Jornal de Brasília

Informação e Opinião

Mundo

Para rebater sanções, Belarus usa imigrantes como arma contra a União Europeia

O fluxo é ao menos 40 vezes o dos que entraram durante todo o ano passado. No último domingo, o tráfego bateu um recorde: 289 foram detidos

Bandeiras da União Europeia na sede da Comissão Europeia em Bruxelas, Bélgica.

Ana Estela de Sousa Pinto
FolhaPress

“Não vamos mais impedir nenhum imigrante de seguir seu caminho pela Belarus. Afinal, estão indo para uma Europa iluminada, calorosa e aconchegante”, prometeu no começo de julho o ditador da Belarus, Aleksandr Lukachenko. Dita em tom de ameaça, a declaração foi feita logo após uma rodada de sanções da União Europeia contra seu regime. Desde então, cerca de 4.000 estrangeiros entraram ilegalmente na União Europeia pela fronteira com a Lituânia.

O fluxo é ao menos 40 vezes o dos que entraram durante todo o ano passado. No último domingo, o tráfego bateu um recorde: 289 foram detidos em um único dia pelo patrulhamento. “Usar os migrantes como arma, empurrando as pessoas contra as fronteiras, é inaceitável”, reagiu o chefe das Relações Exteriores da União Europeia, Josep Borrell.

“É um ato severo de agressão arquitetado para provocar”, afirmou a comissária europeia responsável por imigração, Ilva Johansson, em visita à Lituânia nesta segunda (2).

Os órgãos centrais da União Europeia já começam a se preocupar com a possibilidade de a crise extrapolar o país báltico e voltar a abalar a política do bloco. Em reação diversa da que teve na crise de imigração de 2015, quando condenou membros como a Hungria por barrar a entrada de estrangeiros vindos da Sérvia, a Comissão aprovou o plano lituano de erguer uma cerca de quatro metros de altura nos 679 km de fronteira com a Belarus.

O governo lituano argumenta que não se trata de refugiados de guerra, como há seis anos, mas de imigrantes econômicos, e tenta conter a situação promovendo uma campanha de dissuasão. Em árabe, curdo e inglês, divulga a mensagem de que não permitirá a passagem por seu território em direção a outros países e alerta para o fato de que nenhum dos 132 pedidos de asilo feitos até agora foi atendido.

No mês passado, o Parlamento do país báltico endureceu ainda mais a política de asilo, impedindo que os requerentes deixem os campos de refugiados e permitindo a deportação se não houver uma resolução em até seis meses.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Mas a primeira-ministra, Ingrida Simonyte, não descarta pedir que outros membros da UE recebam os imigrantes se a situação sair de controle. “Conseguimos isso até agora, mas estamos no limite de nossas possibilidades”, afirmou o diretor do serviço de guarda de fronteiras, Rustamas Liubajevas, à rádio LRT.

Um dos sinais desse limite foi a rebelião no começo da semana em Rudninkai, um campo de treinamento militar convertido em acampamento de refugiados para os que entram pelo sul da Lituânia –dois terços deles, vindos do Iraque. O protesto começou por causa de barracas molhadas, e foi acirrado com queixas sobre as condições de vida. Vários tentaram fugir e foram contidos com canhões de água e gás lacrimogêneo por tropas lituanas.

Já difíceis, as condições serão piores no inverno (que vai de dezembro a março no hemisfério norte), o que preocupa o governo local. Um campo de refugiados com capacidade para 800 pessoas montado na semana passada já está lotado, e o ministro das Relações Exteriores da Lituânia, Gabrielius Landsbergis, diz temer até 10 mil recém-chegados antes de setembro.

Lukachenko nega participação no afluxo de estrangeiros e afirmou que não vai recebê-los de volta. “As pessoas estão fugindo para o Ocidente por causa da dor, miséria e guerra, e eles querem que nós os prendamos em ‘campos de filtragem’ aqui. Isso não vai acontecer.”

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Já para instituições europeias e governos vizinhos não faltam evidências da participação belarussa no esquema, entre elas imagens feitas por um drone, publicadas na internet pela Lituânia, que mostram pessoas saindo da Belarus e cruzando a fronteira sob escolta de um veículo idêntico ao usado pela guarda belarussa.

Os estrangeiros pagam de US$ 10 mil a US$ 15 mil (de R$ 53 mil a R$ 79 mil) para tentar entrar no bloco europeu, afirma a analista Joanna Hyndle-Hussein, especialista em países bálticos que relatou a crise de imigração para o Centro de Estudos Orientais, da Polônia.

Segundo ela, a ditadura facilita a emissão de vistos de turismo, muitas vezes sob o pretexto de oferecer vacinação contra a Covid-19. Na Belarus, agências de turismo se encarregam de fazer os grupos chegarem até a fronteira e a guarda facilita a passagem.

O número de voos semanais para Minsk da Iraqi Airways aumentou de 4 para 8, vindo agora não só de Bagdá mas também de Basra, Suleimânia e Erbil. De Istambul partem 24 voos semanais para a Belarus. Moradores de Minsk e de cidades no caminho entre a capital e a fronteira da Lituânia também disseram à Folha acreditar que há um esforço organizado para trazer estrangeiros ao país e levá-los ao país vizinho.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

“Nas últimas semanas é evidente uma frequência incomum de hóspedes do Oriente Médio”, afirma a economista Kristina (que pediu que seu sobrenome não fosse publicado, por razões de segurança), que costuma fazer reuniões de trabalho no hotel Planeta, na região central da capital.

Em Lida, cidade de 100 mil habitantes a 20 minutos da fronteira lituana, hotéis, motéis e acampamentos militares foram ocupados por imigrantes asiáticos e africanos, disse a funcionária pública aposentada Irina.  Cerca de 40% são pessoas que precisam de proteção especial e há 400 crianças entre os imigrantes que já entraram na Lituânia, de acordo com a Cruz Vermelha.

Joanna afirma que, por um lado, Lukachenko trata essas ações como retaliação ao apoio dado à oposição belarussa pela Lituânia: a principal líder oposicionista, Svetlana Tikhanovskaia, está exilada no país vizinho. “Por outro, está tentando persuadir a UE a dialogar com seu regime”, completa a analista.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Por enquanto, a resposta do bloco europeu foi oposta. A Frontex (agência europeia da guarda de fronteiras) enviou equipamentos e homens para patrulha e prometeu colocar 200 oficiais na Lituânia —até então, apenas a Grécia recebia esse tipo de ajuda.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

A UE também avalia ajudar a financiar a construção da cerca na fronteira, prometeu intensificar conversas diplomáticas com o governo iraquiano, para tentar reduzir o número de voos que vão a Minsk, e disse não descartar mais sanções.

Quatro rodadas de restrições já foram impostas pela União Europeia desde o ano passado, para pressionar Lukachenko a interromper a repressão dos que pedem sua renúncia e libertar centenas de presos políticos –a conta chegava a 605 nesta terça (3), segundo a organização de direitos humanos Viasna.

As sanções mais recentes foram divulgadas depois que a ditadura interceptou um voo comercial para prender um blogueiro crítico de seu regime, Roman Protassevich, no final de maio. Mas se a analista do centro polonês estiver correta, Lukachenko está tendo sucesso ao menos em um dos dois objetivos, o da vingança: a chegada dos imigrantes já provoca uma crise interna na Lituânia.

Políticos nacionalistas promovem uma campanha anti-imigração nas redes sociais e realizam protestos em frente ao Parlamento e a edifícios do governo do país. Há reação também nas cidades em que os estrangeiros estão sendo alojados.








Você pode gostar