Em uma noite chuvosa de março, John Bateman calça suas botas, coloca uma lanterna de cabeça, e segue em direção a um pântano atravessado por uma estrada movimentada. Enquanto caminha, examina a calçada em busca de pererecas, sapos, salamandras e tritões que migram lentamente para um novo habitat a cada primavera, e às vezes se abaixa para ajudar um deles a atravessar.
É uma ação pequena que faz uma grande diferença para esses anfíbios, que precisam de habitats diferentes para cada estágio de seu ciclo de vida – às vezes, pântanos úmidos, e às vezes, áreas mais altas e secas. Frequentemente há estradas separando esses habitats, e os anfíbios correm o risco de serem esmagados durante a migração.
Eles já enfrentam desafios com a perda do habitat para o desenvolvimento urbano. Isso se aplica principalmente às lagoas temporárias, as pequenas poças que aparecem depois da primavera nos ecossistemas florestais, quando a neve derrete e a água se acumula nos pontos mais baixos do terreno. No hemisfério Norte, a água chega a permanecer nessas lagoas até julho, fornecendo um habitat de reprodução essencial para anfíbios como salamandras e sapos.
Pântanos maiores podem receber proteção federal, mas não as lagoas temporárias, que são muito pequenas e efêmeras.
“Infelizmente, com a expansão urbana e o desenvolvimento, muitas florestas estão sendo derrubadas para abrir espaço para novos empreendimentos imobiliários, à medida que as pessoas saem das cidades e vão para os subúrbios”, explica Bateman, professor de conservação ambiental e horticultura na faculdade Finger Lakes Community College. “Quando eles derrubam esses habitats de floresta, as lagoas temporárias são enterradas e se tornam novas casas, condomínios e bairros.”
O Serviço Geológico dos EUA considera o declínio dos anfíbios “um fenômeno global”, que vem acontecendo nos EUA pelo menos desde a década de 1960. O órgão diz que as populações vêm caindo quase 4% a cada ano nos EUA.
O desenvolvimento urbano não é a única ameaça. Os anfíbios também estão sendo atingidos pelas mudanças climáticas. A região dos Apalaches é especialmente rica em espécies de salamandras, e com o aumento das temperaturas, sua distribuição está se deslocando para o norte, segundo Bateman.
Isso o preocupa.
“Em algum momento você chega no limite, e não há mais para onde ir”, diz.
Um clima mais quente também exige que os anfíbios de sangue frio passem mais tempo caçando para obter o alimento necessário à manutenção de seu metabolismo, explica Karen Lips, professora de biologia na Universidade de Maryland, cuja pesquisa determinou que as salamandras estão ficando menores em decorrência disso.
Bateman não é o único conservacionista que está tentando ajudar os anfíbios.
Margot Fass é proprietária de um centro de defesa de sapos chamado “A Frog House” (Uma casa de sapos), em Pittsford, Nova York, EUA. Em abril, ela arrecadou recursos e reuniu 70 voluntários para construir três lagoas temporárias, como parte do Dia de Salvar os Sapos. As lagoas devem ajudar os anfíbios, mas também serão uma fonte de água para os pássaros e outros animais selvagens.
Fass se anima ao falar sobre jardins sem produtos químicos e sua importância para os anfíbios: “um jato de pesticida pode matar um sapo em uma hora. É simplesmente horrível.”
Ela e Bateman acreditam na educação das comunidades como forma de ajudar os anfíbios. Eles costumam dar palestras em escolas, bibliotecas e organizações diversas.
“É incrível como poucas pessoas sabem que os sapos estão ameaçados, ou que um terço deles já foi extinto”, conta Fass.
A ONG de conservação Genesee Land Trust também é ativa na preservação e proteção das terras da região metropolitana de Rochester. Ela é proprietária da Reserva Cornwall, em Pultneyville, no estado de Nova York, às margens do Lago Ontário A ONG comprou a propriedade de 31 hectares em 2016, e pela primeira vez em 200 anos a terra está nas mãos de alguém que não seja produtor rural. Eles estão preservando as terras agrícolas históricas, e para isso, recuperaram alguns pântanos e lagoas temporárias.
“O pântano imediatamente atendeu a uma população de pássaros depois que começamos a cavar”, conta Elliotte Bowerman, diretora de comunicação da organização.
Para a maioria, capturar anfíbios pode ser apenas uma lembrança nostálgica da infância, mas para Bateman, isso nunca perdeu a magia. Ele considera que a preservação de pântanos e lagoas temporárias é fundamental, não apenas para os anfíbios e o meio ambiente, mas para que as próximas gerações possam experimentar o deslumbramento infantil de descobrir essas criaturas escondidas.
“Penso que será uma absoluta perda para as gerações futuras não ter essas experiência que tive na infância, esse tipo de conexão com a natureza”, diz.
Estadão Conteúdo