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Gabeira: ‘Bolsonaro está cedendo o último ponto ao Centrão’

Em entrevista o ex-deputado analisa a chegada de Ciro Nogueira, um dos maiores representante do Centrão ao Palácio do Planalto

O processo de aproximação do presidente Jair Bolsonaro com o Centrão, segundo o ex-deputado federal e jornalista Fernando Gabeira, resultou no abandono de bandeiras que o elegeram em 2018 e um retorno ao passado de deputado do “baixo clero”. Gabeira destacou que o senador Ciro Nogueira (PI), que ficará responsável pela articulação entre governo e Congresso como ministro da Casa Civil, é presidente do Progressistas – partido que abrigou Bolsonaro durante a maior parte de sua vida parlamentar. Para ele, o presidente cedeu seu “último ponto” ao grupo com a indicação e, em busca de prestígio no Congresso, já não pode mais retroceder na sua associação com o Centrão.

O que a entrada do senador Ciro Nogueira representa no atual momento do governo?

Representa uma associação profunda com o Centrão. Houve um processo progressivo de aproximação até o momento em que o Centrão falou: ‘Queremos a própria mediação (de governo e Congresso)’. Eles queriam realmente uma presença dominante e, a partir daí, acho que eles vão realmente controlar ao máximo aquilo que for possível dentro do governo, ministérios e cargos-chave.

Ciro Nogueira é presidente do Progressistas, um dos principais partidos do Centrão; ao nomeá-lo, o presidente não corre o risco de ter um ministro ‘imexível’, ou seja, difícil de demitir pelas consequências que isso poderia trazer para a base do governo?

Na verdade, dessas circunstâncias, Bolsonaro já não pode mais fugir. Ele já está cedendo o último ponto. O ministro agora é alguém de confiança do Centrão. E, mais ainda, é um ministro do PP, um partido ao qual Bolsonaro sempre pertenceu e ao qual ele acaba se juntando novamente. Bolsonaro deixou o PP numa história de renovação, de ‘nova política’, mas esse é o verdadeiro ninho dele, é o partido em que atuou por mais tempo. Não só o Centrão assume o governo de forma mais estrutural, como Bolsonaro volta um pouco à sua trajetória como deputado.

O que significa essa reforma ministerial para os interesses eleitorais do presidente?​​ ​

Eu acho até que existe uma possibilidade de ele voltar ao PP, e enfrentar as eleições com a cara do que ele realmente é: alguém que foi deputado do baixo clero, ligado ao Centrão.

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Mas ele ainda tem condição de empunhar uma bandeira anticorrupção?

Acho que não. Nem vai pretender, eu creio. Se houver uma polarização entre Lula e ele, o tema corrupção tende a ficar em segundo plano.

O Ministério do Trabalho havia sido extinto sob a promessa de gerar eficácia na máquina federal. O que representa agora esse desmembramento do ‘superministério’ da Economia?

Eu não creio que ele esteja trabalhando com a noção de eficácia. Está trabalhando com a ideia de recuperar prestígio e espaço político. A abertura e a reconstrução do Ministério do Trabalho é uma tentativa de utilizar um espaço para ampliar a influência política direta – algo que, dentro do contexto do ‘superministério’ da Economia, ficava mais limitado. Isso reduz um pouco o papel do (ministro Paulo) Guedes. Ele coloca o Onyx (Lorenzoni), que é um aliado bastante alinhado com Bolsonaro. Esse é um caminho, também, para se preparar para as eleições de 2022.

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Quais as chances de a manobra dar certo e o clima com o Congresso melhorar?

Há várias hipóteses. Não creio que o governo ganhará eficácia. Essas pessoas não são necessariamente voltadas para essa preocupação. O governo está se preparando para as eleições de 2022, de um lado, e, de outro, se preparando para fortalecer sua retaguarda no Congresso diante de qualquer pedido de impeachment. O preço que Bolsonaro vai pagar é, naturalmente, aquilo que o Centrão vai cobrar em cargos, verbas e espaços. Aliás, esse é um preço já cobrado. O fato de eles terem mais latitude no Parlamento já permitiu que houvesse isso que o Estadão denunciou, o orçamento secreto. Arthur Lira vai ter R$ 11 bilhões para distribuir para deputados e partidos mais próximos sem a transparência necessária. No Congresso, eles já estão tomando uma série de medidas para se fortalecer. No Executivo, vão procurar as ligações-chave. Eventualmente, um ou outro escândalo vai surgir. Não se entrega a um grupo fisiológico grandes porções do governo sem que isso tenha repercussão.

A mudança tem influência nas chances de um pedido de impeachment ser ou não aceito?

Acho que a intenção dele é essa: atender amplamente ao grupo que o apoia no Congresso para que esse grupo devolva em fidelidade e, sobretudo, em blindagem em relação aos processos de impeachment. Bolsonaro já está em choque com o vice-presidente da Câmara, então ficou perigoso para ele. O Centrão oferece essa blindagem, desde que lhe sejam oferecidas também as vantagens que ele quer. Mas existe um limite, em que o Centrão analisa as vantagens que obteve, e pode obter, e as consequências de um suicídio político. Não se jogam ao mar junto com o presidente. Não se matam politicamente, vão só até a beira do túmulo.

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Estadão Conteúdo






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