Por Marcondes Brito
O Norte parceiro do Jornal de Brasilia na Paraíba
Escrevo este texto com o coração funcionando normalmente, no apartamento 406 do Hospital da Unimed, depois de deixar a UTI. Não escrevo para dramatizar o que vivi, nem para despertar compaixão. Muito menos para fazer propaganda. Escrevo porque algumas experiências nos transformam para sempre e, quando isso acontece, a gratidão deixa de ser um sentimento íntimo e passa a ser uma obrigação moral.
Tudo começou no sábado, dia 25. Naquela manhã fiz dois exames de rotina, uma endoscopia e uma colonoscopia. Os procedimentos transcorreram sem qualquer intercorrência e voltei para casa acreditando que o dia terminaria normalmente. Pouco tempo depois, porém, comecei a sentir náuseas e um mal-estar que atribuí aos efeitos do preparo da colonoscopia, um processo tão desgastante que, para quem já passou por ele, dispensa qualquer explicação.
Minha mulher, Lúcia, insistiu para que fôssemos ao Hospital Unimed na Beira Rio. Confesso que fui contrariado. Imaginava que tomaria uma medicação, talvez um soro, um Buscopan, descansaria um pouco e voltaria para casa. Nunca me passou pela cabeça que aquela decisão, tomada quase por insistência dela, mudaria completamente o rumo da minha vida.

Ao chegar ao hospital encontrei a urgência bastante movimentada. Faço esse registro porque muita gente imagina que hospitais particulares vivem uma realidade completamente diferente. Não vivem. Grandes hospitais recebem muitos pacientes e convivem diariamente com situações de extrema pressão. Quando trabalhei na Band, em São Paulo, fui atendido algumas vezes na emergência do Hospital Albert Einstein, um dos maiores da América Latina. Guardadas todas as proporções, a dinâmica de uma urgência é parecida em qualquer grande instituição. O volume de pessoas impressiona, a tensão é permanente e as decisões precisam ser tomadas rapidamente.
Enquanto recebia atendimento, tomando soro atendimento, tudo mudou.
Comecei a sentir uma dor intensa no peito. Não era um incômodo comum. Era uma dor esmagadora, que parecia atravessar todo o tórax. A melhor comparação que consigo fazer é imaginar um elefante pisando sobre o peito, comprimindo tudo ao mesmo tempo. Avisei imediatamente ao médico. Pela expressão dele percebi que a situação merecia atenção. Fiz novos exames e fui encaminhado para um ultrassom.
Durante o exame ouvi a médica sussurrar baixinho: “Deu uma diferençazinha aqui.”
Naquele instante eu ainda não compreendia a gravidade do que estava acontecendo. Ela compreendia.
Em poucos minutos o ambiente mudou completamente. Médicos conversavam entre si, profissionais chegavam, decisões eram tomadas numa velocidade impressionante. Foi ali que percebi o verdadeiro significado da palavra urgência. Não havia espaço para hesitação. Cada minuto tinha valor.
Fui encaminhado imediatamente para um cateterismo. Logo em seguida veio a angioplastia. Tudo aconteceu tão rapidamente que mal tive tempo de organizar os pensamentos. Enquanto isso, Lúcia recebia a notícia que nenhuma esposa gostaria de ouvir: eu havia sofrido dois infartos.
O procedimento durou cerca de uma hora. Recebi anestesia parcial e despertei já sabendo que a intervenção havia sido bem-sucedida. Em seguida fui levado para a Unidade de Terapia Intensiva.
Aos 73 anos, acho que era a primeira vez que entrava numa UTI.
Ali descobri um universo que a maioria das pessoas só conhece quando a vida resolve colocá-la diante dele. Entre um exame e outro, comecei a observar os profissionais que circulavam pelo setor. Eram homens e mulheres absolutamente comuns, pessoas que também têm famílias, filhos, contas para pagar, preocupações e sonhos. Mas, durante o plantão, pareciam deixar tudo isso do lado de fora para dedicar cada minuto à vida de quem estava ali.
Muitas vezes percebiam o que eu precisava antes mesmo que eu dissesse qualquer palavra. Bastava um olhar. Bastava uma alteração no monitor. Bastava um pequeno gesto.
Aos poucos fui percebendo que a UTI é muito mais do que um lugar onde médicos e enfermeiros trabalham para salvar vidas. Ali existe uma verdadeira equipe multidisciplinar. A todo instante circulavam pelos leitos fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos e outros profissionais, cada um desempenhando um papel essencial. Enquanto uns cuidavam do coração, outros cuidavam da respiração, da alimentação, do equilíbrio emocional e da recuperação do paciente como um todo. Foi ali que compreendi que tratar uma doença é apenas parte da missão. O grande desafio é cuidar do ser humano.
Foi nesse ambiente que conheci a psicóloga Tuane Dantas. Ela se aproximou do meu leito com a tranquilidade de quem sabe que, naquele momento, algumas palavras podem fazer tanto bem quanto um medicamento. Conversamos longamente. Contei a ela, resumidamente, tudo o que havia acontecido desde a manhã da colonoscopia até a angioplastia, a rapidez com que tudo mudou e o susto que minha família havia vivido.
Quando terminou de me ouvir, ela fez apenas uma observação, simples e profunda:
“O senhor teve um encontro consigo mesmo.”
Desde então, essa frase não saiu mais da minha cabeça.
Talvez ela tenha traduzido, em poucas palavras, tudo o que vivi naqueles dias. Há experiências que não apenas salvam uma vida. Elas mudam a forma como passamos a enxergá-la. E aquele período na UTI, cercado por profissionais que cuidavam não apenas do meu coração, mas também da minha serenidade, da minha recuperação e da minha confiança, certamente foi um desses momentos.
No dia seguinte conheci pessoalmente a médica responsável pela angioplastia, a Dra. Gabriella Cunha Lima. Ela entrou no quarto acompanhada da cardiologista plantonista, Dra. Tereza Cristina, outra profissional iluminada.

A primeira impressão que tive da Dra. Gabriella foi curiosa. Ela transmite uma juventude que surpreende. Se alguém a encontrasse fora do ambiente hospitalar talvez jamais imaginasse a responsabilidade que carrega diariamente. Mas bastam alguns minutos de conversa para perceber que por trás daquela aparência jovem existe uma profissional de enorme competência e segurança.
Durante a visita ela comentou, com absoluta naturalidade, que naquele mesmo dia já havia realizado onze procedimentos, divididos entre o Hospital Unimed e outra instituição onde também trabalha. Aquilo me fez pensar na rotina desses médicos intervencionistas. São profissionais que praticamente não têm hora para si. Vivem preparados para atender uma emergência, tomar decisões em poucos minutos e carregar sobre os ombros a responsabilidade mais pesada que existe: a de salvar uma vida.
Foi nessa conversa que ouvi uma frase que jamais esquecerei.
Segundo a Dra. Gabriella, eu tinha aproximadamente 80% de chance de morrer.
Confesso que aquela informação me abalou muito mais do que o próprio procedimento. Eu já estava bem, respirando normalmente e começando a compreender tudo o que havia acontecido. Pouco depois vivi um dos momentos mais emocionantes de toda essa experiência. Meus três filhos, Bruno, Daniel e Larissa, que moram em São Paulo, apareceram de surpresa no hospital. O abraço que recebi deles foi uma das maiores demonstrações de que meu velho coração continuava funcionando muito bem.
Enquanto tudo isso acontecia, outra equipe me dava uma tranquilidade enorme. Durante todo o período em que permaneci internado, especialmente na UTI, onde não tive acesso à internet, O Norte Online continuou funcionando normalmente graças ao trabalho dos editores Paulo Cosme, Clóvis, Roberto e Pessoa Júnior. Eles seguraram o portal com competência, responsabilidade e espírito de equipe. Sou profundamente grato a cada um deles. Nosso jogo vai seguir, rapazes!
Agora, já em recuperação, tenho tido tempo para refletir sobre tudo o que aconteceu nas últimas horas.
Quem trabalha na área da saúde talvez considere tudo isso absolutamente normal. E, na verdade, é mesmo. Identificar rapidamente um infarto, agir sem perder tempo, realizar um cateterismo, fazer uma angioplastia e salvar uma vida é exatamente o que se espera de um hospital de referência. Médicos, enfermeiros, técnicos, fisioterapeutas e tantos outros profissionais estudam durante anos para agir dessa maneira.
Eu sei disso.
A diferença é que, desta vez, eu não estava olhando essa realidade como jornalista.
Eu era o paciente.
Quando a doença deixa de ser notícia e passa a ser a sua própria história, a perspectiva muda completamente. Você passa a compreender o valor de cada decisão, de cada minuto, de cada profissional que entra no quarto, de cada palavra de conforto e de cada gesto aparentemente simples.
Foi isso que vivi.
Por essa razão, este texto não pretende afirmar que hospitais são perfeitos ou que a medicina não enfrente dificuldades. Também não pretende transformar uma experiência pessoal em peça publicitária. Trata-se apenas do relato sincero de alguém que entrou no hospital acreditando que resolveria um mal-estar e descobriu, poucas horas depois, que havia recebido uma segunda oportunidade para continuar vivendo.
Minha gratidão à Dra. Gabriella Cunha Lima, aos demais médicos da equipe, enfermeiros, técnicos, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos, maqueiros, profissionais da limpeza, recepcionistas e a todos aqueles que participaram direta ou indiretamente desse atendimento. Cada um fez exatamente aquilo que sua profissão exige. Mas, para mim, para Lúcia, para meus filhos e para toda a minha família, esse trabalho significou muito mais do que o cumprimento do dever. Significou a continuidade da nossa história.
E deixo um agradecimento muito especial à minha mulher. Se Lúcia não tivesse insistido para que eu fosse ao hospital, talvez este texto jamais tivesse sido escrito. Ela acreditou que eu precisava de atendimento quando eu próprio achava que tudo não passava de um mal-estar provocado pelos exames.
Às vezes, uma vida muda por causa de uma grande decisão.
Às vezes, muda por causa da insistência de quem nos ama.
Hoje, olhando para tudo o que aconteceu, compreendo que quem trabalha na área da saúde talvez leia este relato com certa naturalidade. Para esses profissionais, salvar vidas faz parte da rotina. É exatamente isso que deles se espera. A diferença é que, desta vez, eu não vivi essa história como jornalista. Eu era o paciente.
Quando você ocupa o leito do hospital, deixa de analisar os fatos como observador. Você passa a ser o fato.
E, quando isso acontece, o mínimo que consegue dizer é um muito obrigado.
Não um agradecimento protocolar.
Um agradecimento de quem recebeu de volta o bem mais precioso que existe.
A própria vida.