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Funai já sabia sobre declaração de coordenador estimulando ‘meter fogo’ em indígenas isolados no AM

“Eu vou entrar em contato com o pessoal da Frente e pressionar: ‘Vocês têm de cuidar dos índios isolados, porque senão eu vou, junto com os marubos, meter fogo nos isolados'”

Foto: Mário Vilela / Funai /Divulgação

Fabiano Maisonnave
FolhaPress

A sede da Funai (Fundação Nacional do Índio) tem conhecimento desde o dia 7 de julho do áudio em que seu coordenador regional do Vale do Javari (AM), o tenente reformado do Exército Henry Charlles Lima da Silva, aparece estimulando líderes do povo marubo a disparar contra indígenas isolados. O funcionário, no entanto, não foi punido ou exonerado até agora. A gravação foi feita na aldeia Vida Nova em 23 de junho, duas semanas após uma suposta tentativa de sequestro de uma mulher marubo por indígenas isolados.

Em reunião, Silva afirmou: “Eu vou entrar em contato com o pessoal da Frente [de Proteção Etnoambiental, setor da Funai responsável pelos monitoramento de povos isolados] e pressionar: ‘Vocês têm de cuidar dos índios isolados, porque senão eu vou, junto com os marubos, meter fogo nos isolados'”.

Em relatório sobre o episódio obtido pelo jornal Folha de S.Paulo, a Coordenadoria-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) informou ter recebido o áudio de líderes marubos contrários à posição do coordenador. Para a CGIIRC, a declaração do tenente reformado “é de extrema gravidade e não condiz com a missão institucional da Funai, que é a proteção física dos povos indígenas isolados do Brasil”.

Ainda segundo a CGIIRC, a posição de Silva “não condiz com o comportamento e atitudes que um gestor da Funai deve manifestar em aldeias indígenas onde há um panorama de potencial conflito interétnico”. Dois dias depois, em 9 de julho, Lima da Silva enviou sua defesa à Diretoria de Proteção Territorial (DPT) da Funai. Ele admitiu que usou “equivocadamente” a expressão “meter fogo nos isolados”, mas justificou que foi “apenas no sentido de tomar alguma providência junto às instâncias superiores de nossa instituição”.

O episódio, revelado pela Folha de S.Paulo no último dia 22, gerou forte reação do movimento indígena. A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) acusou Lima da Silva de incitar o genocídio. O Ministério Público Federal investiga o caso.

Via assessoria de imprensa, a Funai informou na segunda-feira (26) “que o caso está sendo apurado em âmbito interno”, sem detalhar como. O órgão disse que “não compactua com qualquer conduta ilícita, bem como com juízos açodados, emitidos antes que seja concluída a apuração dos fatos”.

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A demora da Funai, presidida pelo delegado da Polícia Federal Marcelo Xavier, em agir com relação ao coordenador da Vale do Javari (AM) contrasta com uma série de denúncias que o órgão federal tem feito contra líderes indígenas opositores do governo Jair Bolsonaro.

Desde o final de abril, Xavier já fez quatro denúncias. O primeiro caso foi contra Sonia Guajajara, da Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil). Em seguida, foi a vez do líder Almir Suruí, da Terra Indígena Sete de Setembro, em Rondônia. Ambos processos já foram arquivados pela PF e pelo MPF, respectivamente.

Em 12 de maio, após provocação de Xavier, a PF no Amazonas abriu inquérito contra o líder waimiri-atroari Mário Parwe Atroari, duas organizações indígenas e até servidores da própria Funai. O caso mais recente ocorreu no próprio Vale do Javari e também está relacionado com o suposto surgimento dos isolados nas comunidades marubos.

A Funai denunciou ao MPF quatro representantes da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) por descumprir a quarentena da Covid-19. O grupo havia ido às aldeias marubos em caráter emergencial para apaziguar os ânimos, dias após o caso do suposto rapto.

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