Natasha Dal Molin
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Para um dos idealizadores da Lei da Ficha Limpa, a nova norma já cumpriu seu papel. Em uma entrevista exclusiva ao Jornal de Brasília, Chico Whitaker defende uma imensa reforma política no país, mas declara que isso só deve ocorrer se for feito ponto a ponto. Nesse aspecto, considera a Ficha Limpa e a Lei da Corrupção Eleitoral, na qual também atuou significativamente para fazer valer, foram importantes passos.
O senhor comentou há pouco sobre o Tiririca e caso ele seja efetivamente eleito, assim como outros “personagens” que estão disputando o pleito, como o senhor imagina que vai ser o Congresso Nacional no ano que vem?
É o drama do nosso Congresso. Eu pessoalmente considero que o fulcro da nossa problemática política, especialmente no que se concerne à corrupção, é no Congresso. É lá dentro que está o ninho da serpente. E isso não vai acontecer enquanto não houver, de um lado, mais leis como a da corrupção eleitoral e a da Ficha Limpa para melhorar a qualidade do nosso Congresso e enquanto não houver do lado do Executivo, uma coisa essencial, eu acho, que é uma mudança na maneira de se relacionar com o Legislativo. Atualmente é essa solução absolutamente insensata de que como o Executivo depende absolutamente de maioria, ele compra sua maioria. E isso é o que determina todos os canais de corrupção que existem. Hoje, ser deputado, ser senador, é um grande negócio. E isso não vai ocorrer enquanto o Executivo não assumir diante do Legislativo uma atitude de respeito a essa outra instituição e realmente trabalhar a questão chamando a responsabilidade dos parlamentares e não os comprando. É a velha tradição brasileira, pior ainda no nível municipal. É inacreditável isso que acontece. O que determina que evidentemente qualquer vereador que se preze entra pobre e sai rico. Isso faz parte da nossa cultura política. Enquanto nós não superarmos isso, vamos continuar a ter dificuldade para aprovar a reforma política. A qualidade do nosso parlamento não é suficientemente alta para votar o que tem que ser votado. Quando nosso projeto chegou lá no Congresso, muitos parlamentares favoráveis a ele diziam: olha, vocês podem tirar o cavalo da chuva que é mais difícil esse projeto ser aprovado do que uma vaca voar. Diziam isso. E a vaca voou. E por quê? Porque houve pressão da sociedade e houve um trabalho muito concatenado e houve um número grande de parlamentares que assumiu a causa. Isso não se pode ignorar. Em geral se fala só da pressão da sociedade, mas se não tivesse dentro do Congresso um número suficiente de parlamentares que assumissem a causa, a começar pelos 33 que assinaram o projeto e depois os que trabalharam objetivamente para que se chegasse a uma redação adequada, não teria nunca passado. A experiência desse projeto foi muito mais rica talvez do que a do corrupção eleitoral, há dez anos. Porque há dez anos, o parlamentar que não aprovasse estava fazendo uma declaração de intenção. Estava dizendo: eu não quero que punam a compra de votos, porque eu pretendo comprar votos. Esta não, o sujeito que aprovasse estava colocando a faca no pescoço dele. Então na verdade era muito mais difícil.
O senhor acredita que pode acontecer de uma forma parecida com a reforma política?
Eu acho que é difícil a reforma política porque a tendência nossa em geral é querer tudo. Essa é uma estratégia que tem que ser discutida, debatida. Se a gente for com um monte de coisas a mudar, não mudará nenhuma. E na minha opinião, a melhor estratégia é ponto a ponto. Não precisa ser um, mas pegar pontos estratégicos e vamos mudando. Esses dois projetos, o da corrupção eleitoral e da Ficha Limpa já foram enormes passos de reforma política. Mas tem um monte de outros. Já passa a ser um problema nosso, dos movimentos sociais que estamos atrás disso.