
O sistema adotado por sucessivos governos brasilienses para cooptar distritais e assim conquistar amplo apoio no Legislativo causa inúmeros problemas e está vulnerável a rupturas, acredita o deputado distrital Joe Valle (PDT), que defende adoção de um novo esquema. “Nós precisamos criar um processo diferente, porque a cidade sofre muito com isso, assim como a democracia. Na verdade, o próprio governador sofre com essa sucessão de problemas”, diz. Valle diz que a política lhe tem causado uma decepção muito grande. Percebo hoje que, no formato em que está, fica quase impossível governar as cidades”, opinou. O parlamentar também apostará em uma maneira diferente de tentar a reeleição. O motivo é simples: os altos custos de se fazer uma campanha eleitoral forte. “Temos um trabalho de prestação de contas, tipo ‘veja o que eu fiz com o seu voto’, avisamos que pretendemos continuar o trabalho e, para isso, pedimos que você peça os votos”, explicou
A supermaioria que o governo tinha na Câmara parece não ser mais a mesma. Como a bancada do governo vai funcionar até as eleições?
Acredito que essa base larga sempre foi muito frágil. Essa tendência do presidencialismo de coalizão, que leva os governos a quererem sempre uma base grande, leva a uma série de defeitos da democracia, no meu entendimento. Começa a ter um processo de votações, muitas vezes, sem a discussão necessária. Vem daí o movimento que aconteceu na Câmara Legislativa de 2011 para cá, ao trabalharmos para que os projetos passassem pelas comissões. É uma clara porque tem números que provam isso. Os projetos passaram muito mais por comissões do que em legislaturas passadas, em função de que a gente tem um grupo de deputados que acham que a gente precisa ter discussões de verdade e esse é o papel das comissões. Com isso, a gente abre uma perspectiva de atuação do Poder Legislativo mais criteriosa. Sem isso, entram projetos que nem sempre são discutidos a contento com a sociedade e, portanto, não deveriam ser colocados daquela forma. Além disso, quando há interesse de votar, a negociação acaba acontecendo. “Para votar, eu preciso de mais cargos, preciso disto e daquilo”. Precisamos criar um processo diferente, porque a cidade sofre muito com isso, assim como a democracia. O próprio governador sofre. No formato que vai, é quase impossível governar as cidades. Primeiro, porque o planejamento é quase inexistente. Existe pouco ou nenhum plano de longo prazo, porque os planos quase todos vêm a partir das campanhas. O que tenho percebido das últimas campanhas é que há uma verdadeira irresponsabilidade dos marqueteiros, no sentido de ganhar o voto para essa ou para aquela tendência. Aí se prometem coisas que a gente sabe que é impossível de concluir. E começam-se os governos com planos, que normalmente não são conversados, muito fragmentados, justamente por conta dessa base enorme. Você monta um plano de governo, mas na hora que precisa negociar para passar um projeto e é preciso entregar uma área para agradar um partido, acabou o plano. Você tem que atender interesses, legítimos ou não, que muitas vezes são diferente daquilo que está programado ao longo do tempo. Abrem-se espaços para que esses grandes problemas como nós acabamos de ver, com Caixas de Pandora e Mensalões, que vão se repetir, porque o modelo continua o mesmo. Se a gente não atuar na causa, o efeito é esse. Não há saída.
Esse discurso é compatível com a Rede Sustentabilidade. Quando o partido for registrado, o senhor vai se filiar a ela?
A minha tendência é ter uma discussão muito séria. Tive um encontro com a Marina muito importante. Primeiro, eu era contrário a ter o partido Rede, porque nós conhecemos esses modelos e isso faz parte da nossa cultura. Sou completamente a favor do movimento Rede Sustentabilidade. E em um jantar que participamos junto com a Marina e todo o grupo. E naquilo de me perguntarem se eu ia ou não para a Rede, eu disse que não importava se eu ia ou não para a Rede, mas sim que a Rede estivesse em mim. Quando ficou definido que o partido sairia e eu tinha certeza que sairia — pois, se existisse justiça nesse País, a Rede teria sido registrada — avisei que estaria lá, independente de candidatura ou possibilidade de me eleger ou não. Trabalhei insistentemente para que a Rede se concretizasse, porque seria uma referência capaz de ajudar a conformação de todos os partidos. Infelizmente, não foi possível. Logicamente, se nós formos eleitos pelo PDT, é preciso ter uma conversa com esse partido por uma questão de lealdade partidária, para não ter nenhum tipo de ruptura. A gente quer construir a Rede da base, para que ela se constitua como ferramenta coletiva da sociedade para que aja uma mudança por dentro de outros partidos. A política tem três regras fundamentais que acho que a gente precisa seguir. A política tem fila e nós precisamos nos preparar para assumir os espaços. Se você trabalhar direito, essa fila anda. Segundo, a política tem um rito próprio, o acordo. Tem-se de cumprir os acordos corretos feitos, todos eles. Os partidos e os políticos esqueceram dos acordos e da importância deles. E o terceiro item, muito importante na política, é o gesto. A política se constroi através de gestos. É o gesto, inclusive, de dizer não.
O senhor acredita na reeleição do governador?
Eu sempre acredito que as pessoas têm chance de se reeleger. Mas é muito difícil, no meu entendimento. É preciso que a equipe dele vá para a rua e também o deixe ir para a rua conversar com as pessoas, tirar uma blindagem que, na minha opinião, existe em volta dele, de todos os governadores e todos os políticos. O político vira um senhor feudal e só ouve que ele é bonito, cheiroso, sabe tudo, inteligente, que discursa bem. As pessoas não conseguem receber as entregas que ele está fazendo e está fazendo muitas coisas. Tem muita coisa sendo feita. E um defeito enorme que eu vejo em todos os governos do DF, que se baseiam em obras civis. Os governos se baseiam em entrega de obra. Em todos, se coloca um chapéu de engenheiro e se coloca para dizer que é obreiro. As obras são importantes, sem dúvida. Mas se você não cuidar das pessoas, as obras são só obras e elas depreciam.
O que senhor destacaria das realizações do seu mandato no setor agrícola?
Os partidos chegam querendo uma secretaria tal ou, no caso do Governo Federal, que querem o ministério tal ou qual. Aí você imagina que, nos quadros desse partido, existem pessoas experts na área , que vão melhorar o Brasil. Mas você vai ver, não tem ninguém. Eles querem é porque tem um orçamento gordo, com muitos cargos para colocar cabos eleitorais. E esse orçamento gordo será para que? Para fazer um mega projeto para um Brasil, porque tem plano de longo prazo? De jeito nenhum. É para outra coisa, para as campanhas. Isso é um absurdo e o povo sabe. Quando nós viemos para a política foi para fazer um trabalho na agricultura e no meio ambiente, claramente. E eu sou um homem de gestão. Eu tive uma conversa com o governador, o PSB, incluindo o senador Rodrigo Rollemberg e disse que precisávamos construir um sistema de agricultura aqui. Porque antes a Secretaria de Agricultura era entregue para um grupo político, Emater para outro, Ceasa para outro e eles brigavam entre si. Até porque o orçamento da Secretaria de Agricultura é de R$ 500 mil por ano e ela toma conta de 70% da área do Distrito Federal. Quando viemos, foi montado um planejamento estratégico envolvendo os poderes, com uma frente parlamentar e o Executivo. A partir disso, se criou um planejamento estratégico para dez anos, transcendendo o soluço mandatário, para a agricultura do DF e com o setor produtivo envolvido nisso. Esse processo culminou em um plano que está sendo colocado em prática há três anos. E muitos avanços aconteceram. Hoje em Brasília existe um exemplo muito forte que é a Lei do Papa, por exemplo, que permite o Estado comprar da agricultura familiar sem licitação. Isso significa, bem resumidamente, que só no último ano, o governo comprou R$ 20 milhões da agricultura familiar, que foram para o bolso dos agricultores.
O senhor acredita que a base vai se dissolver neste ano eleitoral, diante de temas como o PPCUB?
Não vai ser um processo desses, porque a máquina do governo é muito forte. Eu acho que haverá reações caso a caso. Especificamente, a minha posição sobre PPCUB e Luos, porque estou no PDT e tem a deputada Celina Leão, mas acho que o partido precisa entrar em obstrução a essa votação. Eu acho que é muito ruim votar coisas tão importantes em ano eleitoral. E também acho que não se pode votar PPCUB e Luos antes de ter o Zoneamento Ecológico Econômico.
Por ser um deputado com postura independente, como é ter uma deputada oposicionista com discurso bastante veemente contra o governo no mesmo partido? Como é essa relação?
A relação é clara. Ela tem a posição dela e nós fomos juntos para o PDT. Ela coloca muito fortemente as posições e eu tenho uma relação mais ponderada, até pelo meu próprio perfil. Não é que não apoie algumas posições do partido, mas prefiro ponderar e discutir de forma correta. Nos casos do PPCUB e da Luos, sou contra porque temos uma trajetória, um nível de discussão forte, uma frente parlamentar de planejamento urbano, uma ligação com um monte de gente que demonstra claramente que a lógica do PPCUB e da Luos não está ainda madura o suficiente para votar. Mas a minha opção é muito programática, de projeto, em áreas muito específicas. Eu não atuo em todas as áreas, até porque eu não conheço. Nesse caso da segurança pública mesmo eu não entrei, porque não estava seguro o suficiente, não era a minha área, mas apoiei todas as decisões que o partido tomou, até porque o senador Cristovam foi quem levou os policiais e teve uma ação muito forte para levar até uma conversa com o governador.
Como o senhor avalia a união entre os grupos políticos de Arruda e Roriz para as eleições?
Eu acho um desastre, um completo desastre. Acho que essas pessoas já tiveram oportunidades de estar a frente do Executivo local, tiveram suas contribuições, mas ficou muito claro ao longo do tempo que se perderam, não na gestão, mas sim na corrupção. E está claro para todo mundo que isso aconteceu. No meu entendimento, apesar de serem pessoas que têm capacidade de gerir, acho um desastre para Brasília se isso vier a acontecer, se tivermos vencedora uma coligação como essa.
O senhor foi relator no caso Raad e acompanha o processo do deputado Benedito Domingos. Existe alguma saída diferente a não ser chegar ao plenário?
No caso do deputado Raad, foi muito difícil para mim. É sempre muito difícil julgar um colega de Câmara. Você tem uma convivência com as pessoas. Eu me baseei estritamente nos autos e no regimento da casa, que é o que eu acho que temos que fazer minimamente para dar uma resposta para a sociedade. E o desfecho do deputado Raad é o que todos sabem, culminou na cassação, mas que poderia ter sido feito de outra maneira se os colegas tivessem entendido assim na sua defesa. No processo do deputado Benedito, a situação se repete, mas temos uma diferença, uma condenação clara, de um colegiado de 17 desembargadores. Está sendo dado todo um rito, a possibilidade de ampla defesa, mas acredito que isso vai parar no plenário, que é soberano. Eu fui um dos batalhadores para que a gente pudesse ter o voto aberto, a Câmara Legislativa foi pioneira nisso e a gente precisa realmente fazer valer esse processo. E quem julga é o plenário. A Comissão de Ética encaminha para o plenário dentro da ampla defesa que ele tem direito.
É complicada a situação dele por conta do voto aberto?
Acho que ele sabe o que fez, já foi julgado e condenado pela Justiça. É uma situação, no meu entendimento, muito clara.
O senhor falou em desilusão com a política. Sua candidatura está confirmada?
Porque uma pessoa quer ser candidato e pede votos? Essa é uma reflexão que a gente precisa fazer. A gente tem projeto, fez um trabalho decente, claro, correto, para todos verem, nos últimos três anos. Temos projeto para a cidade nas áreas em que tenho especialização, nas áreas de foco do mandato. A área de agricultura precisa muito de um processo para que a gente se concentre. A legislação está muito interessante, da parte básica. E agora precisa fazer o lado da fiscalização para que essa legislação seja colocada para frente e para que a gente tenha uma sustentabilidade, uma consolidação do plano rural do DF. Porque do jeito que vai, se não houver um processo de intervenção claro, uma representação política clara, todo o DF vai virar cidade. E eu acho que não é interesse de ninguém que o Distrito Federal inteiro vire cidade, ainda mais porque a gente sabe como ocorrem as invasões. Quero muito poder trabalhar principalmente a educação na área rural, assim como trabalhar os parques, transformar Brasília em uma cidade-parque de verdade e não de mentira como o pessoal tem feito por aí.