DANIEL MARIANI, PAULA SOPRANA E NICHOLAS PRETTO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Candidato à reeleição, o presidente Lula (PT) perdeu votos em quase toda a distribuição de renda na comparação com o primeiro turno de 2022, com impacto maior nos setores de renda média. Entre os 4% mais ricos, registrou crescimento.
Já Flávio Bolsonaro (PL) avançou sobre todas as faixas de renda na comparação com os votos do pai, Jair Bolsonaro, deslocando o voto para os mais pobres.
O pico da perda de Lula foi no grupo no qual o responsável pelo domicílio ganha cerca de 1,71 salário mínimo, o que equivale a R$ 2,7 mil. Na cidade de São Paulo, o petista caiu entre os setores mais pobres e subiu entre os mais ricos.
Apesar das movimentações, a renda demonstra uma fronteira clara: Lula vence entre os mais pobres (com ampla margem entre quem ganha até um salário mínimo, que vai se estreitando até 1,6 salário mínimo), cerca de 42% da população.
Flávio vence no restante, de 1,6 salário mínimo até 16, 3 salários mínimos (conjunto que representa 68% da população e vai de parte da renda média baixa até a mais alta).
A análise da Folha cruza a votação presidencial do primeiro turno nos 468 mil setores censitários do Brasil com a média de renda desses setores, medida pelo Censo Demográfico de 2022. Setores censitários são a menor unidade territorial medida pelo IBGE e equivalem a um quarteirão, uma vizinhança ou um condomínio, a depender do município.
A reportagem dividiu essas localidades em 100 grupos de renda de igual tamanho, sendo 1 o mais pobre e 100 o mais rico. O levantamento usa o rendimento nominal médio mensal declarado pelo responsável pelo domicílio de cada setor ao Censo de 2022, divulgado pelo IBGE em 2026.
A maior vantagem de Lula está nos setores com renda média de 0,7 salário mínimo –R$ 1,1 mil hoje, com 76% dos votos. Já a de Flávio está na faixa de 2,9 salários mínimos, que correspondem a R$ 4,7 mil, na qual ele conquistou 56% dos votos. Essa faixa já posiciona a população entre os mais ricos do país.
A classe média brasileira não segue o padrão de classe média tradicional de um país rico como os Estados Unidos, que seria mais próxima à AB, que votou no Bolsonaro. Uma renda mensal do chefe do domicílio de R$ 5.000 situa o eleitor entre os 20% mais ricos.
Já no grupo mais rico calculado segundo os dados do Censo, de 16,2 salários mínimos (cerca de R$ 26,2 mil hoje), Flávio obtém 50% dos votos e Lula, 39%.
Neste recorte menos granular, a classe C detém 78% da população, o que esconde desigualdades internas, menos aparentes na análise de 0 a 100, e o que conta é a renda média domiciliar total, não per capita.
Na comparação com o primeiro turno de 2022, Lula perdeu mais votos entre a classe média e média baixa. Sua queda é de 5,1 pontos percentuais na classe C; de 3,9 na D; e de 3,2 p.p. na classe E. Por outro lado, ele avança na B (alta tímida de 0,4 p.p.) e na A (1,6 p.p.).
Flávio ganhou votos em relação ao pai em todas as faixas. A Folha já mostrou que ele expandiu a votação de Jair nos estados e que tirou votos de Lula em 714 cidades. Na relação com 2022, o PL avança sobre Lula em todas as classes. A alta substancial é na classe C, de 4,9 pontos percentuais, e sobre os mais pobres, com 4,5 p.p na classe D e 4,3 p.p na E.
A divisão por classe usa critérios da FGV Social, segundo estudo de 2023 com valores médios daquele ano deflacionados pela reportagem para o último Censo. No estudo, classe A agrega população com renda familiar igual ou maior do que R$ 14,2 mil, classe B (R$ 10,9 mil a R$ 14,2 mil), classe C (R$ 2,5 mil a R$ 10,9 mil), classe D (R$ 1,6 mil a R$ 2,5 mil) e classe E (R$ 0 a R$ 1,5 mil).
Especialistas concordam que índices de melhora do emprego e de renda não se traduziram em sensação de bem-estar para o eleitor de classe média e de média baixa. Juros altos, endividamento e inadimplência ajudam a explicar o descompasso.
O economista Flávio Ataliba, que pesquisa bem-estar e endividamento, está desenvolvendo um estudo para entender a correlação entre renda e voto nos estados no primeiro turno –se os mais pobres votam em Lula e os mais ricos em Flávio. Ele diz que o grau de associação é de quase 70%.
“Mas quando tiramos o Nordeste da amostra e fazemos a investigação olhando só para outras regiões, a associação entre entre renda e voto cai muito, fica praticamente insignificante”, afirma Ataliba, pós-doutor em Harvard, professor da Universidade Federal do Ceará e coordenador do Centro de Estudos do Desenvolvimento do Nordeste do FGV IBRE.
Exemplos são Acre e Roraima, no Norte, com votações expressivas em Flávio e indicadores de renda e de pobreza semelhantes aos de estados do Nordeste.
“O efeito de votar no Lula é mais concentrado no Nordeste, mas não é só renda ou pobreza que explicam o voto nele, há questões institucionais, históricas e regionais que se sobrepõem a essas variáveis, e isso precisa ser entendido melhor.”
O levantamento da Folha indica comportamentos de renda e voto muito distintos a depender do estado. Minas Gerais segue tendência semelhante ao Brasil. Já na Bahia, Lula vence em todos os grupos de renda, com a margem menor à medida que a renda cresce. No Paraná, ocorre o inverso, Flávio vence em todos os setores, com distância pequena entre os mais pobres e ampla vantagem conforme a renda aumenta.
Marcelo Neri, pesquisador da FGV Social, afirma que os fatores econômicos que ajudam a explicar a insatisfação da classe C estão ligados a obstáculos de consumo, apesar da agenda de Lula ligada a essa fatia —isenção de Imposto de Renda até R$ 5.000, Desenrola, crédito subsidiado para a compra de motocicletas por entregadores, aumento do Bolsa Família e, por último, a proibição das bets.
“Os dados para o trabalhador são bons, são inclusive comparáveis, em termos de mudança, aos de ‘anos de ouro’, de ascensão da classe C e da nova classe média. A renda média do trabalho cresceu 26% em termos reais, incluindo formais, informais, desempregados, e a renda bruta em geral dos brasileiros teve desempenho surpreendentemente bom, dado as percepções e o voto das diferentes classes”, afirma.
“O brasileiro está trabalhando, está gerando renda, o governo está transferindo renda —obviamente cobrando imposto do outro lado, que vai um pouco na direção oposta—, mas o brasileiro segue endividado”, afirma, atribuindo boa parte do problema às bets. Ele especula que a medida de Lula tenha sido tardia do ponto de vista eleitoral.
O economista aponta que novos comportamentos subjetivos ainda precisam ser compreendidos e que eles extrapolam a renda, apesar de uma relação com ela. Cita o conservadorismo e novas aspirações de consumo ligadas a influenciadores e redes sociais. “As redes sociais estão começando a governar os mercados eleitorais, com vários influenciadores com recorde de votos em contraposição a políticos tradicionais”, diz. “É um mundo mais gasoso, não é mais carro, crédito, celular, são outros desejos.”
METODOLOGIA
A reportagem geolocalizou os locais de votação a partir de coordenadas fornecidas pelo TSE, validadas com a malha do IBGE. Para locais sem coordenadas válidas, cruzou CEPs e endereços com o Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos, do IBGE, e, nos casos restantes, utilizou o OpenStreetMap.
Em seguida, os locais de votação foram relacionados aos setores censitários do IBGE, considerando a proximidade entre eles. A votação atribuída a cada setor é uma estimativa baseada nas urnas próximas, não o resultado exato de seus moradores. Os resultados do TSE foram conferidos com os boletins de urna, com coincidência de 100%.
Para medir a renda, a análise utilizou o rendimento médio mensal dos responsáveis pelos domicílios com renda, segundo o Censo 2022, em salários mínimos daquele ano. Os setores foram ordenados por renda e divididos em cem grupos de igual tamanho (percentis). A votação de cada grupo corresponde à média dos percentuais de votos válidos de seus setores.
Como essa medida considera o responsável pelo domicílio, a reportagem testou outras quatro medidas de renda, incluindo dados do Censo 2010. Os resultados foram praticamente idênticos, com a maior perda de Lula concentrada nos setores de renda média-baixa.
Setores sem domicílios, com renda sob sigilo estatístico (menos de 2% do total) ou sem locais de votação próximos foram excluídos.
A análise foi feita pelo jornalista de dados Daniel Mariani, que também publicou o resultado do cruzamento de dados neste mapa.