AUGUSTO TENÓRIO
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
A investigação da Polícia Federal sobre “A Turma”, grupo que era pago para intimidar pessoas e obter informações sigilosas sob ordens de Daniel Vorcaro, do Banco Master, mostra que eles consideraram uma piora a saída do ministro Dias Toffoli da relatoria do caso no STF (Supremo Tribunal Federal).
O grupo teria como um dos integrantes Felipe Mourão, o Sicário, que se matou após ser detido pela Polícia Federal. A Turma, segundo a PF, era paga por Vorcaro para fazer intimidações, comprar servidores públicos e invadir sistemas oficiais atrás de informações reservadas.
Um dos integrantes do grupo identificados pelos investigadores é Bruno Correa Lopes, apontado como responsável pela compra de imóveis e intermediação de negócios da família Vorcaro.
Em uma conversa por WhatsApp interceptada pela PF no dia 27 de fevereiro deste ano, Bruno conversa com outro membro do grupo, Manoel Mendes Rodrigues, conhecido como Manolo, que também é investigado na operação Compliance Zero.
Manolo enviou a Bruno o link de uma reportagem sobre supostos desvios de Daniel e Henrique Vorcaro.
A dupla passa, então, a discutir a deterioração dos negócios da família Vorcaro com o avanço das investigações. “Cobra aí, por favor, porque o que acontece… senão enfraquece, eu não posso cobrar dele, né? Depois que pega tudo, a gente não consegue ficar cobrando. Quero resolver isso hoje”, disse Bruno.
Depois, Bruno narra: “Venderam uma casa aqui por 20 milhões, uma casa de 40 [milhões], vão vender por 20 [milhões]. Vão fazendo dinheiro para todo lado, antes que tomem, entendeu? Eles sabem que eles vão perder tudo, então estão vendendo por qualquer preço”.
Bruno então cobrou Manolo por documentos, alertando que “o tempo está correndo”. Depois, ele envia o link de uma reportagem sobre o avanço da CPMI do INSS, e reclama da troca da relatoria do caso no STF, até então sob Toffoli.
“Está piorando muito rápido agora que saiu do Toffoli”, escreveu Bruno.
A troca de relatoria do Master ocorreu poucos dias antes, em 12 de fevereiro, e Vorcaro foi preso novamente no dia 4 de março. Naquele momento, a CPMI do INSS também estava avançando sobre o caso do Master. O diálogo consta do material obtido pela PF e enviado ao STF. A corte quebrou o sigilo na sexta-feira (11) de várias peças envolvendo o banco Master.
Toffoli deixou o caso após revelações de ligações com Vorcaro no empreendimento do resort Tayayá. A Maridt, empresa de José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli, irmãos do ministro do STF, tinha participação no negócio.
Um dos serviços prestados por Manolo e Bruno para a família Vorcaro era a compra e venda de terrenos.
Eles trataram em mais de uma ocasião sobre o envio de documentos e a tentativa de acelerar negociações imobiliárias ligadas a Henrique Vorcaro, pai do banqueiro, antes do encerramento do dia.
Num diálogo de dezembro de 2025, Bruno envia a Manolo dois áudios. Num deles, afirma que presenciou Henrique roubando Daniel Vorcaro. Ele também afirma que o banqueiro é fraco e que o pai impunha medo.
“Henrique [pai de Vorcaro] pega a parte boa e negocia o resto. Ele fez a vida inteira, na minha frente eu vi ele fazendo com o Daniel, roubando o Daniel assim. Eu comprava um terreno, quando eu ainda não ia no Daniel direto, comprava um terreno, uma coisa assim, ele já mandava para o filho superfaturado”, narrou Bruno a Manolo em conversa.
Manolo chegou a encaminhar o áudio para Sicário, que trata Bruno como um doente e mentiroso.
No início de março, eles voltaram a conversar após a nova prisão de Daniel Vorcaro e do Sicário. Bruno afirmou que soube por “informação segura” que Henrique seria “o próximo”, provavelmente referindo-se à prisão.
“Temos pouco tempo, muito pouco”, alertou.
O pai de Vorcaro foi preso em 14 de maio. Naquele mês, Manoel conversou com o empresário Daniel Leitão de Almeida sobre negócios. Num dos diálogos, ele se refere ao suicídio do Sicário, morto na sede da PF no dia 6 de março. “Infelizmente o falecimento lá foi melhor para a gente, né?”, disse.
MILICIANOS TINHAM ATÉ FÉRIAS DE FIM DE ANO
As mensagens obtidas nas investigações da PF também apontam que membros do grupo de milicianos a serviço de Vorcaro tinham até férias de fim de ano. Segundo os diálogos, o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, apontado como líder de “A Turma”, chegou a cobrar uma definição sobre suas demandas, porque seus integrantes entrariam de férias e o serviço poderia ficar para a última hora.
O episódio faz parte da análise feita pela PF sobre conversas mantidas entre Vorcaro e Sicário.
A conversa sobre as férias ocorreu em 13 de dezembro de 2023. Segundo o relatório da PF, Sicário encaminhou a Vorcaro um áudio em que Marilson pediu que ele falasse com o parceiro, em uma referência a Vorcaro, para saber qual decisão havia tomado.
Marilson queria uma resposta porque, “devido ser fim de ano “A Turma” sairia de férias e ficaria tudo para cima da hora”.
Segundo a PF, “A Turma” tinha era composta por seis integrantes e recebia cerca de R$ 400 mil por mês.
O dinheiro, segundo a investigação, saía de empresas ligadas ao grupo empresarial de Vorcaro e chegava ao grupo por intermédio de uma empresa de Mourão.