O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, isentou nesta segunda-feira (31) Marrocos de responsabilidade pela entrada maciça de migrantes no enclave de Ceuta há um mês e acusou a Rússia, Israel e uma “extrema direita internacional” de divulgarem desinformação sobre a crise.
Há um mês, cerca de 70.000 migrantes cruzaram, a pé ou a nado, a fronteira entre Marrocos e o enclave espanhol de Ceuta, no norte da África, em uma travessia que deixou dezenas de mortos.
Embora a maioria tenha retornado quase imediatamente, cerca de 5.000 continuam no território, incluindo cerca de 1.200 menores não acompanhados, indicou Sánchez. Autoridades locais calculam o número de migrantes em 10.000.
“Não há qualquer informação, nem por parte das forças e corpos de segurança do Estado, nem do Centro Nacional de Inteligência (…) que lance qualquer dúvida, ou melhor dizendo, alguma dúvida sobre a participação, de uma forma ou de outra, por parte das autoridades marroquinas”, assegurou em entrevista à rádio Cadena Ser.
“Continuamos investigando”, afirmou.
Sánchez, socialista de 54 anos, retoma a atividade política após a pausa de verão em um momento delicado para seu governo, a pouco mais de um ano das eleições gerais e desgastado por suspeitas de corrupção envolvendo pessoas de seu entorno profissional e familiar.
– “Cooperação” –
Para alguns analistas, a crise teria sido uma mensagem do reino marroquino à Madri pela questão do Saara Ocidental — ex-colônia espanhola controlada majoritariamente pelo Marrocos, mas que separatistas da Frente Polisário reivindicam, apoiados pela Argélia — após uma visita de Sánchez à Argélia em julho.
“O que sabemos até agora é que se deturpou uma sentença do Supremo Tribunal de 8 de julho passado, que foi difundida pelas redes sociais por meio de boatos, desinformação, e também por organizações criminosas que traficam pessoas”, explicou.
Essas informações enganosas indicavam que os migrantes que entrassem a nado em Ceuta não poderiam ser expulsos para o Marrocos, o que é falso, destacou.
Sánchez prometeu 6.000 vagas de acolhimento no território aos migrantes, cujo status será verificado antes de uma possível devolução, além de recursos adicionais de 168 milhões de euros (1 bilhão de reais, na cotação atual) para enfrentar a crise e suas consequências.
– Tensão –
A tensão continua no enclave espanhol de 18,5 km² e 80.000 habitantes. Protestos cada vez maiores denunciam problemas de segurança e higiene, enquanto a oposição critica a lentidão do governo central em gerir a crise.
“Depois dos dias 30 e 31 de julho, houve uma expansão das falsas notícias e da desinformação nas redes sociais associadas tanto à Rússia como a Israel e a uma extrema direita internacional que utiliza a migração, não apenas para atacar a Espanha, mas também a Europa e dividi-la”, defendeu Sánchez.
Na contramão de muitos países europeus, seu governo de esquerda apostou em uma política migratória mais aberta e lançou um plano de regularização que deve beneficiar centenas de milhares de migrantes, a maioria proveniente da América Latina.
“É evidente que, se a Rússia difundir desinformação sobre este assunto, ou Israel também desinformar sobre essa questão criticando o governo da Espanha, não será porque se preocupa com a migração na Espanha ou na Europa, mas justamente devido às posições políticas que estamos mantendo (…) a respeito do genocídio em Gaza ou da invasão de [Vladimir] Putin na Ucrânia”, afirmou.
O ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, considerou na rede social X que as declarações de Sánchez eram uma “mentira descarada”, em um novo choque entre ambos os governos, cujas relações estão muito deterioradas há meses.
AFP