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Opinião

A carta que deveria ser lida por todos os candidatos em 2026

Se Dom Quixote tivesse de aconselhar os candidatos de 2026, provavelmente diria exatamente o contrário do que grande parte deles pratica

Redação Jornal de Brasília

25/07/2026 12h31

Foto: Adobe Stock

Há pouco mais de quatro séculos, Miguel de Cervantes escreveu uma das mais inteligentes reflexões sobre o exercício do poder. Antes de entregar a Sancho Pança o governo da fictícia Ilha Baratária, Dom Quixote lhe envia uma série de recomendações que, reunidas, formam um verdadeiro código de ética para quem pretende administrar a coisa pública.


Não eram conselhos sobre marketing, pesquisas eleitorais, redes sociais ou alianças partidárias. Eram orientações sobre honestidade, humildade, justiça, respeito ao povo, equilíbrio nas decisões e resistência à sedução do poder.


O curioso é que, em 2026, boa parte da classe política brasileira parece ter estudado justamente o manual inverso.


Há candidatos que confundem o Estado com patrimônio pessoal. Outros tratam o orçamento público como moeda de troca para sustentar alianças políticas. Há os que fazem do cargo um palco para alimentar o próprio ego e os que acreditam que governar consiste apenas em vencer a próxima eleição.


Dom Quixote ensinava exatamente o contrário. O governante deveria lembrar diariamente que o poder é passageiro, mas as consequências de suas decisões permanecem por muitos anos na vida da população. Um administrador público não existe para ser servido. Existe para servir.


Essa talvez seja a maior crise da política brasileira: não faltam programas de governo. Faltam governantes com estatura moral para executá-los.


É curioso observar campanhas inteiras discutindo quem enviou mais emendas, quem construiu mais hospitais, pavimenta mais ruas ou anuncia mais investimentos. Tudo isso é importante. Mas existe uma pergunta anterior, quase nunca feita: quem merece administrar o dinheiro e o destino de milhões de pessoas?


Caráter não aparece no horário eleitoral. Integridade não se mede em pesquisas. Honestidade não cabe em um jingle de campanha. No entanto, essas virtudes continuam sendo muito mais importantes do que qualquer promessa.


Talvez o maior erro do eleitor seja analisar apenas o plano de governo e ignorar o histórico de quem pretende executá-lo. Obras podem ser planejadas por técnicos. A ética depende exclusivamente do governante.


A Ilha Baratária nunca existiu. Mas os dilemas enfrentados por Sancho Pança continuam vivos em cada prefeitura, em cada governo estadual e no Palácio do Planalto.


Se os candidatos de hoje lessem Cervantes com a mesma dedicação com que acompanham as pesquisas eleitorais, talvez o Brasil tivesse outro rumo.


O romance é do século XVII. A lição continua sendo a mais moderna da política: antes de escolher quem vai governar o estado ou o país, convém saber se essa pessoa é capaz de seguir os conselhos do Cavaleiro Andante.

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