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Política & Poder

Indicação para a Fazenda expõe disputa por influência entre grupos do PT

Fonteles termina a semana sob fogo amigo de integrantes do próprio partido

Redação Jornal de Brasília

31/10/2026 9h26

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Foto: Governo Piauí/Divulgação

ADRIANA FERNANDES E IDIANA TOMAZELLI
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

A expectativa em torno da indicação do nome do próximo ministro da Fazenda pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acionou uma disputa de bastidores em torno de qual grupo dentro do PT vai influenciar mais os rumos da política econômica até a eleição presidencial de 2030.

O embate se intensificou depois que o nome do governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, despontou como um dos principais candidatos ao posto mais importante da Esplanada dos Ministérios, atrás apenas do próprio presidente da República.

Fonteles termina a semana sob fogo amigo de integrantes do próprio partido, que exploram a preferência de setores do mercado financeiro por seu nome como um risco de que ele vá patrocinar um “tesouraço” nas despesas, nos moldes do ajuste fiscal prometido pela equipe do candidato derrotado, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Algumas das críticas foram feitas em grupos de economistas do PT, que têm entre seus participantes o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega e o ex-diretor-executivo do FMI (Fundo Monetário Internacional) Paulo Nogueira Batista.

Antecipando-se à pressão do PT, o governador defendeu em entrevista à Folha um governo mais ousado para melhorar a vida do povo, mas com responsabilidade fiscal. “Ele vai navegar nesses dois campos, conciliar essas duas agendas, mas jamais vai abrir mão dos ganhos sociais a cada ano”, afirmou.

Em entrevistas dadas depois a outros jornais, ele repetiu o mesmo receituário, apontado por auxiliares de Lula como uma fala alinhada com o pensamento do presidente, que quer dar mais “frescor” ao seu próximo mandato em resposta às demandas dos seus eleitores.

Com 41 anos, o governador piauiense integra o grupo jovem do PT do Nordeste, que foi incorporado ao núcleo da campanha eleitoral após Lula sofrer um revés no primeiro turno e ficar em segundo lugar, atrás de Flávio Bolsonaro.

Mesmo com 17 anos a mais que Fonteles, o senador Camilo Santana (PT-CE) —ex-governador do Ceará e ex-ministro da Educação— também faz parte desse grupo, que desponta como a ala da renovação para o quarto e último mandato de Lula.

Fonteles e o vice-presidente Geraldo Alckmin são os dois principais nomes que surgiram na semana. Aos olhos do mercado financeiro, Fonteles é o melhor nome no momento dentro do PT, por ter uma formação econômica, de acordo com um executivo de uma grande instituição financeira, que considera que há muitos advogados no time econômico de Lula atual.

O grupo da Bahia é comandado por Rui Costa, de 63 anos. Ex-governador e ex-ministro da Casa Civil, Costa foi eleito senador e segue com muita influência junto ao presidente, assim como Miriam Belchior, que o substituiu no cargo quando ele se afastou para mergulhar na campanha.

Da ala desenvolvimentista, Costa tem o seu ex-secretário Bruno Moretti no cargo de ministro do Planejamento.

Economista de formação desenvolvimentista, Moretti está cotado para ficar no posto atual e é hoje um dos principais formuladores das medidas orçamentárias de ajuste fiscal, que serão decididas pelo presidente após o seu período de descanso.

No atual mandato de Lula, Rui Costa foi o principal adversário de Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda.

Haddad, de 63 anos, está no grupo do PT de São Paulo. Ele conseguiu emplacar Dario Durigan, de 42 anos, como seu sucessor na pasta quando deixou o cargo para se candidatar ao governo de São Paulo contra o atual governador, Tarcísio de Freitas (Republicanos). A candidatura de Haddad ocorreu a pedido de Lula, numa eleição que já era dada como perdida no estado, mas com a missão de puxar votos para o presidente.

Agora, com a derrota confirmada, adversários de Haddad no PT reforçam a imagem de um ministro enfraquecido na tentativa de diminuir sua influência na escolha do próximo ministro. A posição de Haddad enfraquece também as chances de Durigan ficar na Fazenda.

Em paralelo, aliados do ex-ministro da Fazenda tentam mantê-lo vivo na disputa pela Casa Civil, sob o argumento de que o posto será chave para avançar nas medidas que garantirão o equilíbrio das contas, missão com a qual ele já estaria familiarizado.

No grupo da chamada “velha guarda” do PT, a composição é variada. São nomes tradicionais do partido, como Aloizio Mercadante, de 72 anos, atual presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico), os ministros Wellington Dias (Desenvolvimento e Assistência Social), de 64 anos, Luiz Marinho (Trabalho), de 67 anos, a ex-ministra Gleisi Hoffmann e o presidente do PT, Edinho Silva, os dois últimos com 61 anos.

Nesse grupo, também estão os políticos mais antigos do partido que têm assento no Congresso, como o ministro José Guimarães (Relações Institucionais), de 69 anos, que nesta semana falou que o pacote de ajuste não era prioridade de Lula. A fala impactou os preços dos ativos no mercado em um momento em que o Tesouro atuava, em coordenação com o Banco Central, para conter a turbulência nas negociações de títulos públicos.

Um ministro de Lula, ouvido pela Folha sob condição de anonimato, diz que Fonteles ganhou a simpatia de Lula também pelo desenvolvimento da aplicação da inteligência artificial no setor público do Piauí, que estaria bem à frente de outros estados.

Esse auxiliar do presidente diz que hoje, após as eleições, o núcleo do PT mais próximo do presidente é composto por Rui Costa, Camilo, Fonteles, Mercadante e Edinho.

Segundo interlocutores ouvidos sob reserva, Mercadante, Rui e Camilo estariam entre os que defendem a indicação de Fonteles para a Fazenda. Os dois últimos, assim como o atual governador do Piauí, são colocados como possíveis sucessores de Lula em futuras campanhas presidenciais. Outra pessoa consultada vê nesse patrocínio uma tentativa também de influenciar os rumos da política econômica do governo Lula 4.

Procurado, Rui afirmou, por meio de assessoria, que “a defesa de qualquer nome para assumir um ministério no governo Lula 4 pode gerar constrangimento para o presidente”. “Por isso, prefiro não fazer comentários sobre eventuais indicações para compor a nova gestão.” Via assessoria, Mercadante negou a informação. Procurado por meio de sua assessoria, Camilo não respondeu. O ex-ministro Guido Mantega foi procurado por mensagem, mas não se manifestou.

Aliados do petista avaliam que, em seu último mandato, Lula não fará uma guinada que possa resultar em um estelionato eleitoral. No entanto, o presidente tem sinalizado, em conversas com aliados, que o nome do futuro ministro terá crédito com o mercado financeiro e agradará a empresários —o que tem sido interpretado como um reforço ao favoritismo de Fonteles, nome que tem tido aceitação entre os representantes da Faria Lima.

O governador do Piauí também teria conhecimento técnico para rebater críticas que já surgem contra o governo por causa dos novos tributos aprovados pela reforma tributária, uma vez que ele participou dos debates para a aprovação da medida no Congresso.

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