Milhares de policiais uniformizados ou à paisana patrulharam neste domingo, geralmente em pequenos grupos, a rua comercial Wangfujing, no centro de Pequim, para impedir gestos de protesto em resposta às chamadas do movimento “Molihua Gemin” (Revolução do Jasmim), responsável pela queda do Governo na Tunísia.
Desde o início da manhã, voluntários civis vestidos de abrigos brancos – como se fossem uniformes olímpicos – para se proteger do frio e braceletes vermelhos com os dizeres “Voluntário de Segurança” também se mobilizaram nas avenidas divisórias para abafar qualquer tentativa de manifestação, alertas a qualquer movimento suspeito.
A desproporcional concentração de agentes e dezenas de veículos policiais em toda a região circundante do centro de Pequim evidenciou, segundo os observadores, a preocupação das autoridades por qualquer tentativa de instabilidade social.
Nesta semana, Zhao Qizheng, porta-voz da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês – principal órgão consultor do Executivo -, qualificou os protestos de absurdos, e membros do Governo afirmaram que os chineses não sentem necessidade de manifestar, pois seu nível de vida melhorou muito. Mesmo assim, o desdobramento policial deste domingo, o segundo após o do último dia 20, indica certa inquietação.
As autoridades chinesas parecem considerar que a imprensa estrangeira tem sua própria agenda política contra a China, o que qualificam de ingerência externa.
Segundo o site “Boxun”, com sede nos Estados Unidos, o povo chinês tem de tolerar elevados preços dos produtos, alimentos e habitação e, por outro lado, não conta com serviços efetivos de bem-estar social como saúde, educação e atendimento aos idosos, numa situação pior que a de outros países emergentes como Rússia, Brasil e Índia.
Neste domingo na rua Wangfujing, além de pedir a identificação a qualquer estrangeiro com câmera ou reunido em grupo – na sexta-feira, o Escritório de Segurança Pública reiterou que estrangeiros devem cumprir as regulamentações chinesas -, os policiais interpelavam até mesmo alguns transeuntes chineses, impedindo sua passagem.
Esta via é considerada uma artéria comercial da capital chinesa, metade de pedestres, muito frequentada aos domingos por turistas e jovens casais que fazem compras. Nela se encontra a Igreja de San José, construída no século XVII por padres jesuítas que, embora quase não abra para missas, seu exterior é muito fotografado.
A entrada da lanchonete McDonald’s, no centro da mesma rua, foi restrita pela Polícia e, segundo testemunhas, até os garis eram agentes que varriam sem parar para impedir a passagem.
Em toda parte, inclusive no interior das lojas, agentes policiais filmavam ou fotografavam os transeuntes.
No entanto, segundo testemunhas, uma jornalista que tentava filmar as escadas do McDonald’s foi abordada pelos agentes, que a impediram de fazer seu trabalho.
Após cerca de duas horas de tensão, sem que se pudesse caminhar mais de cinco metros sem se deparar com agentes uniformizados ou à paisana, a Polícia interditou o acesso à Wangfujing pela avenida Changang, que leva à Praça da Praça da Paz Celestial, palco dos memoráveis protestos de junho de 1989.
O movimento civil convocou “passeatas da Revolução do Jasmim” para cada domingo às 14h local em Pequim, reivindicando ao Governo que acabem com a corrupção e aceite ser “supervisionado pelo povo”.
Por sua vez, o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, em chat com internautas, prometeu neste domingo adotar medidas para controlar a inflação e punir abusos de poder, para que na próxima meia década os cidadãos tenham uma vida cômoda e segura, informou a agência oficial “Xinhua”.
“Não falarei sobre como conseguir que as pessoas alcancem a felicidade, apenas de como fazer com que elas vivam tranquilas, cômodas e com esperanças no futuro”, declarou Wen.
O premiê destacou também que, para atingir progresso e desenvolvimento social adequado, o Governo da China irá enfatizar setores-chave da política e aspectos que tenham a ver com o desenvolvimento nacional e o interesse da população.
Os organizadores das “passeatas de jasmim” também convocaram para este domingo concentrações em Xangai e outras importantes cidades chinesas, como Wuhan e Hangzhou, onde, no entanto, o desdobramento policial foi igualmente forte.