Millena Lopes
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Quase sete anos depois, o técnico de informática que manipulou os vídeos que fomentaram a Operação Caixa de Pandora resolve dizer que outros políticos, que até então não eram citados nas investigações, foram filmados pelo delator do Mensalão do DEM, Durval Barbosa. Em depoimento, ontem, no Tribunal de Justiça do DF, Francinei Arruda Bezerra disse que nem todas as imagens vieram à tona, colocando em xeque a palavra do Barbosa, que garantiu ao Ministério Público que todas as provas foram entregues.
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Em depoimento nesta semana, o delator do escândalo conhecido como Mensalão do DEM, Durval Barbosa, disse que, de 2007 a 2009, foram movimentados cerca de R$ 110 milhões no suposto esquema de distribuição de propina deflagrado pela Operação Caixa de Pandora.
Tramitam na 7ª Vara Criminal dez ações penais referentes ao esquema que ficou conhecido em novembro de 2009 e passou a ser conhecido pelo apelido de “Mensalão do DEM”.
Bezerra disse que todos os “30 e poucos a 40 vídeos” foram editados e que Barbosa não sabia operar o aparelho de filmagem. O delator apenas dava os comandos para iniciar e parar as gravações. “Eu que ensinei ele”, garantiu.
O técnico em informática disse ter manipulado as imagens, a pedido de Barbosa, com quem conviveu de 2005 até “uns dois anos e meio atrás”. E que na maioria dos filmes, em que políticos apareciam recebendo dinheiro, provavelmente de origem ilícitas, foram editados para mostrar a chegada deles à sala de Barbosa, o momento exato em que recebiam o montante e a saída. “Ele pedia: ‘tira isso’, ‘tira aquilo’”, afirmou.
Camuflado
Um aparelho de filmagem era montado em uma caixinha de som, conforme Bezerra. “Os alto falantes foram substituídos por uma câmera”, contou.
O HD, onde são armazenados os arquivos do computador, que o delator usava era trocado constantemente, segundo a testemunha, para não deixar pistas. O próprio Durval Barbosa destruía a peça logo após a substituição. Na véspera da Polícia Federal deflagrar a operação, ele fez a troca pela última vez do HD do computador do então presidente da Codeplan. “Ele não queria que tivesse a possibilidade de alguém recuperar as imagens. Por isso, fazia a troca sempre”, explicou.
Defesa
Para a advogada Ava Catta Preta, que defende o ex-governador José Roberto Arruda e José Geraldo Maciel no processo, o fato de a testemunha ter afirmado que existem vídeos que não foram divulgados na imprensa significa que o delator descumpriu uma cláusula do acordo de delação premiada, que era de entregar todas as provas que tinha ao MP.
“A fundamentação inteira das denúncias do Ministério Público são as palavras e os vídeos clandestinos do delator. Sem isso, não consigo ver quais provas teriam essa ação”, argumenta a defensora.
MP prefere fazer ataque à testemunha
Para o Ministério Público, o depoimento de Francinei Arruda Bezerra não muda nada no processo, já que a testemunha não teria credibilidade. “A cada depoimento que ele presta, ele dá uma versão para os fatos. Ele disse que gravou 40 vídeos e o Durval entregou os 40 vídeos. Agora, ele diz que estão faltando vídeos”, explica o promotor Carlos Augusto Nina.
Em 2010, disse o promotor, Bezerra prestou depoimento dizendo que não havia mais vídeo, que todos eles tinham sido entregues.
Os filmes foram todos periciados, explica o integrante do Ministério Público: “Não foi constatada edição em nenhum deles. As provas são rígidas”.
Durante a oitiva, o promotor mostrou imagens impressas de frames dos vídeos constantes do processo. A testemunha apontou que todos eles foram editados, inclusive um filme gravado pela Polícia Federal, que, segundo o MP, ele nem sequer teve acesso.
Não há, segundo os promotores que acompanham o caso, harmonia entre as falas da testemunha, já que, nos primeiros depoimentos, ele dizia que não conhecia os personagens dos vídeos e, agora, diz conhecer e reconhecer todos eles.