Jornal de Brasília

Informação e Opinião

Política & Poder

‘De centro, um pouco pra esquerda’, Raimundo Lira conduz o impeachment

Por Arquivo Geral 27/06/2016 1h14

"O sr. votou pela admissibilidade do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Significa dizer que votará sim pela aceitação do mérito?" <p><p>No sofá confortável de uma das salas de estar de seu palacete no Lago Sul, em Brasília, o senador Raimundo Lira (PMDB-PB), de 72 anos, presidente da Comissão Especial do impeachment, ouviu a pergunta com um sorriso matreiro de quem fareja o perigo. E assim respondeu: "Pelo fato de eu ter votado na admissibilidade alguns senadores da comissão podem olhar para mim e achar que eu vou votar sim, no mérito. É uma conclusão deles, não minha. Em relação ao mérito da denúncia, a minha posição é de total e absoluta isenção", disse.<p><p>O senador abriu a porta social do casarão para o jornal <b>O Estado de S. Paulo</b> na tarde de um sábado, dia 18. Apresentou o mezanino que abriga a galeria de fotos da família Lira-Figueiredo – as de Cajazeiras (onde nasceu) e Campina Grande (onde se criou e enriqueceu), na Paraíba.<p><p>Acompanha-o, há 46 anos, a socióloga Gitana Maria Figueiredo Lira, que chama de Gigi. Tem quatro filhos e cinco netos. Dos quatro, os três que casaram tiveram como padrinho o empresário José Alencar Gomes da Silva (1931-2011), compadre de Lira muito antes de habilitar-se a vice-presidente de Luiz Inácio Lula da Silva.<p><p>O hoje senador estava na reunião que decidiu a entrada de Alencar no veleiro petista. Por conta do amigo, desistiu do voto tucano em seu ex-líder e amigo Fernando Henrique, nas eleições de 94 e 98. Cravou Lula em 2002 e 2006. Votou em Dilma em 2010 e em 2014, "para acompanhar a posição do PMDB". <p><p>O senador levou cinco anos para construir o solar do Lago Sul. Não é o único casarão de sua recheada carteira de imóveis. O outro, em Campina Grande, tem 1.600 m2 de área construída – pouco maior que um campo de futebol soçaite. O do Lago Sul "é um pouco maior" em área construída. Tem ares de casa de fazenda e, para onde se olhe, é um museu de arte, principalmente a paraibana. <p><p><b>Status herdado</b><p><p>Raimundo Lira nasceu rico, em Cajazeiras, no dezembro de 1943. Seu pai, José Augusto Lira, já vendia Jeeps Willys importados. Tinha frota de caminhão, empresa de ônibus, depósito de cereais e armazém de estiva. Foi nesse que botou Raimundo para aprender a trabalhar, desde os 11 anos.<p><p>A disciplina foi reforçada no colégio salesiano, e nos dois anos em que foi da escola de cadetes do Exército, em Fortaleza e em Campinas (SP). <p><p>No clima acirrado que marca os trabalhos da comissão, o senador tem sido paciente e contemporizador, sem prejuízo de baixar o centralismo quando entende que é o caso. "O meu dever é o meu prazer", diz, citando uma frase do manual de bom comportamento de Zé Augusto Lira. Ou duas: "Só sabe dar conselho quem sabe receber conselho".<p><p>É mais ou menos o que faz no controle da caldeira: "Quando vejo alguém impaciente, infeliz, ou nervoso, peço pra chamar, converso, e resolvo, ou tento resolver".<p><p>Pergunte-se, de supetão, se o jogo já não está decidido, contra a presidente Dilma, à medida em que ninguém tem se movido da posição em que está. "Não posso afirmar isso", diz o senador. "Toda situação política se movimenta. A gente não sabe o que vai acontecer. O momento político é de muitas surpresas", avaliou.<p><p>Tornou-se público, na campanha de 2010, quando se elegeu suplente do senador Vital do Rêgo, hoje no Tribunal de Contas da União, que o patrimônio de Lira chegava a R$ 54.343.693,03, como consta nas três laudas de sua declaração de bens apresentada à Justiça Eleitoral (disponível na internet). <p><p>"São valores de custo, como a legislação me permite", diz. Definindo-se política e ideologicamente como "de centro, mas um pouco pra esquerda", o senador, que é católico, comentou: "Se não fosse a esquerda, o capitalismo seria um horror".<p><p><b>Leão</b><p><p>Sua atitude mais inusitada na comissão do impeachment, em maio, tratou, justamente, da fortuna que tem. Irritado com a notícia de ter feito contribuição eleitoral sem dinheiro disponível – que já desmentira, sem êxito -, parou os trabalhos para um pronunciamento de caráter pessoal. <p><p>Revelou, então, para os milhões de telespectadores que assistem à comissão, e para estupefatos senadores, que pagou, no ano passado, como pessoa física, R$ 527 mil reais de Imposto de Renda, por mês, "25 vezes mais do que eu recebo líquido do Senado" (R$ 22 mil, que, conta, aplica integralmente na despesa do gabinete, onde só gasta R$ 15 mil dos R$ 35 mil a que tem direito).<p><p>"São mais de R$ 6 milhões por ano", sublinhou, ajeitando-se no sofá. Na comissão informou, ainda, que não respondia a processos de qualquer natureza. Mas a uma execução fiscal por não pagamento de IPTU, como ainda consta no site do Tribunal de Justiça da Paraíba. Explicou que um de seus inquilinos não pagara, e que já mandara regularizar a situação. <p><p><b>Minoria</b><p><p>Na poltrona amarela, o senador relembrou como chegou à comissão do impeachment. Já favorável à abertura do processo, o primeiro passo foi dele: pediu ao líder do PMDB, senador Eunício de Oliveira (CE), que o indicasse para membro da comissão. <p><p>Argumentou que já tinha passado pela experiência do impeachment de Collor, em 92. Oliveira não só gostou, como o convidou para ser presidente. Lira pediu três dias para pensar. Ao bater o martelo, disse a Oliveira duas obviedades – que seria suprapartidário e imparcial – e uma singularidade: não deixaria a maioria esmagar a minoria. <p><p>No balanço que faz das mensagens que chegam nas redes sociais que frequenta, e no WhatsApp, o senador contabiliza 70% de comentários favoráveis, 15% de recomendações sobre o que acham que deveria fazer, e 15% de críticas, parte delas achando que dá espaço demais para os pelejadores de Dilma – onde se destacam, por mais belicosos, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) e as senadoras Gleisi Hoffmann (PT-PR) e Vanessa Grazziottin (PC do B-AM, nascida em Videira-SC). <p><p>"Gosto muito do Lindbergh, que também é paraibano", disse. "A senadora Vanessa defende seus pontos de vista com garra", acrescentou. "Com a senadora Gleisi, a relação é de perfeita cordialidade."<p><p>Lira não toma calmantes. O que tem feito, há 25 anos, três vezes por dia, é tomar o mesmíssimo suco: maçã e pera geladas, com água natural, batidas no liquidificador. "É um hábito, e nunca enjoei." <p><p><b>Ramo</b><p><p>Faz algum tempo que o empresário Raimundo Lira vendeu todas as concessionárias – onde chegou a ter 1.500 empregados registrados. Hoje só tem 22, a turma que lhe serve. Aluguéis, principalmente na Paraíba e em Brasília, são uma parte substancial do que entra na arca. A outra, mais robusta, vem de sua única atividade empresarial: é parceiro da Cyrela Brazil Realty, uma das maiores incorporadoras e construtoras de imóveis do País. <p><p>O senador tem um passatempo: montar álbuns de fotografias para eventos familiares. Já fez 300 deles, contou. Em um dos alguns há um bilhete de namorado a dona Gigi.<p><p>Lira já cogita que possa sair candidato a governador da Paraíba em 2018, embora prefira a reeleição ao Senado. A depender, é claro, de como esteja o mundo político até lá. As informações são do jornal <b>O Estado de S. Paulo.</b> <br /><br /><b>Fonte: </b>Estadao Conteudo








Você pode gostar