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Opinião

O mercado perdeu nas urnas e quer mandar no presidente eleito pelo povo

Setores que apostaram contra Lula agora querem determinar as prioridades do governo. E, na receita que apresentam, o sacrifício costuma ter endereço: a casa dos mais pobres

Redação Jornal de Brasília

30/10/2026 14h06

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Foto: MAURO PIMENTEL/AFP

Por Zé Américo Silva, jornalista e consultor político

O mercado tem uma relação curiosa com a democracia: aceita que o povo escolha o presidente, desde que possa escolher o que o presidente vai fazer.

Durante a campanha, setores do mercado financeiro apostaram em Flávio Bolsonaro, enxergando nele a oportunidade de uma política econômica mais próxima dos seus interesses. Perderam. Mas mal terminou a eleição e já querem entregar ao vencedor o programa que gostariam de ter visto ganhar.

É muita desenvoltura. O voto escolhe Lula, mas a conta chega com as prioridades de quem apostou no adversário.

Antes de prosseguir, vamos tirar essa entidade do esconderijo. O tal mercado tem nome, sobrenome, patrimônio e interesses. E abriga diferenças enormes. O empresário que precisa de crédito para ampliar uma fábrica não está necessariamente no mesmo barco de quem ganha com dinheiro caro. O comerciante que depende de clientes comprando sofre quando os juros engolem a renda das famílias.

Portanto, quando alguém anuncia que “o mercado exige”, cabe perguntar: qual mercado? Exige o quê? E quem vai pagar?

Porque a conversa costuma começar na responsabilidade fiscal e terminar na porta de quem depende do serviço público. A tesoura procura o benefício social, a valorização do salário mínimo, a saúde, a educação, a moradia. Parece conhecer de cor o caminho da periferia. Já para encontrar e cortar privilégios tributários e vantagens de setores poderosos, perde o rumo.

Não defendo descontrole. Governo precisa fazer conta, combater desperdícios e gastar bem. Dinheiro público exige seriedade. Mas a seriedade deve alcançar todos os interesses que disputam o Orçamento, inclusive aqueles que chegam de terno, acompanhados de consultorias e apresentados como solução para o país.

Quem depende do SUS também precisa de segurança. Segurança de conseguir uma consulta, fazer um exame, encontrar um medicamento. Quem paga aluguel precisa de previsibilidade. Previsibilidade de chegar ao fim do mês sem escolher entre a comida e a moradia. O endividado também quer confiança: a de que conseguirá sair do sufoco sem passar a vida pagando juros.

Por que essas necessidades aparecem como despesas inconvenientes, enquanto a tranquilidade dos investidores é tratada como obrigação nacional?

O Bolsa Família vira compra no mercadinho. A casa popular movimenta a construção, contrata pedreiro, vende cimento. O salário que melhora sustenta o comércio. O dinheiro que chega à base da sociedade circula, produz e emprega. A economia brasileira também acontece longe das mesas de operações.

Agora surge o argumento do Congresso: Lula terá dificuldades se não fizer o que determinados setores esperam. Opa! Estamos falando de representantes do povo ou de uma agência de cobrança?

O Congresso tem legitimidade, atribuições e responsabilidade sobre as contas públicas. Deve debater, fiscalizar e negociar. Mas sua força não pode servir de justificativa para apresentar a vontade de investidores como destino obrigatório do governo.

Quem votou contra Lula tem todo o direito de cobrar. Quem votou nele também. E os que esperam proteção social não podem descobrir, depois da vitória, que serão os primeiros chamados ao sacrifício para tranquilizar quem preferia outro resultado.

Lula precisa governar para o Brasil inteiro. Isso inclui ouvir empresários, trabalhadores, investidores e famílias endividadas. Ouvir todos exige reconhecer que nenhum desses grupos é dono do governo.

O mercado pode apresentar propostas. Pode discordar. Pode fazer oposição. O que não pode é tratar a eleição como uma consulta sem consequência e o voto popular como um inconveniente a ser corrigido.

Quem ganhou o direito de governar foi Lula. O mercado precisa aprender a conjugar o verbo respeitar.

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