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Recrudescimento de episódios de calor extremo leva a agricultura mundial ‘ao limite’

Redação Jornal de Brasília

22/04/2026 11h41

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O recrudescimento dos episódios de calor extremo está levando a agricultura “ao limite” em todo o mundo e ameaça a saúde e os meios de subsistência de mais de 1 bilhão de pessoas, alertam nesta quarta-feira (22) a FAO e a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

O fenômeno, ligado ao aquecimento climático gerado pelas atividades humanas, provoca a perda de 500 bilhões de horas de trabalho por ano na agricultura. Com tendência de se intensificar, ele ameaça a segurança alimentar mundial, destaca o relatório “Calor extremo e agricultura”.

O calor extremo se refere a temperaturas “excepcionalmente altas” em comparação com o normal, tanto de dia quanto à noite. Sua intensidade pode dobrar se o mundo atingir +2°C em relação à era pré-industrial – e quadruplicar a +4°C -, alertam os cientistas.

O calor extremo também afeta a umidade e a radiação solar, gerando chuvas torrenciais ou secas “repentinas”.

“É o principal detonador”, explica à AFP Kaveh Zahedi, diretor do Escritório de Mudança Climática da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

“Vimos isso há dois anos no Brasil. Um calor extremo prolongado, combinado com seca, provocou incêndios na Amazônia e a secagem de afluentes do Amazonas, com impacto imediato em todo o sistema alimentar, incluindo pesca e aquicultura. Mais ao sul, gerou chuvas anormalmente intensas”, descreve.

“Esse é o tipo de convergência que estamos apenas começando a compreender. Não é apenas ‘calor extremo’, mas um multiplicador de riscos”, acrescenta.

Os casos se acumulam nos Estados Unidos, Rússia, China… e todos os setores são afetados.

Para o gado, quando o calor extremo não provoca falhas digestivas ou cardiovasculares, reduz a produção de leite e seu teor de proteínas.

Os peixes podem sofrer falhas cardíacas em águas cujo nível de oxigênio diminui devido às altas temperaturas. Em 2024, 91% do oceano em escala global experimentou pelo menos uma onda de calor, das quais metade foi considerada “forte”, aponta o relatório.

Para a maioria das lavouras, a produtividade começa a cair acima de 30°C, e até antes no caso da batata ou da cevada.

O desaparecimento de polinizadores, as doenças e a falta de alimento aumentam os riscos, agravados pela uniformidade das variedades.

Arroz indiano, caranguejo do mar de Bering


No Marrocos, seis anos de seca, coroados por duas ondas de calor históricas, em 2023 e 2024, reduziram a produtividade dos cereais em 40% e arruinaram as colheitas de azeitonas e cítricos, lembra Zahedi.

Isso também ocorre em áreas montanhosas, como na primavera de 2025, quando temperaturas superiores a 30°C – 10°C acima do normal – na cordilheira quirguiz de Ferganá submeteram frutas e cereais a um choque térmico e a uma invasão de gafanhotos. Resultado: 25% menos colheitas.

Por fim, no leste do mar de Bering, uma onda de calor marinha em 2018-2019 provocou a morte de 90% dos caranguejos-das-neves, o que levou ao fechamento de uma das pescarias “mais lucrativas” do Ártico, aponta o relatório.

Diante dessa situação, “vemos exemplos de ações inovadoras”, destaca Zahedi, que menciona a Índia, onde agricultores testam variedades de arroz mais precoces. Trata-se de um enorme desafio para um país que obtém dessa cultura 70% de suas calorias e onde a agricultura sustenta milhões de trabalhadores.

Os picos de calor já afetam mais de 1 bilhão de pessoas, principalmente agricultores e suas famílias, em aspectos como saúde e produtividade.

Também enfraquecem uma segurança alimentar já muito incerta – em 2024, 2,3 bilhões de pessoas sofriam algum tipo de insegurança alimentar.

O relatório pede a adoção de sementes e raças adaptadas às novas condições, além da disponibilização de sistemas de alerta aos agricultores, já que o calor extremo é um dos fenômenos meteorológicos mais previsíveis.

“Vemos ações, mas elas são insuficientes”, insiste o responsável da FAO, ressaltando a importância “crítica” dos sistemas de alerta.

Mas, sem uma redução “ambiciosa” dos gases de efeito estufa, “a gravidade dos calores extremos superará cada vez mais a capacidade de adaptação”, aponta o relatório. “Construir resiliência é essencial, mas não pode substituir uma ação climática decidida”, destaca.

AFP

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