IGOR GIELOW
FOLHAPRESS
Em meio à renovada troca de ataques com o Irã em torno do estreito de Hormuz, o presidente Donald Trump afirmou nesta segunda-feira (13) que os Estados Unidos vão retomar o bloqueio aos navios iranianos na via marítima e que pretende cobrar um pedágio para manter o tráfego na região.
Além disso, o americano afirmou que os EUA irão “acabar com a Montanha da Picareta”, apelido dado a um dos principais bunkers nucleares do rival, perto de Natanz (220 km a sudeste de Teerã). Ele não especificou como faria isso, e anunciou novos ataques contra que já começaram pouco depois da meia-noite de terça (14, fim da tarde de segunda no Brasil).
“Nós vamos manter o controle do estreito e provavelmente administrá-lo. Seremos os guardiões do estreito. Talvez o anjo da guarda do estreito. E deveríamos ser reembolsados por isso”, afirmou o republicano à Fox News.
Depois, em rede social, disse que gostaria de cobrar 20% sobre toda carga transportada por lá. O Egito cobra no mínimo 37% do valor transportado por petroleiros no canal de Suez, mas o país árabe controla ambas as suas margens as águas de Hormuz são só omanis e iranianas.
“Nós estamos reinstalando o bloqueio iraniano, assim chamado porque só vai parar navios ou clientes iranianos de entrar ou sair. Todos os outros países terão o uso aberto e livre do estreito. Por uma questão de justiça, nós seremos reembolsados, em uma taxa de 20% de toda a carga transportada, por qualquer custo necessário para fazer o trabalho de prover segurança nessa área muito volátil do mundo”, escreveu.
A Marinha americana disse que o bloqueio passará a valer a partir das 17h (horário de Brasília) desta terça (14).
O Irã, por sua vez, respondeu em um comunicado de seu comando militar conjunto. Afirmou que não permitirá que os EUA atuem na região. Disse que irá atacar qualquer embarcação que não tiver sua autorização para passar por rotas designadas, e advertiu os vizinhos que ajudar os EUA trará retaliações o apoio será visto como “um ato de guerra”.
Trump já havia feito menção a controlar o tráfego marítimo na rota por onde passava um quinto do petróleo e do gás natural do mundo antes do início da guerra lançada pelos EUA e Israel contra a teocracia, em 28 de fevereiro.
Na mais recente fala, no fim de junho, ele havia dito que não deveria haver pedágio para o trânsito de navios na região, como o Irã quer, mas que se houvesse ele deveria ser pago pelos países aos EUA.
Não há hoje força militar americana suficiente na região para criar um corredor de passagem à prova de ataques iranianos, mas antes do cessar-fogo de 17 de junho os EUA já haviam imposto um bloqueio naval a embarcações da teocracia. Ele teve bastante sucesso em pressionar Teerã.
O cenário agora é ainda mais complexo. Trump declarou morta a trégua com Irã na semana passada, e os rivais passaram a se atacar sistematicamente. Nesta segunda, houve mais uma rodada de troca de fogo.
Pela primeira vez no conflito, os EUA empregaram drones aquáticos semelhantes aos usados pela Ucrânia no mar Negro contra uma instalação de reparos de navios e submarinos do Irã, em Bandar Abbas, principal cidade iraniana no estreito.
Após ataques que começaram na noite de domingo (12) contra posições iranianas, Teerã alvejou instalações americanas no Bahrein, no Kuwait, na Jordânia e novamente no neutro Omã, sultanato que negocia com a teocracia um esquema de controle de Hormuz.
O país árabe controla a costa sul da passagem, enquanto o persa ocupa a norte. As demais nações produtoras de petróleo do golfo Pérsico e os EUA rejeitam a ideia do controle, e hoje há duas rotas teóricas para navios, uma passando por águas iranianas e outra, por omanis.
Mas a volta das hostilidades derrubou o tráfego ao menor nível desde a trégua de junho. No domingo, apenas 14 navios com sistemas de comunicação ativos passaram pela região, segundo a consultoria Kpler. Na véspera, o Irã havia alvejado 2 das 22 embarcações que haviam transitado por Hormuz.
Antes da guerra, cerca de 140 petroleiros e outros navios singravam aquelas águas. Com a guerra, o Irã cumpriu a promessa de fechar o estreito, e durante a fase mais ativa de cinco semanas do conflito o trânsito foi basicamente a zero.
Segundo os termos do cessar-fogo, o Irã deveria permitir o tráfego por 60 dias de negociações. Não havia nenhuma provisão impedindo a cobrança de pedágio, um ativo estratégico que Teerã descobriu ao longo do conflito. Assim, os persas buscaram assegurar sua posição.
Fizeram isso atacando pontualmente petroleiros, o que irritou Trump. Agora, com os ataques pontuais, o conflito está numa perigosa fase de banho-maria, sob risco de escaladas maiores que não interessam nem ao Irã, nem aos EUA, onde o presidente enfrentará uma dura eleição legislativa em novembro e a guerra é impopular.
Nas negociações, que os EUA dizem poder continuar apesar da crise, seria debatido o programa nuclear iraniano e o destino de 441 kg de urânio enriquecido a 60%, que já tem aplicação militar. Em entrevista ao Hugh Hewitt Show no rádio, Trump disse que os EUA irão “acabar” com complexo de Natanz, que já foi alvo de ataque no ano passado.
Trump anuncia novo bloqueio, pedágio em Hormuz e ataque a bunker nuclear no Irã
“Nós vamos manter o controle do estreito e provavelmente administrá-lo. Seremos os guardiões do estreito. Talvez o anjo da guarda do estreito. E deveríamos ser reembolsados por isso”, afirmou
Foto: BRENDAN SMIALOWSKI / AFP