São Paulo, 14 – A proposta do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, de criar um selo para premiar institutos de pesquisa cujos levantamentos mais se aproximarem do resultado das urnas foi recebida com indignação por grandes empresas do setor. Para elas, a iniciativa parte de uma premissa equivocada ao considerar que pesquisas eleitorais fazem previsões.
A minuta à qual o Estadão teve acesso diz que o “Selo Acurácia Eleitoral”, como é chamado o prêmio, tem como finalidade “contribuir para a precisão entre os dados levantados pelas pesquisas e os resultados oficiais das eleições”, “incentivar o aprimoramento contínuo da qualidade metodológica das pesquisas eleitorais” e “conferir visibilidade às empresas com melhor desempenho”.
O Selo será concedido em anos de eleições gerais, com entrega para depois do segundo turno, e contemplará pesquisas para presidente e governador. A proposta é que a avaliação considere apenas levantamentos de boca de urna e pesquisas realizadas nos sete dias que antecedem o pleito. Elas devem obrigatoriamente constar no Sistema de Registro de Pesquisas Eleitorais (PesqEle) e ter sido divulgadas ao público.
A proposta foi apresentada pelo ministro Nunes Marques em reunião com representantes de diferentes institutos de pesquisa nesta terça-feira, 14. O encontro foi convocado após o ministro suspender a divulgação de uma pesquisa da AtlasIntel que apontou uma queda de seis pontos porcentuais na intenção de voto do senador Flávio Bolsonaro (PL). A decisão foi classificada por empresas do setor como um ato de “censura”.
Pessoas que estavam presentes na reunião afirmaram crer que a proposta foi apresentada como uma tentativa de o ministro se reaproximar dos institutos de pesquisa após o desgaste provocado pelo caso Atlas. No entanto, o gesto acabou sendo considerado um “tiro no pé”, já que Nunes Marques teria demonstrado um conhecimento limitado sobre pesquisas eleitorais.
‘Exigir que pesquisa acerte é confundir ciência com bola de cristal’, diz Abep
A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa criticou a proposta do presidente do TSE. “Pesquisas medem a intenção de voto no momento em que são realizadas. Não são previsões nem promessas de resultado. Entre a entrevista e a votação, eleitores mudam de opinião, deixam de votar ou alteram seu comportamento. Exigir que uma pesquisa “acerte” o resultado é confundir ciência com bola de cristal,” afirmou a entidade.
Para a associação, a proposta cria um “incentivo perverso” e pode ser usada de forma oportunista por institutos sem rigor metodológico, que poderão simplesmente acompanhar as pesquisas de institutos sérios e, na reta final da campanha, ajustar seus números para convergir ao consenso.
“Causa especial preocupação que a Justiça Eleitoral pretenda assumir o papel de árbitro da qualidade das pesquisas a partir de um critério tecnicamente equivocado. A avaliação da qualidade de um levantamento deve considerar metodologia, desenho amostral, transparência, execução do campo e aderência às boas práticas científicas – não apenas a proximidade entre um retrato da opinião pública e um resultado que ainda estava por acontecer quando a pesquisa foi realizada.”
Maurício Moura, fundador do instituto de pesquisa Ideia, disse ao Estadão que a medida não contribui para aumentar a transparência dos levantamentos eleitorais e pode ainda desestimular a divulgação de pesquisas na reta final da eleição
“Pesquisa não é um modelo preditivo, é um retrato do momento. Não dá para comparar um levantamento feito cinco dias antes da eleição com outro realizado na véspera. Essa comparação é impossível. E, mesmo que fosse feita, como considerar a margem de erro, que é um aspecto altamente técnico? Não me parece uma boa saída. Acho que isso pode desestimular os institutos a registrar pesquisas nos últimos sete dias de campanha, porque eles ficariam sujeitos a uma métrica bastante inadequada”, afirma.
A diretora do Datafolha, Luciana Chong, avalia que a proposta do presidente do TSE revela um equívoco sobre a própria natureza das pesquisas eleitorais. “Pesquisas são estimativas estatísticas, sujeitas a margem de erro, diferentes metodologias, momentos distintos de coleta e mudanças no comportamento do eleitorado. Não faz sentido reduzi-las a um ranking baseado apenas na proximidade com o resultado final, como se fosse possível medir sua qualidade exclusivamente por esse critério”, afirmou.
Já o CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, seguiu linha diversa. Ele disse em publicação no X que é a favor da proposta. “AtlasIntel apoia a iniciativa do Ministro Nunes Marques para a criação do selo de qualidade de pesquisas a partir de critérios objetivos de precisão. Estamos à disposição para contribuir na discussão metodológica, a partir de iniciativas semelhantes a nível internacional.”
Estadão Conteúdo