponha em prática tudo, mas que crie o ambiente para que as coisas sejam feitas.
A guerra fiscal é algo que acontece há muito tempo entre o DF e os estados vizinhos. Nós precisamos entrar nessa guerra ou é algo que pode ser superado?
Uma opinião pessoal minha é que a guerra fiscal sempre vai existir. É claro que é preciso amenizar isso, no Codevat, no Conselho de Secretários de Fazenda, evitar que seja uma guerra fraticida, mas isso sempre vai existir. Nós temos outra coisa. A população de maior renda é aqui. Quando o empreendedor pensa em instalar sua empresa, talvez seja melhor instalar no DF, por mais que o imposto seja mais caro. É aqui que está a grande população. Não se trata de elogio, mas o governador que foi eleito falou que vai sentar com o governador de Goiás e vai analisar políticas comuns, para evitar uma guerra. Existem também coisas que não cabem aqui no DF, porque aqui existe uma lei ambiental muito bem feita. Eu não quero atrair para o Distrito Federal um maior número de produtores de soja, porque não é nossa função ser celeiro. Existem outros lugares no Brasil para ser o celeiro da soja. Agora, precisamos ser celeiro de cérebros, porque quer queira ou não, aqui é a capital do País e é daqui que saem grandes ideias. Muitos falam em São Paulo, mas se você pergunta qualquer outro estado brasileiro onde eles vêm, é em Brasília onde são copiados os exemplos. E eu, como morador de Brasília há 38 anos, eu gostaria que a gente recuperasse o orgulho.