Lucas Valença
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Idealizado pelo agora deputado federal Professor Israel (PV), o programa “Bora Vencer” recebeu repasses nos últimos três anos que totalizaram R$ 42,5 milhões. A iniciativa é questionada por integrantes do governo, sob o argumento de que seu retorno para o Estado seria baixo, se comparado com o total investido.
A taxa de aprovação nas universidades seria inferior a 5% dos alunos. Em sua defesa, o parlamentar questiona a forma de se fazer este cálculo e enfatiza que a criação do programa visa prestar um benefício social, além das cotas sociais e raciais implementadas pelo governo federal.
Com o início do Bora Vencer em 2016, a empresa Gran Prime Desenvolvimento e Educação Ltda. passou a receber recursos do Governo do Distrito Federal (GDF). No primeiro ano foram R$ 5.911.904,52. Porém, os valores seguiram aumentando nos anos seguintes.Em 2017 foram gastos R$ 13.852.091,48 e em 2018 o valor totalizou R$ 22.814.000,00. O problema é que há a alegação de que o resultado seria baixo em comparado aos valores gastos.
Durante os três anos, o programa prestou serviços de cursos pré-vestibulares e profissionalizantes a cerca de 75 mil pessoas, mas nas universidades foram aprovados 3.5 mil estudantes, o que representa uma aprovação de 4.6%. Em termos financeiros, o programa gastou aproximadamente R$ 850 por aluno beneficiado no sistema de pré-vestibular.
Investimento por aluno
Em uma comparação simples, o Estado gasta cerca de R$ 4 mil por aluno no ensino médio. Porém, o custo por aluno aprovado no Bora Vencer é de R$ 12.142. O número é questionado por um servidor da Secretaria de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude, que foi desmembrada pelo governo atual, que considerou ser um resultado “fraco”.
Este funcionário, do alto escalão da secretaria, acredita que o Bora Vencer, criado no governo do ex-governador Rodrigo Rollemberg, precisa sofrer mudanças, além de ter os contratos investigados. Durante os três anos, no entanto, o GDF mobilizou outros órgãos para o funcionamento dos eventos e das aulas, como a disponibilidade do sistema público de transporte e ônibus.
O relativo sucesso do programa foi “muito utilizado”, lembra o servidor, pelo agora deputado federal Professor Israel (PV), durante a campanha eleitoral.
O que diz o Professor Israel
Sobre a ideia de que o programa possui um baixo índice de aprovação, em especial no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), deputado Israel, que, à época exercia um mandato de distrital, questionou a forma de se calcular a eficiência do Bora Vencer.
Segundo ele, o modo de ler os números de maneira pura e simples, acaba sendo “seco e desumano”. “Não se pode fazer uma cobrança absurda dessas em cima de pessoas que são vulneráveis socialmente. O cálculo correto seria medir quantos alunos participaram e quanto custou cada hora aula”, defendeu.

Foto: CLDF/Reprodução
Além dos alunos que tentaram ser aprovados no Enem, o deputado ressaltou que os cursos regulares chegaram a beneficiar cerca de 25 mil pessoas de baixa renda. Muitos destes, conta, buscavam se profissionalizar ou garantir vagas em concursos públicos.
“Esses 3,5 mil foram os aprovados na UnB e nas faculdades, porém, boa parte dos estudantes não tentava fazer vestibular, mas um curso de designer de sobrancelha, robótica, desenvolvimento de aplicativos, ou outros vários que eram oferecidos pelo programa”, explicou o congressista.
Questionado se teria fiscalizado a atuação das empresas envolvidas nos contratos do Bora Vencer, o parlamentar disse que observou os números por alto, já que estavam preocupados se a política pública estava alcançando o número de pessoas acordado.
“A minha fiscalização era mais sobre como estavam sendo as aulas, não uma fiscalização do ponto de vista técnico, já que nós não tínhamos estrutura física para isso. Agora, em números gerais, nunca reparamos nada de exorbitante”, afirmou.
O crescimento contínuo dos valores nos contratos com a empresa Gran Prime foi defendido pelo deputado que também saiu em defesa de uma ampliação dos valores para este ano (2019).
“Toda política pública é progressiva, começa com pilotos, com uma testagem e depois vai melhorando e aperfeiçoando a prestação do serviço. São investimentos que temos de fazer. É uma política que visa igualar um menino que sai do ensino médio, semi-analfabeto funcional, com um de classe média que saiu de escola privada”, argumentou Israel ao afirmar ser uma forma de pregar justiça social.
Questionado se havia indicado nomes para a consolidação do projeto, o deputado negou ter exercido influência. Segundo ele, por mais que tenha idealizado o Bora Vencer, a aplicação foi de responsabilidade do Governo do Distrito Federal (GDF). “Foi executado pela estrutura do poder Executivo, então não existiu essa de a gente indicar nomes para o programa. Nunca e de jeito nenhum”, enfatizou.
O atual secretário de Juventude do DF, Léo Bijos, informou à reportagem que todos os contratos estão ou irão à controladoria do governo para serem analisados. Ele explicou que a avaliação dos contratos em vigor funciona de “praxe” no início de “qualquer mandato”.

Foto: Myke Sena/Jornal de Brasília/Cedoc
Bijos, no entanto, pretende modificar o Bora Vencer para algo mais focado nas necessidades econômicas de cada Região Administrativa (RA), já que cada cidade do Entorno possui uma realidade social diferente. Assim, os cursos técnicos oferecidos pelo programa, por exemplo, seriam uma porta de entrada para o mercado de trabalho. “Eu não posso oferecer um curso para o aluno sem que tenhamos demanda de trabalho na área, isso significa que os cursos que estou oferecendo não visou a necessidade da região”, esclareceu.
Estas “vocações” de cada RA seriam estudadas, conta o secretário, pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), que produziria estudos e estabeleceriam quais locais receberiam determinados projetos do Bora Vencer.
“Brasília tem uma realidade muito diferente do resto do DF e é preciso entender essas diferenças. Eu não posso oferecer o mesmo curso para Ceilândia, Asa Norte e demais RA’s”, defendeu.
O secretário também enfatizou que pretende criar parcerias com diversas entidades, como a ONU, Unesco, Febraban e outros. A intenção é para diversificar o programa e tornar algo mais atrativo para o estudante e para o governo. “Não posso mais só prestar um curso sem cobrar uma contrapartida depois. São serviços muito caros”, afirmou Bijos.
Para ele, a função do Bora Vencer precisa ser mais “emancipadora” do que de assistência social. “Assistência sempre vamos dar, mas cobrando um resultado para o estado”, explicou.
A intenção do secretário Bijos, de fornecer cursos com relação às necessidades de cada local, foi elogiada e defendida pelo deputado Israel. “O programa tem de evoluir ao longo do tempo, é preciso se aperfeiçoar sempre. Tem meu apoio total, com certeza”, frisou.
Veja como surgiu o Bora Vencer
A intenção ao se criar o Bora Vencer, lembra Israel, foi de cumprir uma política para além do sistema de cotas. Segundo o político, o programa é baseado em pesquisas “muito profundas” que buscam dar maior competitividade às pessoas mais carentes, já que os cursos regulares eram focados em alunos com renda familiar inferior a dois salários mínimos.
“O Bora Vencer é um projeto social na área da educação. Atingiu milhares de pessoas e deu a elas um ponto de partida mais justo nessa busca por oportunidades de emprego, de entrar na universidade e de tentar ser aprovado em concurso público”, falou.
O político reconhece que o programa não prevê um acompanhamento do jovem ao término da prestação dos serviços. No entanto, algumas instituições, como a UnB, chegam a fornecer informações sobre o desempenho do aluno, mas não há sincronia nas informações nas demais instituições.
“O programa não é só preparação para o ENEM, também é de qualificação profissional e tem um projeto de preparação para concursos públicos, mas se encerra no momento em que o aluno não se considera mais usuário do programa”, ressaltou.