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Mundo

Veteranos argentinos das Malvinas denunciam torturas e pedem justiça

Arquivo Geral

30/03/2012 23h01

Pablo de Benedetti tinha 19 anos quando lutou na Guerra das Malvinas, e agora, três décadas depois, briga para levar os comandantes militares que o torturaram para o banco dos réus e reivindica reconhecimento para os soldados que participaram do conflito.

“Quero denunciar meu caso para que nunca mais ocorram casos como este na Argentina”, afirmou Benedetti à Agência Efe.

Como muitos outros soldados argentinos, ele luta para que a Suprema Corte considere delitos contra os direitos humanos, considerados imprescritíveis, os abusos que sofreram nas Malvinas por seus comandantes militares.

Quando o exército argentino invadiu as ilhas sob domínio britânico, em 2 de abril de 1982, Benedetti estava a dois meses servindo como soldado.

“Não tínhamos nenhuma preparação. Só nas ilhas é que nos mostraram o que é uma mina e nos explicaram como se faz um campo minado”, lembrou.

O soldado afirmou que o exército fez uma lavagem cerebral nos jovens: “disseram que defenderíamos a pátria e que estávamos defendendo nossas famílias pois a guerra poderia chegar a Buenos Aires”.

Com uma média de idade de 20 anos, os soldados argentinos que combateram nas Malvinas não tinham formação militar, muitos eram analfabetos e outros tinham apenas instrução mínima. Além disso, não contavam com equipamento adequado para suportar o frio e não é possível determinar quantos morreram por desnutrição ou vítimas de maus-tratos.

Os soldados, explicou Benedetti, tinham que buscar comida extra porque os comandantes guardavam para eles a água e os alimentos. Além disso, ficavam com cigarros e com as encomendas que as famílias enviavam para os combatentes.

Um dia, após buscar água e comida, seus superiores o capturaram e o torturaram. “Eles utilizavam as trincheiras que tínhamos escavado e as enchiam de água gelada para que nós entrássemos até a cintura e o peito, durante horas. Depois ficávamos molhados o dia inteiro pois eles não deixavam a gente se secar”, denunciou o soldado.

“Me obrigavam a saltar num campo minado que nós mesmos tínhamos preparado, com o fuzil apontado para mim”, afirmou o veterano, que quase perdeu as pernas por causa da água gelada.

No fim da guerra, Benedetti pediu baixa do exército e relatou sua experiência para um tribunal da justiça militar, mas a denúncia não foi registrada.

O retorno também não foi como ele esperava: “deixamos de ser os soldados das Malvinas para ser os loucos da guerra, nos diziam que tínhamos perdido a guerra, que nós éramos os responsáveis”.

Por isso decidiu relatar sua experiência, embora tenha sofrido pressões do exército mesmo já fora da corporação. Em 1985, o soldado contou que um coronel do Estado-Maior do Exército afirmou que ele estaria falando demais e chegou a ameaçar sua família.

Há pouco mais de um ano, recebeu uma ligação de um alto comandante pedindo para que Benedetti tomasse cuidado com sua saúde.

“Pedimos justiça, que os fatos sejam investigados, que os culpados sejam castigados. Não é possível que esta gente ganhe pensões como heróis das Malvinas, que ocupem cargos militares e sigam usando seus uniformes”, reclamou o veterano.

Segundo Ernesto Alonso, do Centro de ex-combatentes das Ilhas Malvinas, os processos por abusos nas ilhas envolvem mais de uma centena de soldados e 80 oficiais e suboficiais.

Apesar de vários tribunais terem dado razão aos ex-combatentes, “nenhum comandante militar foi condenado até agora”, relatou Alonso.

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