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Mundo

Terceiro dia de protesto político no Quênia termina com cinco mortos

Arquivo Geral

18/01/2008 0h00

 Pelo menos cinco pessoas morreram e muitas outras ficaram feridas no terceiro e último dia de protestos organizados pela oposição queniana contra a suposta fraude nas eleições presidenciais de dezembro, cost informaram fontes policiais.

Assim como na quinta-feira e no dia anterior, o bairro pobre de Kibera, em Nairóbi, foi um dos centros dos confrontos entre a Polícia e os seguidores do principal partido de oposição, o Movimento Democrático Laranja (ODM), dirigido por Raila Odinga.

Foi em Kibera inclusive que quatro das cinco vítimas morreram. A Agência Efe obteve informações de que a Polícia teria atirado contra os manifestantes, os quais havia anteriormente tentado dispersar com bombas de gás lacrimogêneo.

Ao entardecer e momentos antes de a imprensa estrangeira deixar o bairro, o corpo de um adolescente, morto com um tiro na cabeça, jazia sobre o asfalto.

Um pouco mais longe, outro rapaz, ainda respirando, esperava uma ambulância no interior de um contêiner.

Nos últimos dias, tropas de elite da Polícia queniana haviam contido manifestantes em Kibera a fim de que estes não fizessem uma passeata em direção ao centro de Nairóbi.

No terceiro dia de protesto, os policiais entraram no coração do bairro e, ao chegar a uma praça, separaram-se e prenderam todos os que atiravam pedras nos agentes.

Três adolescentes foram levados até uma casa, onde foram duramente espancados pelos policiais, a julgar pelos gritos de dor que podiam ser ouvidos pelos jornalistas a dez metros de distância.

A Polícia ameaçou todos os que tentavam se aproximar e obrigou representantes da imprensa a abandonar o local sem que pudessem verificar o estado dos três detidos.

No centro da capital, cerca de 200 manifestantes, quase todos muçulmanos, foram repreendidos pela Polícia ao saírem das mesquitas onde rezavam.

Nenhum dos grupos de manifestantes pôde se aproximar do parque Uhuru, local onde desde 30 de dezembro a oposição tenta se reunir. Os líderes do ODM, mais uma vez, não participaram das manifestações.

Na cidade litorânea de Mombasa, a segunda metrópole mais importante do Quênia, uma pessoa morreu em confrontos com as forças de segurança, que como em dias anteriores impediram os protestos organizados pela oposição, que foram proibidos pelo Governo.

O ODM calcula que desde as eleições de 27 de dezembro, tachadas de fraudulentas pela oposição, o número de vítimas fatais tenha chegado a casa do milhar. A maioria de militantes teria sido baleada pelas forças de segurança.

Nove países ocidentais emitiram hoje em Nairóbi um comunicado conjunto no qual pediram que o Governo renuncie ao “uso indiscriminado da força contra civis desarmados”.

“Pedimos que a Polícia exerça suas funções no marco estrito da Lei e desista de qualquer uso extraordinário ou desproporcionado da força que possa causar, principalmente, a morte de manifestantes desarmados”, indica o documento.

A mensagem foi assinada pelas embaixadas de Austrália, Canadá, Dinamarca, Finlândia, Holanda, Noruega, Reino Unido, Suécia e Suíça.

Em uma tentativa de evitar mais vítimas, o partido de Odinga anunciou hoje uma mudança de estratégia na luta política, que se concentrará no boicote às empresas de pessoas ligadas ao presidente queniano, Mwai Kibaki.

“Hoje será nosso último dia na rua”, disse à Efe o porta-voz do ODM, Salim Lone, dizendo que o movimento pediu que seus partidários boicotem “todas as empresas cujos proprietários são membros do Executivo”, a fim de prejudicar economicamente um Governo que considera ilegal.

A Comissão de Direitos Humanos do Quênia afirmou hoje que, de acordo com as irregularidades denunciadas nas últimas eleições, “Kibaki não foi reeleito, mas estendeu seu primeiro mandato”.

“O presidente estendeu seu primeiro mandato após ficar claramente comprovado que as eleições foram manipuladas”, afirmou Maina Kiai, presidente da Comissão de Direitos Humanos, criada por Kibaki em 2002, mas que funciona com total autonomia.

Kiai descartou a possibilidade de a oposição recorrer nos tribunais das irregularidades denunciadas na votação, como vem sugerindo o Governo.

“Não seria sábio, porque neste país o Presidente controla todas as instituições”, disse Kiai, que afirmou ainda que Kibaki fez manobras para que membros da Comissão Eleitoral fossem favoráveis às suas políticas, o que possibilitou que autoridades eleitorais lhe atribuíssem a vitória no pleito.

O governante tomou posse de seu segundo mandato uma hora após a Comissão Eleitoral declará-lo vencedor. Observadores internacionais denunciaram a existência de irregularidades e colocaram em dúvida a credibilidade da apuração.

“Todos os quenianos são vítimas da Comissão Eleitoral”, acrescentou Kiai.

Segundo dados da Comissão de Direitos Humanos, a violência registrada no Quênia após as eleições para presidente deixou mais de 500 mortos e cerca de 250 mil refugiados, seis mil deles na vizinha Uganda.

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