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Mundo

Parlamento paquistanês condena EUA

Arquivo Geral

14/05/2011 9h42

Após ouvir as explicações do principal órgão de inteligência do país (ISI), o Parlamento do Paquistão condenou a operação das Forças Armadas americanas que mataram o terrorista Osama bin Laden num povoado a cerca de 100 quilômetros de Islamabad e planeja agora reconsiderar as relações diplomáticas com Washington.

A resolução foi adotada pelas duas câmaras do Legislativo paquistanês nesta madrugada, após uma sessão a portas fechadas que se prolongou pela noite, quando os parlamentares ouviram explicações do chefe do ISI, Ahmed Shuja Pasha, e da cúpula das Forças Armadas sobre o assassinato de Bin Laden.

No texto, o Parlamento pede ao Executivo, liderado pela legenda pró-ocidental Partido do Povo do Paquistão (PPP) da família Bhutto, que “revise” as relações diplomáticas com os EUA para “assegurar que os interesses de Islamabad sejam totalmente respeitados”.

O documento também solicita ao Executivo que nomeie uma comissão independente para investigar as responsabilidades e recomendar ações que evitem um fato similar.

Esta é a única referência próxima à autocrítica na resolução parlamentar, que condena a operação “unilateral” das Forças Armadas americanas, considerando-a uma “violação da soberania do Paquistão”.

O líder da rede terrorista Al Qaeda foi executado extrajudicialmente pelas forças especiais Seal, da Marinha dos Estados Unidos, em uma operação secreta contra o complexo residencial onde Bin Laden vivia, no povoado paquistanês de Abbottabad, a cerca de 100 quilômetros de Islamabad.

Seguindo algumas vozes do Exército paquistanês, os parlamentares lembraram os “imensos sacrifícios” que o país fez para combater o terrorismo, mas não fizeram nenhuma menção à presença do líder da Al Qaeda em seu território.

A resolução pede a suspensão imediata dos ataques de aviões não-tripulados (drones) dos EUA nas regiões tribais do Paquistão e propõe ao Governo que, caso eles não sejam interrompidos, considere tomar medidas mais drásticas, impedir o fornecimento de mantimentos às forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) mobilizadas no Afeganistão.

A pessoa encarregada de defender o Exército e o ISI no Parlamento foi Ahmed Shuja Pasha (chefe do ISI), acompanhado pelo chefe das Forças Armadas, general Ashfaq Pervez Kiyani.

Várias fontes coincidem que Pasha expressou ao Parlamento sua intenção de renunciar à chefia do ISI, mas o Governo do PPP, por enquanto, apoia em público o trabalho do serviço secreto e dos militares.

Em declarações à imprensa, a ministra de Informação, Firdous Ashiq Awan, revelou que Pasha, sobre quem há rumores de renúncia há dias, se mostrou disposto a aceitar as consequências caso tenha existido alguma falha “proposital” durante o incidente de Bin Laden, mas insistiu que a responsabilidade deve ser compartilhada.

Nenhum dos deputados contatados pela reportagem quis comentar os detalhes da sessão.

Tanto o ISI quanto as Forças Armadas enfrentam críticas por não terem percebido a violação do espaço aéreo paquistanês por parte dos helicópteros americanos e por não terem detectado a presença de Bin Laden em uma residência perto justo de uma academia militar.

O PPP mantém prudência com os militares, mas o principal partido da oposição, a Liga Muçulmana do Paquistão – Nawaz (PML-N), reivindicou uma investigação judicial independente do ocorrido, em vez de uma liderada pelos militares, como se prometeu.

“Só os Governos escolhidos (pelo povo) podem formular a política externa (do Paquistão)”, clamou neste sábado em entrevista coletiva o líder do PML-N, o ex-primeiro-ministro Nawaz Sharif, dando a entender que as Forças Armadas é que controlariam a diplomacia paquistanesa atualmente.

“As Forças Armadas não devem se envolver na política”, exortou Sharif, para quem o Parlamento deveria submeter a votação o orçamento atribuído ao Ministério da Defesa.

Com os militares no centro de todas as suspeitas, os partidos e a imprensa discutem desde o dia 2 sobre as implicações do incidente nas relações entre o poder civil e o militar, que protagonizou vários golpes de Estado desde a independência do Paquistão, em 1947.

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