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Alheio a máscaras, Pazuello alega contato com servidores com Covid, e CPI adia seu depoimento

A presidência da CPI então determinou o adiamento do depoimento do ex-ministro. A nova data da oitiva será 19 de maio.

Foto: Agência Brasil

Um dos principais alvos da CPI da Covid, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello alegou que teve contato com infectados com o novo coronavírus e por isso não poderia comparecer ao seu depoimento, marcado inicialmente para esta quarta-feira (5).

A presidência da CPI então determinou o adiamento do depoimento do ex-ministro. A nova data da oitiva será 19 de maio.

Pazuello, que é general do Exército, deveria comparecer diante do colegiado, mas enviou ofício para a presidência da comissão solicitando não comparecer presencialmente ao depoimento. Alegou que dois coroneis com quem teve contato no último fim de semana receberam diagnóstico positivo para a Covid-19.

Por isso ofereceu duas hipóteses alternativas: manter a data de seu depoimento, mas falar de maneira virtual aos senadores, ou então alterar o cronograma.

Pazuello já foi infectado pelo novo coronavírus no ano passado. No fim de abril, foi flagrado sem máscara em um shopping de Manaus. Na ocasião, reagiu com ironia ( “onde compra isso?”) e acabou ganhando uma máscara de presente, segundo relato da fotógrafa Jaqueline Bastos, que flagrou a irregularidade.

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O presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), afirmou que o depoimento deveria se manter presencial. Por isso sugeriu uma nova data -duas semanas após a estabelecida inicialmente-, que acabou aprovada em votação simbólica pelos senadores.

Por causa do adiamento da sessão que ouviria Pazuello, a presidência da CPI da Covid também decidiu remanejar o depoimento do ex-ministro Nelson Teich, que ficou para esta quarta-feira, às 10h.

Alguns senadores reagiram ao ofício de Pazuello, insinuando que se tratava de uma tentativa de obstrução dos trabalhos da CPI. O próprio presidente Omar Aziz afirmou que não aceitaria “subterfúgios” e por isso iria preferir aguardar uma nova data.

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“Deixe eu dizer uma coisa: se o ministro Pazuello está de quarentena, não tem problema a gente esperar 14 dias para ele vir aqui. Não tem problema. Mas será presencial. Sabe por quê? Não haverá subterfúgios na minha presidência. Então, nós vamos esperar. Eu só quero que seja comunicado pelo Comando do Exército que o ministro Pazuello teve contato”, afirmou durante a sessão.

No meio da tarde, o presidente da CPI apontou que recebeu um comunicado, assinado pelo general Francisco Humberto Montenegro Junior, secretário-geral do Exército.

Senadores governistas defendiam que a data fosse mantida, com o depoimento remoto. No entanto, os demais parlamentares acreditam que a oitiva de maneira virtual seria extremamente prejudicial, pois diminuiria a pressão sobre o general. Além disso, temiam que, de maneira remota, o ex-ministro pudesse ser auxiliado em sua fala.

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“O ministro Pazuello não precisa ficar de quarentena. Basta ele fazer o teste [de Covid], o que seria já uma demonstração de boa vontade com a Comissão Parlamentar de Inquérito”, afirmou o relator, Renan Calheiros (MDB-AL).

“Ele anda sem máscara e não pode vir na CPI?”, questionou a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA). “Só lembrando exatamente isto: que vai sem máscara para o shopping e não pode vir para a CPI”,. completou.

O depoimento de Pazuello era o mais aguardado pelos membros da comissão, por ter sido o ministro da Saúde mais próximo ideologicamente ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Além disso, sua gestão foi a mais longeva, sendo responsável pela maior parte das tratativas para a compra de vacinas, além de o colapso do sistema de saúde de Manaus ter acontecido durante seu período à frente do ministério.
Senadores também pretendiam inquirir o ex-ministro a respeito do incentivo por parte do Ministério da Saúde para o uso da hidroxicloroquina por estados e municípios. O medicamento não tem eficácia comprovada para tratar a Covid-19.

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Os parlamentares da comissão afirmam nos bastidores que se tratou de uma manobra do Palácio do Planalto, para evitar que o início dos trabalhos da CPI já fossem marcados por desgaste para o governo. Afirmam que já esperavam uma ação para obstruir os trabalhos, mas pensavam que ela viria pela via judicial.

Os senadores do grupo majoritário da comissão -formado por independentes e oposição- afirmam que o governo conseguiu destruir um formato cronológico de oitivas, que era uma aposta de didatismo para que a população acompanhasse a evolução dos fatos.

Pazuello vinha sendo preparado para o depoimento por aliados de Bolsonaro, mas, de acordo com interlocutores, ele apresentou nervosismo nas sessões de media training. Nesse sentido, o Planalto queria evitar o depoimento.

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A avaliação é que o adiamento pode ter dois efeitos para o governo. Por um lado, tende a retirar o ímpeto do início da CPI, uma vez que o depoimento era visto como o mais problemático para o governo. Mas, por outro, deve aumentar a pressão sobre Pazuello no momento de sua oitiva, uma vez que ele pode ser confrontado com novas revelações que venham a aparecer nos próximos dias.

Nesta terça, interlocutores do presidente Jair Bolsonaro avaliaram que Mandetta, embora tenha responsabilizado o presidente, evitou ataques mais duros contra o mandatário. Nesse sentido, um auxiliar palaciano exemplifica que, na revelação da tentativa de mudar a bula da cloroquina por decreto, Mandetta não envolveu Bolsonaro diretamente e indicou que provavelmente a ideia partiu de alguém externo ao Planalto.

Aliados de Bolsonaro creditam o comportamento do ex-ministro às suas ambições políticas. Caso queira lançar-se a algum cargo eletivo no próximo ano, Mandetta não tem interesse em indispor-se completamente com a base de apoio bolsonarista, opina um conselheiro do presidente da República.

O comportamento moderado de Mandetta não significa que o depoimento tenha sido bom para Bolsonaro.
Aliados não gostaram de ver o ex-titular da Saúde citando ministros de Bolsonaro que até o momento estavam fora do radar da CPI, como Tarcisio de Freitas (Infraestrutura) e Wagner Rosário (Controladoria-Geral da União), além de uma menção que não ficou clara se era ao ministro Luiz Eduardo Ramos (Casa Civil, ex-Secretaria de Governo) ou ao ex-ministro Jorge Oliveira (atualmente no TCU).

O medo do governo é que as menções feitas possam levar os senadores a considerar a oitiva de novos personagens.

As informações são da FolhaPress






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