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Peruana deixa para trás quatro anos de luta para libertar filho preso no Camboja

Arquivo Geral

05/04/2011 11h37

 

Após superar o calvário vivido no Camboja durante quatro anos para conseguir a libertação de seu filho, Felicia Farias retorna sozinha, desolada e pobre ao Peru, de onde partiu incentivada pela coragem materna.

 

A peruana de 60 anos enfrentou com coragem sua frágil situação financeira e o emaranhado de corrupção registrado no sistema judiciário e nas instituições penitenciárias cambojanas até que viu truncadas suas esperanças de reduzir a pena de 20 anos de prisão cumprida por Rodolfo Otero, seu único filho homem.

 

Após inúmeras visitas de Felicia a escritórios de advocacia e intermináveis esperas nos guichês da Justiça, o Tribunal de Apelações ratificou em dezembro a condenação imposta a Rodolfo, quando foi declarado culpado por narcotráfico, em 2007.

 

“Vou embora pelas minhas filhas. Aqui já não posso fazer mais nada. Estou triste, mas minhas duas filhas também precisam de mim”, declarou Felicia à Agência Efe pouco antes de subir no avião para deixar o Camboja levando consigo uma bagagem muito mais leve do que as lembranças amontoados em sua memória.

 

Antes de dizer adeus ao Camboja, Felicia visitou a prisão de Prey Sar, nos arredores de Phnom Penh, onde pela última vez passou pelo ritual de subornos e comissões para se despedir de seu filho e dar a ele o último pacote com roupa, comida e remédios que conseguiu comprar graças à caridade de boas pessoas.

 

Para Felicia já era uma rotina pagar algo mais do que US$ 1 na revista da prisão e outros US$ 10 para poder ver Rodolfo na sala de visitas na qual é preciso pagar também ao guarda de turno para possibilitar esse encontro familiar.

 

“Não vou sentir saudades do Camboja após tudo o que eu passei”, afirma Felicia, de quem há algum tempo atrás o governo do Peru tirou a pensão de cerca de US$ 100 dólares por ter vivido fora do país por mais de três anos.

 

Desde que ficou sem o benefício, sua sobrevivência passou a depender de um pastor da Guatemala, da comunidade católica e da organização pró-direitos humanos Licadho, assim como do dinheiro que sua família conseguiu enviar do Peru.

 

Felicia lembra que um dos momentos mais amargos ocorreu cerca de quatro meses após sua chegada a Phnom Penh, quando sua família foi enganada no Peru por várias pessoas que se apresentaram como membros de uma comissão do Parlamento peruano e se ofereceram para tramitar o retorno de Rodolfo e da mãe em troca de uma quantidade de dinheiro.

 

Apesar de levar uma vida simples, as poucas economias que a mulher levou consigo se esgotaram rapidamente após ter que pagar os honorários de advogados e quantias pedidas por intermediários que ofereceram sua suposta influência nos círculos judiciais cambojanos para evitar uma severa pena a Rodolfo.

 

De pouco serviram os três advogados contratados por Felicia, pois seu filho, preso junto com sua namorada tailandesa depois da captura de outro peruano chamado Feder Martel com 300 gramas de cocaína, foi condenado à máxima pena vigente no Camboja, país cuja legislação não contempla a pena de morte.

 

Os três anos que se seguiram à decisão judicial foram frustrantes para Felicia, que depositou sua esperança em um resultado propício da apelação, que os juízes suspenderam em seis ocasiões, algumas por falta de tradutor, outras devido à ausência do advogado, e inclusive por causa da negligência das autoridades que não levaram o acusado ao tribunal.

 

“Antes da apelação, Rodolfo me disse: ‘Mamãe, vá embora porque não vai mudar nada”, disse Felicia.

 

As visitas da mãe a seu filho se complicaram quando em 2009 foi transferido à prisão de Kampong Cham, perto da fronteira vietnamita e considerada a mais rigorosa do país pela organização Licadho.

 

Durante estes anos, Felicia se dedicou também a ajudar outros quatro réus peruanos que cumprem penas que vão de 5 a 20 anos de prisão por tráfico de drogas.

 

“Eu só espero que algum dia meu filho saia bem, e que não volte a se afastar do bom caminho”, disse a mulher ao deixar a prisão onde deu um último abraço em seu filho antes de retornar ao Peru.

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