Política & Poder

“Devemos nos despir de preconceitos” diz Ricardo Berzoini

Para Ricardo Berzoini, o PT e todas as demais forças alinhadas deveriam conversar em torno de uma aliança ampla para derrotar Bolsonaro

Entrevista Mirian Belchior,ministra

Lucas Neiva e Vanessa Lippelt
[email protected]

A um ano e meio das próximas eleições presidenciais, o cenário político brasileiro sofreu uma reviravolta com a anulação das condenações contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos casos do Triplex do Guarujá e do Sítio de Atibaia, seguida da suspeição do ex-ministro da Justiça Sérgio Moro nos processos que envolvem o ex-presidente.

O Partido dos Trabalhadores (PT) se viu diante de um novo cenário político, em que seu nome de maior influência política retorna ao posto de candidato elegível para as eleições de 2022. Paralelamente, o atual governo perde popularidade diante da ineficiência da gestão da crise sanitária provocada pela covid-19.

Uma visão simplista do novo cenário deveria apontar para o PT apostar todas as suas fichas em Lula. Mas o ex-presidente do partido e ex-ministro em diversas ocasiões nos governos petistas, Ricardo Berzoini, recomenda cautela. Para ele, o PT e todas as demais forças alinhadas com o respeito à democracia deveriam se despir agora de preconceitos e conversar em torno de uma aliança ampla para derrotar Bolsonaro.

Um esforço pela garantia da democracia, como o feito por Tancredo Neves no processo que permitiu a redemocratização do país em 1985. É o que ele prega na entrevista abaixo.

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O Brasil era uma referência em saúde pública e vacinação. E hoje somos tratados como párias. O que aconteceu?

O Brasil hoje é uma ameaça efetivamente, porque não soube controlar [a pandemia] em tempo hábil. Isso se deve fundamentalmente primeiro pela postura do Bolsonaro, de querer o tempo todo se desfazer da crise, se desfazer da pandemia. E segundo porque, com o teto de gastos, os investimentos do SUS foram comprimidos. No ano passado, ainda houve o orçamento de guerra que amenizou essa situação, mas neste ano sequer isso nós temos. Também não temos o auxílio emergencial de R$ 600, que ajudava uma parte das famílias a permanecer em um certo isolamento. Nem temos uma fiscalização, força política ou de vontade para fazer com que as pessoas fiquem em casa.

Nas últimas semanas, houve uma mudança total no cenário político brasileiro, com a volta de Lula ao páreo. Como deverá ser agora a postura do PT?

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Eu ainda sou muito cauteloso com relação a cenários eleitorais, porque acho que ainda falta muito tempo para a eleição. Nós temos uma pandemia, precisamos cuidar dessa questão e não ficar priorizando eleições neste momento. Mas é um cenário que exige muita abertura para o diálogo, até porque eu acho que uma boa política de alianças pode significar barrarmos o fascismo, o autoritarismo, a visão militarista.

Ao mesmo tempo em que Lula aparece pela primeira vez liderando uma pesquisa de intenção de voto, forças de centro articulam-se. E o ex-candidato do PDT à Presidência Ciro Gomes prega que Lula não se candidate para que haja a construção de uma outra aliança. Aí, o PT reage contra Ciro. Não se gasta muita energia nessas disputas quando talvez a energia devesse ser concentrada em derrotar Bolsonaro, que é o adversário na Presidência?

Acho sim. Acho que na verdade todos nós deveríamos nos despir de preconceitos, de posições irremovíveis para que possamos efetivamente discutir o conteúdo. Nós temos duas possibilidades: uma é de cada partido, ou até de cada bloco de partidos, disputar o primeiro turno e apresentar seu programa de governo com uma visão de uma eleição mais normal. E temos uma possibilidade que é caracterizar que há um projeto fascista no país, que está em decadência por conta do insucesso na economia, na pandemia, no meio ambiente, nas relações exteriores, mas que ainda pode ter força porque está no governo. Então qual é o raciocínio da segunda hipótese? É que nós podemos ter uma aliança, de um governo que não tem a característica de ser necessariamente de esquerda, mas que possa juntar setores do centro e da esquerda com alguns compromissos. Os compromissos seriam o respeito aos direitos humanos, respeito ao Estado democrático de Direito no sentido mais amplo dessa expressão, respeito ao meio ambiente e uma política econômica de inclusão social. Esses quatro elementos, eu creio que ao menos em teoria, unem o PT, unem o PDT de Ciro Gomes, unem o PC do B, o PSB, o PSOL, e podem unir eventualmente setores do PSDB e até do DEM.

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Isso é possível?

Já se sabe que na política a teoria é muito boa, mas a prática às vezes nos atrapalha. O Ciro deu algumas declarações muito agressivas em relação ao Lula. Eu tenho certeza que o Lula não guarda rancor, mas é preciso que o Ciro faça um gesto para se aproximar. Porque se ele não fizer um gesto e nós o fizermos, podemos receber em troca uma resposta malcriada. E não é isso que constrói uma frente. Uma frente tem que ter um programa. Se a frente for ampla, o programa tem que ser amplo, e temos que ter o compromisso de conduzir o Brasil.

Outro dia usei uma expressão que talvez possa soar estranha no ouvido de algumas pessoas da esquerda: talvez seja o Lula de 2022, se for candidato, uma espécie de Tancredo Neves da redemocratização. Tancredo Neves exerceu um papel na redemocratização que talvez Lula e outros líderes possam exercer agora, reconhecendo que Bolsonaro é uma ameaça à democracia.

Como o senhor avalia a atual crise do governo com as lideranças das Forças Armadas?

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Essa é uma das questões mais delicadas da conjuntura. Como tem muitos generais e outros oficiais compondo o governo em funções administrativas ou políticas, parece, para quem olha de fora, o seguinte: as Forças Armadas estão no governo. Mas é um governo militar? Formalmente não é, porque não há figura do governo militar em uma democracia, mas há muitos militares no governo. Então eu acho que o Bolsonaro tenta o tempo todo fazer passar a ideia de que ele tem um comando para além do que a Constituição permite sobre as Forças Armadas. Eu vejo hoje, e ouço de muita gente, a reação a isso. Tanto civis quanto militares que acham que as Forças Armadas podem se desmoralizar se embarcarem em uma aventura mais ainda governista. Ou seja: se ficar caracterizado que é um projeto das Forças Armadas.

Nós vimos o que houve nos EUA na derrota de Donald Trump: a invasão do Capitólio. O senhor acredita que, em caso de o presidente Jair Bolsonaro perder as eleições, ele vá sair do governo tranquilamente?

É difícil acreditar nisso, porque ele tem naturalmente uma postura sempre beligerante. Mas eu percebo que o Supremo Tribunal Federal (STF) de sua maneira, do seu jeito que nem sempre coincide com a aspiração daqueles que gostariam de uma ação mais contundente, tem colocado várias questões nos eixos. Decisões que são tomadas pelo governo e que o STF coloca a bitola da Constituição para definir. E o Bolsonaro, apesar de vociferar, acaba cumprindo. Então em uma situação extrema como essa, evidentemente será um teste para a democracia brasileira. O Brasil não comporta o retrocesso e o mundo de hoje também não comporta. Funcionários e outros manifestantes levados pelo radicalismo de Trump faleceram em uma aventura absolutamente ridícula. Por outro lado, é preciso também perceber é que esse discurso de ódio tem base: o Trump teve 70 milhões de votos. O Bolsonaro está com queda de popularidade, mas ainda tem de 25 a 30% da população que acreditam que ele faz um bom governo, por incrível que pareça. Então é a gente continuar o trabalho político com tolerância, com paciência, para mostrar ao povo que esse tipo de governo não interessa aos brasileiros. Uma pandemia também é pedagógica. Ela ensina a todos nós que, assim como no trânsito, quando um motorista só faz alguma coisa errada, todos os demais também estão em risco.

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