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Opinião

Europa entre a defesa e a proteção social

A União Europeia vive hoje um dos seus maiores desafios contemporâneos

Redação Jornal de Brasília

31/05/2026 11h36

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Foto: NICOLAS TUCAT / AFP

Por Renata Bueno, advogada internacional e ex-parlamentar italiana

A recente declaração da primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, reacende um debate essencial para o futuro da Europa: como equilibrar os investimentos em defesa e segurança sem abandonar a proteção econômica e social da população.

Ao afirmar que “não podemos dizer aos cidadãos que só há dinheiro para a defesa”, Meloni toca em um ponto sensível vivido atualmente por milhões de europeus. A guerra envolvendo o Irã, a crescente tensão no Oriente Médio e a ameaça de fechamento do Estreito de Ormuz,— rota estratégica por onde circula uma parcela significativa do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo — provocaram forte instabilidade no mercado internacional de energia, afetando diretamente famílias, empresas e a economia dos países europeus.

A União Europeia vive hoje um dos seus maiores desafios contemporâneos: garantir segurança geopolítica sem comprometer a estabilidade social interna. A ampliação dos gastos militares tornou-se pauta prioritária diante das crises internacionais, especialmente após os conflitos no Leste Europeu e no Oriente Médio. Contudo, o aumento dos custos de energia, da inflação e do custo de vida exige que os governos também mantenham capacidade de resposta econômica.

Nesse contexto, considero legítima e necessária a posição defendida pela Itália junto à Comissão Europeia. A flexibilização das regras orçamentárias não pode beneficiar apenas os investimentos em defesa. É fundamental que a mesma abertura seja aplicada para permitir medidas emergenciais de apoio à população, especialmente em momentos de crise energética global.

A União Europeia foi construída sobre princípios de solidariedade, equilíbrio e cooperação. Não se trata apenas de fortalecer fronteiras ou ampliar arsenais militares, mas de preservar a própria estabilidade democrática e social do continente. Sem proteção às famílias, ao emprego e às pequenas e médias empresas, cresce o risco de aprofundamento das desigualdades, da insegurança econômica e do descontentamento social.

A fala de Meloni também revela uma mudança importante no discurso político europeu. Ainda que mantenha uma posição firme em favor do fortalecimento militar da Itália e da Europa, a premiê reconhece que segurança não pode ser analisada apenas sob a ótica bélica. Segurança também significa garantir dignidade econômica, acesso à energia, estabilidade social e qualidade de vida para os cidadãos.

A crise energética provocada pela instabilidade no Oriente Médio demonstra, mais uma vez, a vulnerabilidade europeia diante das tensões internacionais. Isso reforça a necessidade de políticas comuns mais eficientes, de investimentos em autonomia energética e de uma estratégia europeia integrada que una segurança, sustentabilidade e proteção econômica.

A Itália, ao defender maior flexibilidade fiscal para enfrentar os impactos da alta dos combustíveis e da energia, busca não apenas proteger sua economia interna, mas também abrir uma reflexão necessária dentro da União Europeia: qual modelo de Europa queremos construir para os próximos anos?

Uma Europa forte não será apenas aquela que investe em defesa militar, mas aquela que consegue proteger sua população em tempos de crise, mantendo equilíbrio entre segurança, desenvolvimento econômico e justiça social.

Renata Bueno é uma parlamentar ítalo-brasileira nascida em 1979 em Brasília, DF, Brasil. Conhecida por seu envolvimento na política e na defesa dos direitos dos descendentes de italianos no Brasil. Renata Bueno foi eleita deputada federal em 2010, sendo a primeira mulher eleita pelo Partido Socialista Italiano (PSI) fora da Itália. Sua atuação política tem sido focada em temas relacionados à cidadania italiana, imigração, e fortalecimento dos laços entre Brasil e Itália. Ela é presidente da Associação pela Cidadania Italiana no Brasil e tem trabalhado para facilitar o processo de reconhecimento da cidadania italiana para descendentes de italianos no país. Além de parlamentar, Renata é advogada e empresária, com o Instituto Cidadania Italiana e Mozzarellart.

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