Donald Trump assinou uma proclamação flexibilizando temporariamente as importações de carne bovina magra nos Estados Unidos durante 90 dias, a partir de 1º de setembro de 2026, em resposta à pressão da inflação de alimentos no país. A medida autoriza a entrada de até 300 mil toneladas de aparas destinadas principalmente à produção de carne moída com tarifa reduzida, buscando aumentar a oferta e reduzir os preços para consumidores americanos.
Trump afirmou ter obtido um compromisso de exportadores estrangeiros para vender o produto 25% abaixo dos preços atuais de mercado. Segundo a Casa Branca, a iniciativa permite que o rebanho doméstico cresça enquanto alivia a pressão sobre os custos alimentares. “O presidente está cumprindo sua promessa aos consumidores, reduzindo os preços da carne bovina enquanto permite que nosso rebanho doméstico cresça”, declarou Anna Kelly, porta-voz da Casa Branca.
O rebanho bovino dos Estados Unidos está em seu menor nível em décadas, atingindo apenas 94,2 milhões de cabeças em 1º de julho. A oferta também foi reduzida pela suspensão, em 2025, da maioria das importações de gado mexicano devido a preocupações com a disseminação de uma praga que afeta bovinos. A restrição da oferta contribuiu para elevar os preços da carne a patamares recordes, impactando consumidores, restaurantes e processadores.
A estrutura do acordo exclui países com cotas tarifárias específicas ou acordos bilaterais, como Argentina, Uruguai, Austrália, Nova Zelândia, Canadá e México. A cota ampliada se aplica apenas a fornecedores na categoria genérica “outros países”, deixando o Brasil como o principal beneficiário potencial. Fernando Herrera, presidente da Associação de Produtores e Exportadores da Argentina, afirmou que “quase a totalidade do fornecimento deva vir do Brasil”, ressaltando que o país sul-americano possui tanto o volume quanto os contatos comerciais consolidados para atender a demanda.
O Brasil é atualmente o segundo maior mercado para carne bovina brasileira. De janeiro a julho de 2026, o país exportou 233,8 mil toneladas para os Estados Unidos, uma alta de 17,1% em relação ao mesmo período de 2025, gerando receita de US$ 1,54 bilhão. As exportações brasileiras normalmente participam de uma cota compartilhada que se esgota nas primeiras semanas do ano, após o que a carne passa a pagar tarifa extra-cota de 26,4%.
O Ministério da Agricultura brasileiro avaliou que o Brasil tem condições de capturar grande parte da nova cota. Enquanto a tarifa atual é de 26,4%, o volume ampliado terá cobrança de US$ 44 por tonelada. A medida vale de 1º de setembro a 30 de novembro de 2026 e contempla países sem cotas específicas, incluindo Brasil e Paraguai. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) informou que ainda aguarda detalhes oficiais do governo americano sobre a implementação.
Porém, questões práticas pairam sobre a viabilidade do desconto prometido. Os exportadores não controlam diretamente os preços finais pagos pelos consumidores, que dependem também de processadores, distribuidores, supermercados e restaurantes. Para Sylvain Charlebois, professor de política de distribuição de alimentos da Universidade Dalhousie, a exigência do desconto de 25% levanta questões técnicas sobre quem absorverá a diferença financeira. O governo dos EUA prevê monitorar os preços de importação e pode eliminar imediatamente qualquer parcela restante da cota se a carne importada não for vendida aos preços estipulados.
A medida também enfrenta oposição dos produtores americanos. A National Cattlemen’s Beef Association afirmou estar decepcionada com a decisão, argumentando que colocar carne importada abaixo dos preços de mercado no país não seria a melhor forma de reconstruir o rebanho americano. A entidade teme que o aumento da concorrência externa reduza os incentivos econômicos para os produtores ampliarem seus rebanhos justamente quando a oferta doméstica começa a se recuperar.