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Política & Poder

Aliados esperam anúncio de Michelle ao Senado e veem ‘cuidado com marido’ como mote da campanha

A ex-primeira-dama deve ter influência na campanha eleitoral mesmo dentro de casa, avaliam seus aliados

Redação Jornal de Brasília

31/07/2026 6h14

Michelle Bolsonaro. Foto: PL Mulher

Recolhida após o embate com os enteados, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro volta à cena pública neste domingo, 2. Aliados de Michelle esperam tanto sua presença na convenção do PL no Distrito Federal, quanto o anúncio de que ela vai concorrer ao Senado.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, já confirmou presença na convenção na capital federal e um encontro público dos dois pode ser explorado como imagem de reconciliação.

A ex-primeira-dama deve ter influência na campanha eleitoral mesmo dentro de casa, avaliam seus aliados. Ela tem dosado sua exposição pública desde que o marido, o ex-presidente Jair Bolsonaro, passou a cumprir prisão domiciliar num condomínio em Brasília, em março.

O Estadão conversou com quatro pessoas próximas a ela. Segundo elas, o fato de Bolsonaro estar doente, ainda com crises de soluço e sob medicação, pode não ser um obstáculo para uma eventual atuação eleitoral da ex-primeira-dama, e sim uma justificativa. Os aliados avaliam que, caso decida concorrer, o melhor mote de campanha que ela pode ter é “ficar em casa cuidando do marido”.

A leitura deles é que o eleitorado de Michelle lidaria melhor com a ausência da possível candidata de ruas, palanques e comícios se souber que ela está em casa exercendo seu papel de esposa, que não abandona o marido. Alguns dizem que, mesmo sem aparecer em público, “Michelle está bem nas pesquisas” e pode continuar assim mantendo uma atuação digital.

Michelle ainda deve atuar como cabo eleitoral – é a esperança dos candidatos com menor expressão eleitoral. Um aliado que vai disputar a eleição no DF diz que um vídeo ao lado dela será o suficiente para alavancar a sua campanha e que ninguém deve cobrar a ex-primeira-dama para estar na rua.

Até renunciar ao PL Mulher, Michelle tinha gravado inserções para todas as candidatas de dois Estados (Acre e Roraima) e do Distrito Federal, um total de 152 vídeos.

Se até o começo de julho a vontade de Michelle de concorrer tinha arrefecido, segundo aliados relatam, o clima mudou. Um deles afirma que ela está “decidida a concorrer” e que a “única chance de ela não ser candidata é se for impedida, por razões alheias à vontade dela”.

Em 18 de junho, após o evento de lançamento de sua pré-candidatura à reeleição, a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), fez acenos a Michelle. Questionada pelo Estadão sobre a ausência da amiga, Celina disse que vem tentando convencê-la a concorrer nas eleições, uma vez que mulheres são poucas na política, e que a ex-primeira-dama ainda não tinha tomado uma decisão.

“O nosso gesto é que ela realmente venha. Eu sempre falo para ela, quando ela faz um trabalho no Brasil inteiro, abrindo diretórios (do PL Mulher), ela não pode desistir no meio do caminho”, afirmou.

Ao lado da senadora Damares Alves (Republicanos-DF), Celina ajudou a convencer Michelle a não se desfiliar do PL, a que ela estava decidida, horas depois da renúncia ao PL Mulher. Por causa do vídeo contra Flávio, a ex-primeira-dama fora bombardeada de críticas vindas de aliados e apoiadores do enteado.

Queda de braço com homens do PL

Lideranças estaduais do PL Mulher, por sua vez, preveem uma queda de braço com os homens do partido para defender sua candidatura sem uma presidência nacional para dar respaldo. A ex-primeira-dama renunciou à presidência do PL Mulher no fim de junho para estancar o desgaste provocado ao divulgar o vídeo contra o senador Flávio Bolsonaro.

Um sinal de reconciliação entre os dois ocorreu dias atrás, com um vídeo publicado por Flávio em que ele pediu desculpas a Michelle, elogiou sua atuação e defendeu a união da direita para derrotar o PT. Horas depois, ela divulgou um vídeo aceitando as desculpas e abrindo caminho para uma reconciliação.

A “presença” de Michelle nas eleições foi testemunhada no último sábado, 25, durante a convenção nacional do PL, que oficializou a candidatura de Flávio. Ela não foi ao evento em São Paulo, mas mandou um vídeo de apoio ao enteado – que foi recebido entre aplausos de muitos e ironias de alguns.

A saída de Michelle do PL Mulher pode ter implicações práticas para as candidatas do PL, avaliam dirigentes estaduais do setorial – que, por enquanto estão mantidas, mesmo sem um comando nacional.

Isso porque a ex-primeira-dama tinha autoridade para pressionar os presidentes estaduais do PL, que de fato detêm o poder sobre as candidaturas, para que as lideranças femininas fossem escolhidas. Nas eleições municipais de 2024, Michelle deu aval às chapas de mulheres por todo o Brasil.

O temor de suas aliadas, segundo relatos feitos ao Estadão sob reserva, é que nem todas as presidentes estaduais do PL Mulher tenham força política para cobrar dos dirigentes homens as candidaturas que já vinham sendo alinhadas com Michelle. Se perderem a queda de braço, as lideranças femininas podem ver as candidaturas serem descartadas.

A correlação é desbalanceada em alguns Estados, uma vez que nem todas as presidentes estaduais têm um mandato que lhes dê capital político e influência. Em São Paulo (Rosana Valle), Distrito Federal (Bia Kicis), na Bahia (Roberta Roma) e no Rio de Janeiro (Chris Tonietto), as dirigentes são deputadas federais, por exemplo.

Em alguns Estados, as presidentes têm menos poder, mas ainda assim mandatos relevantes enquanto deputadas estaduais. É o caso de Santa Catarina (Ana Campagnolo) e Minas Gerais (delegada Sheila).

Já vereadoras lideram os setoriais estaduais no Paraná (Carlise Kwiatkowski), Mato Grosso (Gislaine Yamashita), Maranhão (Flávia Berthier) e Ceará (Priscila Costa).

Nos demais Estados, elas não têm sequer mandatos, o que as torna vulneráveis a pressões políticas e acordos pelas costas sem o respaldo de Michelle Bolsonaro.

Uma liderança estadual disse ao Estadão não saber com quem ficará a decisão final caso os homens e as mulheres à frente dos diretórios e dos setoriais estaduais não se entendam, e que “Valdemar (Costa Neto) vai precisar prestigiar as candidatas escolhidas pela Michelle”, para que o trabalho feito pela ex-primeira-dama não se dissolva.

Estadão Conteúdo

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