Brasília e São Paulo, 19 – O senador Flávio Bolsonaro (RJ), pré-candidato do PL à Presidência, admitiu ontem que visitou Daniel Vorcaro em sua residência no fim de 2025, após a primeira prisão do dono do Banco Master. A revelação do fato – que indica mais um elemento de proximidade do senador com o banqueiro – ocorreu no mesmo dia em que a pesquisa Atlas/Bloomberg mostrou que a vinculação com o caso Master já tem reflexo no índice de intenções de voto no presidenciável do PL.
Conforme o levantamento, as intenções de voto no senador caíram mais de cinco pontos porcentuais no primeiro turno e seis pontos em um eventual segundo turno após a divulgação das mensagens e do áudio em que ele pede dinheiro a Vorcaro.
Após o site Metrópoles publicar a informação, Flávio fez um pronunciamento à imprensa. Ele alegou que foi à casa do banqueiro, em São Paulo, para “pôr ponto final nessa história”, em referência à negociação para o financiamento do filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O senador não respondeu a perguntas dos jornalistas.
As revelações contradizem declarações anteriores do pré-candidato do PL, de que não conhecia e de que sua família não tinha “contato pessoal” com Vorcaro. Nas mensagens divulgadas, o senador chama o banqueiro de “mermão” e “irmão”. Posteriormente, ele alegou que omitiu seu contato com o dono do Master por causa de uma cláusula de confidencialidade no contrato a respeito do financiamento do filme.
“Quando Vorcaro foi preso, tivemos uma virada de chave e entendemos que a situação era grave”, afirmou ontem o pré-candidato do PL. O dono do Master foi preso preventivamente pela primeira vez em 17 de novembro de 2025, na capital paulista, quando tentava embarcar em um jatinho com destino a Dubai, nos Emirados Árabes. A Polícia Federal entendeu que se tratava de uma tentativa de fuga. O banqueiro foi solto 12 dias depois e passou a usar tornozeleira eletrônica.
‘VIRADA DE CHAVE’
“No final de 2025, houve aquele áudio em que eu peço uma luz para saber uma palavra final sobre o que ia acontecer. Estava em um grande risco de o filme ser encerrado. Seria uma catástrofe. No dia seguinte, ele foi preso. Nesse momento é que nós vimos ali, deu uma virada de chave, nós entendemos melhor que a situação era muito mais grave”, declarou Flávio.
“Eu falei ali dentro para os deputados: eu estive com ele (Vorcaro) mais uma vez, após esse evento (primeira prisão do banqueiro), quando ele passou a usar monitoramento eletrônico e não podia sair da cidade de São Paulo. Eu fui, sim, ao encontro dele para colocar um ponto final nessa história. (Fui) dizer que, se ele tivesse avisado que a situação era grave como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há muito tempo, e o filme não correria risco. Foi uma grande dificuldade arrumar outros investidores.”
Na semana passada, o site Intercept Brasil revelou mensagens por escrito e áudio entre Flávio e o dono do Banco Master. Nos diálogos, o senador pede dinheiro a Vorcaro para ajudar a bancar a produção do longa Dark Horse, sobre a vida do pai.
Segundo o site, teria havido uma negociação para que Vorcaro ajudasse com uma contribuição equivalente a US$ 24 milhões e que já teriam sido feitos pagamentos até 2025 no valor de US$ 10 milhões. O Estadão confirmou que esses valores estão referidos nos documentos contidos na investigação.
A extração integral desse conteúdo foi compartilhada com a defesa de Vorcaro em fevereiro, por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF). Até o momento, a PF não realizou nenhuma diligência ou abriu investigação para apurar esses fatos específicos envolvendo Flávio. O senador disse que buscava financiamento privado para a produção e defendeu uma CPI do Banco Master.
Vorcaro foi preso novamente em 4 de março deste ano. O ministro do Supremo André Mendonça, relator do caso, atendeu a um pedido da PF que o apontava como líder de uma organização criminosa voltada a vigiar e intimidar pessoas que contrariavam os interesses do Master. A defesa de Vorcaro nega todas as irregularidades, mas está negociando com o STF uma delação premiada.
VANTAGEM
Conforme a pesquisa Atlas/Bloomberg, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a liderar a disputa contra Flávio no segundo turno e ampliou a vantagem no primeiro. Em abril, o cenário de segundo turno apontava empate técnico, com o senador bolsonarista com 47,8% ante 47,5% do petista. Agora, o presidente tem 48,9% ante 41,8% do filho de Jair Bolsonaro.
A maior parte dos votos que eram de Flávio passou para os indecisos, brancos e nulos: o grupo saltou de 4,7% no último levantamento para 9,3%.
A pesquisa foi realizada entre os dias 13 e 18 de maio – ou seja, as entrevistas começaram no mesmo dia em que o site Intercept Brasil divulgou as mensagens de Flávio para Vorcaro.
Com perguntas específicas em relação ao episódio, a pesquisa mostra que 51,7% dos entrevistados que tomaram conhecimento das mensagens trocadas entre Flávio e o banqueiro consideram que existem evidências de envolvimento do senador com o escândalo do Banco Master. Para outros 33,3%, as conversas mostram uma tentativa legítima de Flávio em conseguir investimentos para bancar o filme Dark Horse.
HORA TRABALHADA
Pressionado pelas revelações, Flávio tenta manter uma agenda de pré-campanha. Ontem ele se reuniu com deputados e parlamentares do PL e defendeu uma mudança na lei trabalhista para prever a remuneração por hora trabalhada. Segundo ele, a proposta seria uma alternativa ao fim da escala de trabalho 6×1, encampada principalmente por partidos de esquerda e pelo governo Lula, que apresentou um projeto de lei com a redução de jornada de 44 para 40 horas semanais.
Estadão Conteúdo