Dois casos de ataques de onças-pintadas em menos de 40 dias, com uma pessoa morta e outra ferida. Por que as onças-pintadas estão atacando humanos? Especialistas dizem que o desmatamento e a perda do habitat estão levando esses grandes felinos a se aproximarem do homem, aumentando o risco de conflito. Em regiões de turismo rural, as onças são atraídas com alimentos para serem exibidas como troféus aos visitantes.
No último domingo, 25, um vaqueiro de 51 anos ficou ferido após ser atacado por uma onça-pintada, quando estava a cavalo em uma área de mata, no município de Campinaçu, no norte de Goiás. O homem conseguiu se defender usando um facão, mas sofreu muitos ferimentos. Ele estava acompanhado de cães que ajudaram a afugentar o felino.
No dia 22 de abril, o caseiro Jorge Ávalo, de 60 anos, morreu após ser atacado por um animal da espécie em um pesqueiro de Aquidauana, no Pantanal de Mato Grosso do Sul. O felino arrastou a vítima e devorou parte do corpo. Os restos foram localizados no dia seguinte. A onça-pintada foi capturada, tratada e agora vive em cativeiro no interior de São Paulo.
Sobre o ataque em Goiás, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento (Semad) informou que realizará campanhas educativas junto a proprietários rurais da região sobre o comportamento dos felinos.
A reportagem entrou em contato com o Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (MMA) que delegou o retorno ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O ICMBio ainda não se manifestou.
Para uma população estimada em 218 milhões de pessoas, o Brasil tem cerca de 10 mil onças-pintadas, segundo as estimativas mais recentes. Destas, cerca de 6,3 mil vivem em áreas protegidas da Amazônia. Um censo realizado em 2022 com apoio da WWF-Brasil no corredor verde entre o Parque Nacional do Iguaçu e o Yaguaraté, na Argentina, contabilizou 93 espécimes na região – um número estável desde 2016.
No Pantanal, a WWF estimava em 2020 cerca de 1,6 mil exemplares, considerando todo o bioma brasileiro (Mato Grosso do Sul e Mato Grosso). No restante da Mata Atlântica são cerca de 300 espécimes.
No Cerrado, elas são estimadas em menos de 1 mil indivíduos. “Quando o ambiente em que as onças-pintadas vivem é transformado, elas acabam ficando encurraladas em pequenas áreas e não têm como migrar livremente pela mata. Tendem, então, a se aproximar de propriedades rurais ou de comunidades, abatendo animais domésticos ou de criação para se alimentar e consumindo carcaças encontradas pelo caminho”, diz a WWF-Brasil.
De acordo com o Instituto Onça-Pintada (IOP), o número desses animais foi reduzido em mais de 50% de sua distribuição geográfica original e a espécie está ameaçada de extinção em quase todos os biomas brasileiros. As principais ameaças são a caça ilegal da onça e suas presas, e a falta de diversidade genética devido à fragmentação do habitat.
Com a escassez de suas presas naturais, como mamíferos silvestres, a onça-pintada pode ser compelida a atacar criações domésticas, como o rebanho bovino, e acaba se aproximando do homem. Conforme a Polícia Ambiental de MS, em regiões turísticas, como o Pantanal, a onça-pintada é atraída para ser vista e fotografada pelos visitantes, por isso há pousadas e empreendimentos que mantém cevas – espaço em que são colocados alimentos – para atrair esses animais.
A ceva é proibida tanto pela legislação federal, como por lei do Estado de Mato Grosso do Sul, segundo o major Diego Ferreira, comandante do 1.º Batalhão de Polícia Militar Ambiental. “A ceva é crime e infração administrativa. Pelo crime a pena é de detenção de 3 meses a 1 ano, e a multa chega a R$ 3 mil por animal que estiver na ceva. A gente tem ainda uma lei estadual que caracteriza a ceva como maus tratos. Nós, da Ambiental, destacamos que o contato com os animais pode acarretar o desequilíbrio da fauna e incorrer em acidentes.”
No caso da onça-pintada que atacou o caseiro, o pesquisador Gediendson Araújo, especialista em fauna silvestre de grande porte, disse que o fato incomum pode ter relação com a presença de humanos no ambiente do animal silvestre. “Parece ser um caso em que animal perdeu o medo de ver o homem como um predador e acabou tendo esse desfecho.”
Casos de ataques são raros em registros oficiais, mas existem. Em agosto de 2023, um peão de 40 anos foi atacado por uma onça-pintada na região do Paiaguás, no Pantanal de Mato Grosso do Sul. De acordo com os bombeiros, o homem chegou a lutar com o felino e ficou gravemente ferido. Ele foi socorrido e transportado em uma aeronave para um hospital de Corumbá, na mesma região. O peão sobreviveu.
Segundo a Polícia Militar Ambiental, até o ataque ao caseiro, o último caso de morte por onça-pintada no bioma Pantanal tinha sido registrado há 17 anos. Em 2008, em Cáceres (MT), um vaqueiro de 22 anos foi morto e arrastado pelo felino quando dormia em uma barraca, na margem do Rio Paraguai. Na ocasião, técnicos do ICMBio constataram a existência de uma ceva para fins turísticos no local.
Em abril deste ano, antes de acontecer o caso de Campinaçu, a Semad de Goiás realizou campanhas educativas junto aos proprietários rurais de Pirenópolis e Cocalzinho, onde foram avistadas onças, para orientar sobre os aspectos comportamentais desses felinos. “Em breve, a Semad realizará campanha parecida na região de Campinaçu e em outras localidades do estado”, diz a pasta.
Orientações básicas de segurança
De acordo com o Instituto Homem Pantaneiro (IHP), que atua na conservação do Pantanal, os estudos sugerem que, no primeiro contato de uma onça-pintada com o ser humano, o comportamento considerado normal é que a espécie procure afastar-se. Segundo o IHP, estas medidas ajudam a prevenir um possível ataque:
- Não se aproxime da onça. Evite qualquer tentativa de contato mais próximo, mesmo que o animal pareça manso.
- Onças com filhotes ou junto a carcaças podem ser mais agressivas. O cuidado deve ser redobrado.
- Mantenha luzes externas acesas em locais com possível presença de onças.
- Nunca alimente onças e não jogue resíduos orgânicos em locais onde houve registro desses animais.
- Locais onde haja suspeita de ceva (oferta de alimentos para animais selvagens) devem ser evitados pois trazem risco de conflito com onças.
- Observe pelo caminho se há pegadas de onças frescas ou antigas e evite andar sozinho nesses locais.
- Caso encontre uma onça no trajeto evite a aproximação e tente manter distância até que o animal saia do contato visual.
- Se estiver frente a frente com uma onça, não se vire e não corra: esse comportamento pode remeter ao de uma presa e causar o ataque. É aconselhável andar para trás.
- Depois que a onça sair do contato visual, evite o trajeto ou, se precisar seguir adiante, espere algumas horas para percorrê-lo.
Mordida mais forte entre os felinos
A onça-pintada (Panthera onca) é o maior felino do continente americano e o terceiro maior do mundo, após o tigre e o leão. O peso varia de 65 a 100 quilos, mas no Pantanal elas são maiores e podem chegar a 150 quilos. O comprimento vai de 1,1 m a 1,5 m. O animal ocorre desde o sul dos Estados Unidos, onde está praticamente extinto, até o norte da Argentina. Seu habitat são florestas situadas abaixo de 1.200 m de altitude e com a presença de água, pois o felino gosta de nadar.
As onças pintadas têm as mordidas mais fortes entre os grandes felinos e seus dentes conseguem romper a casca dura de répteis como jacarés e tartarugas. O animal tem hábitos noturnos e vive quase sempre solitário. Entre suas presas estão mamíferos de médio a grandes, inclusive grandes herbívoros, como o gado bovino.
A União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) considera a espécie como “quase ameaçada”, por sua ampla distribuição geográfica, mas na América do Sul o animal corre mais risco por ser frequentemente caçado pelos fazendeiros. Na Mata Atlântica brasileira a população é muito reduzida e sua melhor distribuição acontece no Pantanal e na Amazônia.
Ao contrário das outras espécies do gênero Panthera, a onça-pintada raramente ataca seres humanos. Não existem casos confirmados de onças man-eaters (comedoras de gente), como é reportado para os leopardos. Os poucos casos registrados envolvem animais velhos, com dentes danificados em ou momento em que eram caçadas ou estavam feridas.
Esse felino não costuma perseguir sua presa como os leopardos: ele a espreita e arma a emboscada, geralmente com um salto rápido em algum ponto cego.
Estadão Conteúdo