Os cachês recebidos pelos artistas pagos com emenda do deputado Raad Massouh (PPL) não passariam de R$ 31,5 mil, enquanto o gasto previsto seria de R$ 100 mil. A revelação foi feita pelo delegado Flamarion Vidal, uma das testemunhas ouvidas ontem pela Comissão de Ética, que investiga as supostas irregularidades em um evento promovido em Sobradinho.
O delegado disse não ter dúvidas da participação de Raad no esquema e classificou o processo de contratação para o evento como “show de horrores”.
Aliados políticos
Foram ouvidos ontem, além do delegado Flamarion Vidal, o ex-gerente de agricultura da Administração de Sobradinho, Jorge Soares Rocha, domador de cavalos, responsável pela assinatura no projeto, e uma testemunha convocada por Raad, o advogado Eufrásio Pereira da Silva, seu aliado político.
Durante boa parte da sessão, Raad Massouh permaneceu na primeira fila do plenário, quase sempre segurando um terço nas mãos.
Segundo Vidal, Raad teve benefícios com o evento, já que pôde discursar como autor da emenda e divulgar empreendimento do qual é sócio, RM Hotel Fazenda. Aa investigação teria constatado movimentação financeira incompatível com o salário de deputado.
Além disso, o evento ocorreu de forma diferente da prevista no projeto, que incluía festa de dois dias, público de 10 mil pessoas e cinco bandas. A Polícia Civil apurou que foi apenas um dia de evento, com público máximo de 200 presentes.
Liberou geral
O processo de dispensa de licitação incluía apenas as bandas e foram ignorados gastos com infra-estrutura, como sonorização e banheiros químicos, por exemplo. A remuneração dos artistas foi feita em desacordo com aquilo que foi declarado pelos organizadores
Antes de concluir a investigação, os delegados da Decap foram exonerados, após a mudança na direção geral da Polícia Civil. Em escutas telefônicas, Raad teria comemorado a saída de Flamarion do processo. Com a saída dos delegados, os dados levantados foram encaminhados ao Ministério Público, que executou a operação Mangola.
Raad pede para ser ouvido ainda hoje
Ao final da sessão, Raad encaminhou requerimento para ser ouvido hoje pela Comissão de Ética. A oitiva foi aprovada pelos deputados e deve ser realizada hoje, assim como o ex-administrador de Sobradinho, Carlos Augusto de Barros e o irmão, José Carlos de Barros. Na semana passada, as testemunhas arroladas foram o delegado Henry Lopes, o promotor de eventos Carlos Henrique Neves, conhecido como Muriçoca, e a ex-presidente do Sindicato de Turismo Rural do DF, Maria Inês de Lima. Os dois últimos ficaram calados.
Executor assinou nota sem ler
O domador de cavalos Jorge Soares admitiu ter assinado sem ler o documento trazido por Carlos Henrique Neves, o “Muriçoca”, promotor de eventos, e nem sequer sabia quais deveriam ser as funções do executor de um contrato. “Ele chegou me pedindo para dar um visto nas costas de uma nota”, afirmou. “Ele levou alguma coisa (projeto) para eu assinar”, concluiu.
Para a Justiça Eleitoral
Para o advogado da defesa, Cléber Lopes, as provas trazidas pela Polícia Civil não são suficientes para provar a participação de Raad.
“Não há indícios de que o deputado tenha interferido na escolha da empresa, tenha manipulado contratação e que tenha recebido qualquer vantagem. Essa especulação de que ele obteve vantagem eleitoral é competência da Justiça Eleitoral. Então por que não cassaram o deputado?”, questionou.
Também foi ouvido o advogado Eufrásio Pereira, que falou sobre como funcionam as emendas parlamentares.
Ponto de vista
Segundo o corregedor da Câmara, deputado Patrício (PT), após o segredo de Justiça, serão conhecidas novos e importantes detalhes que envolvem o processo contra Raad. “A sociedade vai saber, inclusive. quais deputados ligaram para autoridades recomendando o arquivamento, o encerramento dessas investigações. Por enquanto, estamos aqui, pautados no destino dos R$ 100 mil dessa emenda”, acusou, ao pedir aos integrantes da Comissão de Ética que se ativessem ao assunto agendado durante os depoimentos.