A escalada da crise no Supremo Tribunal Federal (STF) colocou de vez a Corte no centro da campanha eleitoral a menos de um mês do primeiro turno e deu novo combustível a um tema que já vinha sendo explorado, sobretudo por candidatos ao Senado. Desde que o impulsionamento eleitoral nas redes sociais passou a ser autorizado, foram identificados cerca de 5 mil anúncios relacionados ao Supremo e a seus ministros, especialmente Alexandre de Moraes, com gastos que chegam a R$ 2,9 milhões.
A maior parte das peças começou a circular nos últimos dias, justamente no período após a revelação, pelo Estadão, de mensagens de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro. Após as reportagens, no dia 3 de setembro, o ministro André Mendonça tornou público o relatório da Polícia Federal que identificou o colega como interlocutor de Daniel Vorcaro nas conversas. Na sequência, Moraes requisitou à PF, no âmbito do inquérito das fake news, relatórios de inteligência sobre a atuação de Mendonça e acusou o colega de crimes.
A crise se ampliou nos dias seguintes. Em reação ao uso desses relatórios contra ele, Mendonça determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada. Flávio Dino reagiu e determinou a reintegração dos dois. Diante das decisões conflitantes, Edson Fachin suspendeu os dois atos, manteve Andrei no cargo e transferiu para a Presidência do STF a relatoria do inquérito das fake news, até então conduzido por Moraes.
O presidente da Corte também convocou sessão plenária extraordinária para 15 de setembro, quando os ministros devem decidir sobre a validade do relatório da Polícia Federal e sobre a eventual abertura de investigação contra Moraes.
A propaganda eleitoral se iniciou em 16 de agosto, quando passou a ser autorizado o impulsionamento pago de conteúdos para promover candidaturas. Desde então, o Estadão monitora, pela Biblioteca de Anúncios da Meta, peças exibidas no Facebook e no Instagram relacionadas ao STF e aos ministros da Corte. Até 10 de setembro, foram identificados 5.677 resultados, entre ativos e inativos, classificados pela plataforma como políticos, eleitorais ou relacionados a temas sociais. Juntas, as peças movimentaram até R$ 2,9 milhões na Meta, empresa que controla as duas redes sociais.
Entre os conteúdos, 74% adotaram tom crítico ao STF ou a Moraes. Expressões como “impeachment”, “Fora Moraes”, “abusos do STF”, “censura”, “perseguição”, “ditadura de toga” e “autoritarismo” aparecem de forma recorrente. As peças também defendem limitar os poderes da Corte, afastar ministros e, mais recentemente, exploram as mensagens envolvendo Moraes e Vorcaro.
Procurado, o STF não se manifestou.
Como mostrou o Estadão, a legislação eleitoral veda o uso do impulsionamento pago para propaganda eleitoral negativa contra instituições ou adversários políticos. Ao mesmo tempo, o volume de peças pagas relacionadas ao STF aumentou entre 2020 e 2026.
Esse repertório de críticas já vinha sendo explorado pelas campanhas, mas ganhou escala justamente a partir de 3 de setembro. Quase oito em cada dez resultados identificados no levantamento começaram a circular a partir dessa data. Dos 5.677 anúncios encontrados, 4.519, ou 79,6%, passaram a ser veiculados entre os dias 3 e 10. As peças acumularam gastos de até R$ 1,9 milhão, cerca de dois terços do investimento identificado.
Entre os candidatos que transformaram o confronto com a Corte em bandeira eleitoral está Gustavo Gayer (PL), candidato ao Senado por Goiás. Em um dos anúncios, afirma: “O Brasil não pode continuar com Alexandre de Moraes no STF. Não há justiça”. Em outra peça, acompanhada da legenda “Vou lutar pelo impeachment de ministro do STF”, diz que “nenhuma pessoa será vítima desse Judiciário” e que “o Brasil será livre”.
O levantamento identificou ainda outros candidatos ao Senado que recorreram a anúncios com críticas ao Supremo, como Ubiratan Sanderson (PL), no Rio Grande do Sul, e Wellington Callegari (DC), no Espírito Santo.
A presença do Supremo na propaganda paga, porém, passou a atravessar campos políticos à medida que a crise se agravou. Até então concentrado sobretudo em peças de candidatos conservadores e bolsonaristas, o tema também começou a aparecer em anúncios impulsionados por candidaturas de esquerda, ainda que com enquadramentos distintos.
Candidata ao Senado por Minas Gerais, Áurea Carolina (PSOL) defendeu maior fiscalização sobre a Corte e afirmou que “os ministros também devem ser responsabilizados por suas condutas”, embora tenha rejeitado o uso do impeachment como “armação golpista”.
O tema tampouco ficou restrito às disputas pelo Senado, Casa responsável por processar e julgar ministros do STF por crimes de responsabilidade e por aprovar indicações para a Corte. Candidatos à Câmara também recorreram ao impulsionamento pago para explorar as revelações envolvendo Moraes e o Banco Master.
Em São Paulo, Zoe Martínez (PL) impulsionou um vídeo com a legenda “Alexandre de Moraes precisa ser investigado já!” e reproduziu reportagens sobre as descobertas da Polícia Federal, entre elas a de que metadados de um contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, registraram alterações feitas por Moraes.
“Se o próprio Jornal O Estado de São Paulo pediu a renúncia ou o impeachment do Min. Alexandre Moraes em editorial publicado na semana passada, porque não poderia postar e impulsionar este conteúdo em minha campanha eleitoral?”, respondeu Zoe ao ser questionada.
No Rio de Janeiro, Jandira Feghali (PCdoB) usou a crise para mirar André Mendonça. Em anúncio veiculado em 8 de setembro, afirmou que “a democracia está em risco”, criticou o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e acusou o ministro de agir de forma monocrática.
“A esta altura dos acontecimentos, está evidente que existe uma crise fabricada, com comportamentos seletivos, para fragilizar as instituições e tentar influenciar as eleições. Justamente por ter esta consciência, a campanha optou por patrocinar o post, com o objetivo de ampliar o alcance da mensagem e fazer o alerta à população: a democracia brasileira está em risco”, argumentou Jandira ao ser procurada pelo Estadão.
Todos os demais candidatos citados foram procurados pela reportagem. O espaço segue aberto para manifestações.
O tema eleitoral do episódio também saiu das redes e chegou aos atos de rua. Anúncios pagos convocaram apoiadores para as manifestações de 7 de Setembro, nas quais críticas a Moraes estiveram entre as principais bandeiras. Atos ligados às campanhas presidenciais de Flávio Bolsonaro (PL), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) incorporaram ataques ao ministro e questionamentos à atuação do Supremo.
Centralidade de Moraes e do STF no debate
Para o professor do Insper Leandro Consentino, o uso eleitoral da crise é consequência da centralidade que Moraes e o Supremo passaram a ocupar na polarização política. Para ele, em uma disputa acirrada, qualquer fato capaz de produzir vantagem tende a ser incorporado pelas campanhas. “A figura de Alexandre de Moraes tem uma centralidade para os dois grupos”, afirma.
Ele também avalia que o movimento também responde à reação provocada pela crise: “Boa parte da opinião pública, independentemente de partidos, se colocou de alguma forma apontando um dedo pesado para Alexandre de Moraes e o Supremo de uma forma geral”.
Estadão Conteúdo