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Política & Poder

GDF cria fakes para violações morais

Arquivo Geral

27/08/2013 18h07

Autor de uma série de ações judiciais contra o governador Agnelo Queiroz,  o deputado federal Fernando Francischini (PSDB-PR) ficou conhecido por feitos como a prisão do arquitraficante Fernandinho Beira Mar, quando policial federal. Francischini acredita que o Buriti teria sido mandante de ação articulada de perfis falsos na internet para atacar os desafetos. O deputado vem sendo vítima desse tipo de prática há um ano e já conta com investigações avançadas a respeito da operação. Conseguiu, via Judiciário, quebrar o sigilo dos IPs — identificação dos computadores usados pelos manipuladores de perfis. “Esse tipo de agressor sempre acaba cometendo um erro”, constata, referindo-se a integrante do GDF que retuitou texto de um dos falsos perfis, que seria “Lúcia Pacci”. Referindo-se a Agnelo, Francischini é taxativo:  “cada história é mais escabrosa que as outras”.

 

O senhor já foi vítima de fakes na internet. Foi surpresa saber que o Buriti opera nessa área?

 

Não, porque faz um ano, no mínimo, que eu estou com ações judiciais já em cima desses perfis falsos do twitter, blogs. Integrantes de minha equipe já trabalhavam comigo na Polícia Federal e são especialistas nessa área. Agnelo tratou comigo como tratou com os outros deputados que não têm o conhecimento técnico de investigação da minha equipe. Nós obtivemos uma quebra de sigilo autorizada pela Justiça, inclusive com carta rogatória (uma espécie de acordo de cooperação) para a Justiça americana, quebrando os endereços IP e a identificação de todos esses fakes agora expostos, já que o twitter e o blog dessa “Lúcia Pacci” eram hospedados lá fora, justamente para não serem localizados. A gente já tinha alguns nomes do governo que sabia que participavam dessa orientação, porque era tudo muito orquestrado. Os mesmos fakes que multiplicavam a agência de notícias do DF eram os que atacavam. Então, era um esquema que não era profissional, mas se aproveitava da estrutura mínima de proteção que a internet dá hoje. Se eles fossem extremamente profissionais, não deixariam tão escancarado que retuitar e compartilhar a agência de notícias do governador Agnelo e ao mesmo tempo preparar ataques totalmente descabidos. Não eram nem ataques de que você conseguisse se defender dizendo apenas “não fui eu”. Não tinha como. Eles falavam coisas esdrúxulas. Eram violações morais graves das pessoas. 

 

Porque virou alvo?

 

Acabei virando o centro disso tudo, porque encarei a questão. Todo dia encostava alguém do DF no meu gabinete, trazendo pacotes de papeis de denúncias contra o Agnelo. Procurava quem pudesse ter voz e projeção nacionais com mandato para fazer denúncias contra ele. Acabei virando oposição em Brasília sem nem ser de Brasília. E o governador viajou na maionese achando que eu ia ser candidato ao governo.  Imagina ser candidato em Brasília. Mas para quem está fraco igual a ele, qualquer candidato a governador que vier de onde for é capaz de atrapalhá-lo na eleição.

 

Por que o senhor acha que acabou virando  ícone no combate aos malfeitos do governo Agnelo?

 

Acho que principalmente porque morei aqui oito anos. Tinha, antes de ser deputado, uma rede de amigos nos órgãos públicos e na Polícia Federal. Por ser delegado da PF  viam em mim alguém que teria coragem, como foi, de fazer as denúncias com que o povo ficou engasgado. Isso começou na Anvisa, continuou no Ministério do Esporte e tem um rastro todo de irregularidades que estão no Superior Tribunal de Justiça, Tribunal de Contas da União, e nas revistas e jornais de circulação nacional. O Jornal de Brasília trouxe várias delas. 

 

Essa postura dele foi para o lado pessoal?

 

Acho que sentiu que ninguém tinha ido tão forte em cima dele. Eu o acusei de corrupção, formação de quadrilha, enriquecimento ilícito. Procure se sofri uma ação criminal dele contra mim. Zero. Para cada vez que ele falava de mim, tenho uma pilha de ações criminais contra ele. Agora virá um monte. Eu o avisei que, se ele mover uma ação contra mim, peço exceção da verdade e peço acesso ao procedimento que corre contra ele no STJ. Aí vamos ver coisa bem pior do que essas que nós estamos falando. A Polícia Federal cruzou dados de várias operações com muita gente que trabalhava com ele. Aquilo, quando vier à tona, vai ser grande. A gente confia no STJ e espera que, se demorou esse tempo todo, está sendo feita uma grande avaliação de provas, porque sabemos que o que tem lá possui bastante potencial de prova. Estou louco para pedir a exceção da verdade para ter acesso.

 

Essa postura decorreu de investigações suas?

 

Nunca fiz acusações pessoais. É uma ação parlamentar. Expus o caso do ministro Palocci,  fui relator da cassação do Valdemar da Costa Neto, pedi a cassação dele e tive só mais um voto comigo. Fui também ao plenário pedir a cassação da Jaqueline Roriz e dei entrevistas pela cassação dela. Então, não dá para dizer que foi algo pessoal, contra  ele. Fui eu o autor do requerimento de convocação do Marconi Perillo, governador do meu partido. Quando a gente apresentou a convocação do Agnelo na CPI do Cachoeira, surgiu a pior época dos fakes. Parecia que eles estavam com o diabo no corpo virtual. Foi aí que uma consultora desconfiou. Foi a primeira, que trabalhava na Painel Brasil TV. Deram-lhe uma matéria para traduzir para o inglês. Depois pegaram um texto, produzido por eles, segundo o qual a Organização dos Estados Americanos (OEA) tinha feito contra mim uma denúncia de violação dos direitos humanos, pois eu seria o autor daquela chacina. Havia uma lista com os maiores alvos: eu, Roberto Freire (presidente nacional do PPS), Celina Leão (PSD). Para nosso espanto, as duas que deixaram o esquema relataram que havia comemoração quando achavam que eu estava muito acuado. “Atingimos 100 mil pessoas de multiplicação”, diziam sobre as mentiras que inventavam. “Hoje é o dia do Francischini”, comemoravam. Está no depoimento de uma das denunciantes.

 

Como funcionava?

 

Os fakes são feitas com fotos de pessoas bonitas, reais, professor, arquiteto, com dois, três mil seguidores cada um. A gente recebeu notícia de uma pessoa que conviveu com a gente um ano na nossa rede social, e que mandava os links da OEA. Eram pessoas degoladas, sem cabeça, sem braço e diziam que eu era o autor daquela chacina. 

 

Isso se multiplicava?

 

Eles pegavam os blogs que eram pagos em esquema governamental e esses blogs multiplicavam a Lúcia Pacci, por exemplo. Alguns blogs desses eu também estou processando e estou com ações, algumas com ganho de causa e outras com andamento contra todos esses blogs, um deles do jornalista Paulo Henrique Amorim. São R$ 300 mil de indenização por dizer que eu sou autor de uma chacina em um presídio onde nunca estive. Atingiu milhões de pessoas essa postagem, provocou muitos danos a minha imagem, fez meus filhos chorarem porque os amigos deles estavam dizendo que eu era o autor de um crime grave. “Pai, o que aconteceu?”, perguntaram.

 

Além do dano familiar, qual foi o impacto disso na sua carreira política no seu estado, o Paraná?

 

Impacto grande. Eu perdi dias e dias com a minha assessoria de comunicação tendo que acessar cada pessoa que recebeu esses links e me perguntava “o que é isso? Eu votei em você. Me explica o que é isso”. Tive que criar textos-resposta com links ao meu currículo, com certidões negativas dizendo que eu nunca estive naquele local. Então, essa estrutura criada pelo GDF me criou um transtorno e um efeito terrível. Políticos profissionais e pessoas da área de marketing me falaram que se fosse outro deputado, com menos casca grossa para aguentar pancada, não teria sobrevivido a essa onda de ataques que eu sofri por um ano. Acontece que sempre nos grandes esquemas de corrupção do país, pessoas envolvidas se desentendem e resolvem contar, às vezes por medo de serem envolvidos também ou por desavença financeira, mas ainda bem que essas duas ex-funcionárias da agência resolveram contar. E elas contam à PF e não contam “de boca”, levaram documentos, endereço IP de máquinas, print screen de telas, provas cabais de que dinheiro era passado por uma agência para a Painel Brasil TV, que eram contratos milionários de comunicação social. Elas recebiam em cash todo o mês para não deixar rastro.

 

Como é, além de enfrentar quem organizou esse esquema, enfrentar também as pessoas nas redes sociais, que muitas vezes não tem muita piedade quando estão atrás do computador?

 

Além disso, eles acreditam. É uma dificuldade muito grande. Eu era chamado de ligado à quadrilha do Cachoeira, amigo do Dadá, autor da chacina no presídio do Espírito Santo. Até gay eles me transformaram, dizendo que eu tinha que sair do armário e que minha família já estava preocupada. Eu não tenho nenhum preconceito, mas eu tenho filhos, mulher. Então eles foram ao limite. Mas lá na frente, na CPI, quando saíram todos os áudios, aí viram que, na verdade, era um policial, mais Cláudio Monteiro (ex-chefe de gabinete do governador e atual secretário da Copa) que levaram esse povo todo para dentro do do Buriti e contrataram um grampo clandestino contra mim. Daí a Polícia Federal prendeu, fez busca contra eles. Mas até lá era aquilo, a informação que eles passavam, por uma mulher que se dizia jornalista, preocupada com política, e que respondia a todo mundo que chamava ela de fake. Conseguiu sobreviver muito tempo. Bati boca com fantasmas várias vezes, inclusive com essa pretensa Lúcia Pacci. Falei para ela “estou no teu rastro”, porque já estávamos com as ações de quebra de sigilo nos Estados Unidos. E uma das ações é contra o secretário de Comunicação do GDF, porque ele um dia bobeou. Retuitou a Lúcia Pacci. com as informações do presídio no Espírito Santo. Uma das ações de danos morais é contra o secretário de Comunicação, por ele mesmo ter usado o perfil pessoal dele  para retuitar as informações criminosas na rede. E ele chegou a comemorar, muitas vezes, no perfil dele contra mim. “Agora eu quero ver”, comemorou, quando saíram as denúncias falsas da CPI.

 

Uma ação conjunta?

 

Na verdade, é uma quadrilha que mexeu com milhões de reais e se infiltrou na Anvisa, no Ministério do Esporte. Cada história mais escabrosa que a outra. Vocês já viram um governador que lida com soldado da PM? E ainda aposentaram esse soldado, João Dias, depois de tudo isso. É o fim da picada. Aposentaram-no  por problema mental e ninguém contestou. Quando eu denunciei que a família do governador estava cheia de laranjas, eles entraram, via Casa Militar, nas informações protegidas por sigilo, com a senha de dois sargentos, e pesquisaram tudo, meu CPF, meu endereço, telefone, antecedentes criminais. Usaram o sistema Infoseg, do Ministério da Justiça, no dia seguinte. Istoé e Veja revelaram isso e está aberto um procedimento na Polícia Federal. O coronel Leão, chefe da Casa Militar, deu uma entrevista dizendo que não sabia que era de um deputado federal. Mas, peraí, isso era óbvio, porque eu fiz as denúncias, quem iria fazer as denúncias na Câmara? Ele disse que mandou consultar porque o governador corria risco porque tinham feito um convite à população pelo twitter para almoçar na franquia dele do Brasília Shopping. Isso era verdade. Convidei para ato de repúdio ao Agnelo, almoçando lá.

 

O senhor come lá?

 

Comi nesse dia mesmo, eu e o deputado Marcos Pestana (PSDB-MG). Nas mesas em volta, a gente olhava, só tinha calça jeans e coturno. A Casa Militar em peso. Logo em seguida veio a pesquisa no Infoseg e os jornalistas começaram a ter informações pessoais minhas.

 

Quais são os crimes denunciados nas ações contra Agnelo?

 

São ações criminais, cíveis, danos morais e agora vem uma de improbidade administrativa, que é usar o dinheiro público para fins particulares e não previstos em lei. Uso do dinheiro público com imoralidade pública, pessoalidade, ilegalidade, todos os cinco itens previstos na lei. Conseguiu atingir os cinco itens. Também tem calúnia, difamação. Todos no STJ, porque ele tem foro privilegiado, prerrogativa por função.

 

Não existe nenhuma possibilidade de mudar o domicílio eleitoral para Brasília e vir a ser candidato?

 

Pode colocar aí que é mais um fake do Agnelo.

 

O senhor já tem um projeto político para o próximo ano?

 

Reeleição como deputado federal no Paraná. O Agnelo pode ficar tranquilo, porque ele já tem gente muito melhor que ele aqui.

 

Qual o processo mais adiantado contra ele?

 

O mais adiantado também está no STJ, por enriquecimento ilícito, porque saiu a decisão abrindo um procedimento nesse caso. Aquele sobre a venda de um lote. São vários processos, sobre visitas a laboratórios do Cachoeira, problemas com ONGs no Ministério do Esporte, do João Dias, e outras ONGs. A gente confia no STJ. Não dá para deixar isso passar, porque se virar o ano, vai parecer que é eleitoral uma decisão do STJ. O STJ tem de se posicionar esse ano em relação ao governador, se ele vai estar elegível ou não. 

 

O senhor mudou a sua rotina, tomou alguma providência de segurança em relação a sua família, diante de tantas situações?

 

Não mudei uma vírgula na minha rotina. Continuo sozinho em Brasília. Em Curitiba, a mesma coisa, porque eu acredito nas pessoas de bom coração. E já enfrentei barras pesadas. Não se esqueçam que eu prendi o Fernandinho Beira-Mar. Sofri muitas ameaças por isso.

 

Confira abaixo a integra da entrevista em áudio:



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