Eduardo Brito
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A torcedora Kelly Cristina dos Santos comemora nas redes sociais. “A Zoeira não tem fim, hahaha!”, postou Kelly, no início da tarde de ontem. Estava perto de comemorar um dia inteiro de zoada. Foi no domingo que ela viveu seus momentos de glória.
Aproveitou o clássico entre Flamengo e Fluminense no Mané Garrincha para fazer sua manifestação política. Segurando um cartaz com os dizeres “Fora Dilma” e a data da próxima manifestação pró-impeachment, 13/03, ela paralisou o jogo, antes de ser retirada do estádio pelos seguranças.
Tudo durou pouco mais de 50 segundos. De calça jeans e enrolada em uma bandeira do Brasil, Kelly aproveitou uma paralisação aos 33 minutos do segundo tempo, driblou a segurança na arquibancada atrás do gol do Flamengo e invadiu o gramado. Chegou até o círculo do meio de campo antes de ser retirada.
Foi o suficiente para desencadear um coro forte e espontâneo na arquibancada. Sim, aquele mesmo: “Ei, Dilma, vá tomar no…”. Durou mais tempo do que a rápida intervenção de Kelly em campo.
Bolsonaro ninja
Kelly Cristina dos Santos adotou nas redes sociais o nome de Kelly Bolsonaro. Apresenta-se como professora de dança, ninja e, de bate pronto, esclarece: “quem tem que dançar é esse governo, mas quem está dançando é a gente”.
Nas redes sociais, a ativista comemorou a corrida. “Todos podem fazer o mesmo, basta querer e tomar uma atitude, chega de pagarmos uma conta que não é nossa!”, escreveu Kelly, que não possui nenhum parentesco com o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ).
A página de Kelly no Facebook possui mais de oito mil seguidores e dissemina ataques ao PT e defende o pedido de impeachment de Dilma Rousseff. Kelly ainda acha tempo para criticar o feminismo e condenar as cotas raciais nas universidades.
Após o jogo do Mané, surgiram dezenas de postagens e de fotos, várias delas montadas. Kelly escolheu uma. Enquanto ela dá o seu pique mostrando a data da manifestação, os flamenguistas Wallace e Willian Arão observam. Lá estão os balõezinhos. Wallace perguntaria “tu vai, né?”, para Willian Arão responder: “claro que vou, não sou bandido!”
Apelido era hostil, mas foi adotado
Aluna de jornalismo, Kelly milita no movimento estudantil desde os 17 anos. Hoje tem 29. A militância, porém, deu-se sempre em raia própria. Ela mesma diz que nunca aceitou o predomínio da esquerda nas organizações estudantis e chegou a ser expulsa.
Rejeita também os movimentos LGBT e o feminismo. Sua revolta cresceu ainda mais quando se começou a apontar o hoje deputado Jean Wyllys como arquétipo de nova juventude brasileira. “Não me vejo representada por ele, nem aceito essas posturas”, resume.
Foi nessa época que, nas próprias redes sociais, os internautas hostis começaram a chamá-la de Kelly Bolsonaro. “Foram eles que me apelidaram, achando que iam me ofender, mas gostei. Fui lá e assumi”, resume Kelly.
Moradora de Santa Maria, ela não tem qualquer filiação partidária. E avisa que não pretende disputar eleições. Só que, havendo manifestação contra o atual governo, contra Dilma e contra o PT, estará lá.
Pelo sim, pelo não, no seu perfil do Facebook mostra que já tem um candidato a presidente para 2018. Sim, o Bolsonaro original, o Jair, que pode concorrer pelo PSC.
Ponto de vista
Kelly avisa que “não sou uma liberal, sou uma conservadora, não busco aliados na esquerda, seja ela democrática ou não”. Por isso mesmo o Movimento Brasil Livre, que organiza manifestações, “não representa a minha visão política”. A propósito, ela afirma que “infelizmente o governo federal e governos locais cometem graves ilegalidades contra a família e a infância ao propor e implantar em escolas públicas e articular a ideologia de gênero.
Nas duas torcidas
1 – O maior obstáculo para correr no campo veio de sua altura. Com 1m59, Kelly teve dificuldade para escalar a mureta que evita, ou deveria evitar, invasões de campo. Tem quase sua altura. Conseguiu apoiar-se sobre o ombro de um rapaz e saltou.
2 – Não, Kelly não estava sozinha no Mané. Nos dias anteriores articulou-se pelas redes sociais com outros ativistas que defendem o impeachment e combatem o PT. Um grupo deles chegou a se postar, com faixas e com camisetas cheias de slogans, à entrada do estádio.
3 – Todos asseguram, porém, que o coro anti-Dilma foi espontâneo. Dele participaram tanto a torcida do Flamengo quanto do Fluminense. Seria uma dimensão do antipetismo crescente no Distrito Federal.
4 – Kelly foi levada à 5ª DP, perto do estádio. Fez-se boletim de ocorrência e foi liberada.