A integração energética latino-americana é ainda uma promessa vaga para milhões de habitantes da região e será um dos temas centrais da 1ª Cúpula da América Latina e do Caribe, side effects que será realizada amanhã e quarta-feira na Costa do Sauípe, store na Bahia.
Os mais céticos, no entanto, consideram que há poucos resultados a esperar do encontro.
“Não se pode deixar de reconhecer que no tema da energia não houve integração, mas uma grande decepção”, disse à Agência Efe o ex-ministro das Relações Exteriores Luiz Felipe Lampreia.
O diplomata atribui parte desse fracasso ao Governo do presidente da Argentina Néstor Kirchner (2003-2007), cuja “política de preços subsidiados e de falta de incentivo ao investimento estrangeiro” impediu que seu país ampliasse oferta de gás natural para consumo próprio e para Brasil, Chile e Uruguai.
“Foi criado um buraco que causou desequilíbrio na região em uma integração energética que era muito promissora, e que acabou muito prejudicada”, completou.
Ainda segundo Lampreia, que foi chanceler entre 1995 e 2001, cúpulas como a desta semana na Costa do Sauípe atendem a uma finalidade, “embora não seja bom criar expectativas” ou esperar “resultados espetaculares” do encontro.
O Governo brasileiro, no entanto, é mais otimista. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que a região busca “avançar rapidamente em projetos inovadores e de grande alcance, em áreas prioritárias como integração financeira e energética”.
O assessor especial de Assuntos Internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, destacou recentemente o “grande paradoxo” de uma região rica em recursos e com crise energéticas em Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai.
“Temos o maior potencial do mundo e, no entanto, ainda não resolvemos nossos problemas de energia”, revelou García.
Alguns países das Américas Central e do Sul mantêm pequenas interconexões elétricas, enquanto a Bolívia é hoje a maior exportadora regional de gás natural, com venda de 30 milhões de metros cúbicos diários para o mercado brasileiro.
Também há sobre o papel um emaranhado de projetos hidrelétricos, de biocombustíveis, nucleares e de petróleo e gás em diversas fases de gestação.
O Brasil se consolida como potência energética emergente, e que disputa com a Venezuela a hegemonia regional na área dos hidrocarbonetos, ao mesmo tempo em que trata de consolidar a própria integração de seu vasto território em matéria de energia.
Segundo o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, o “Brasil apresenta amplas condições de manter sua auto-suficiência energética no longo prazo”.
Por isso, o país investe com força em suas próprias obras para garantir a provisão de uma população que chegará a 240 milhões em 2030, destacou.
Como afirmou à Efe o especialista em energia Francisco Ebeling Barros, “para o Brasil essa integração (regional) é menos importante que para outros países”.
A Eletrobrás estima que a América do Sul deverá investir US$ 40 bilhões na geração de 15 mil megawatts, e também em 10 mil quilômetros de linhas de transmissão.
A estatal já assinou acordos bilaterais com Argentina, Peru e Venezuela, e estuda projetos em Colômbia, Guiana e Uruguai, declarou o superintendente de operações de Eletrobrás, Sinval Zaidan Gama.
“Temos como prioridade desenvolver projetos para trazer energia ao Brasil, incentivar a indústria nacional e exportar equipamentos e serviços”, completou.
Por sua vez, o economista Marcelo Coutinho, coordenador do Observatório Político Sul-Americano (OPSA), a integração física tornou-se mais importante nos últimos anos pela dificuldade de se aprofundar a liberação comercial, por causa de Governos “nacionalistas e protecionistas” em alguns países.
O modelo puramente comercial “foi substituído por um mais estrutural, onde a integração física e energética tem um papel central”, acrescentou.
Mas o Brasil, grande motor dessa integração, encontrou grandes reservas de gás natural e petróleo que o deixaram em situação mais confortável, longe da crise vivida no início da década e que tinha levado o país a buscar energia em seus vizinhos, disse Coutinho à Efe.
Agora surgem novas dificuldades para a integração energética, como a crise financeira internacional, a forte queda nos preços do petróleo e gás e as dificuldades de financiamento de projetos, concluiu Coutinho.