O sistema financeiro global é o “calcanhar de Aquiles” do processo de recuperação econômica em andamento, afirmou hoje o Fundo Monetário Internacional (FMI), que ressaltou ainda que o risco nos mercados aumentou desde abril.
“Resta muito a ser feito para conseguir a estabilidade financeira”, disse hoje em entrevista coletiva o responsável pelo departamento de Assuntos Monetários e Mercados do Fundo Monetário Internacional (FMI), José Viñals.
Durante a apresentação do relatório sobre estabilidade financeira global, Viñals destacou que a piora desde a publicação do último relatório há seis meses deve-se, em grande medida, à crise de dívida soberana na Europa.
Além disso, afirmou que a situação melhorará de forma gradual, mas que a fraqueza nos balanços da dívida soberana supõe um “risco considerável”.
Segundo Viñals, o FMI parabenizou a ação dos legisladores nesse sentido, pois ajudou a estabilizar os mercados creditícios e a reduzir o risco, apesar de ainda existirem “incertezas significativas”.
O responsável por assuntos monetários e mercados afirmou que no atual contexto é imprescindível implementar reformas que assegurem a viabilidade do sistema financeiro.
Entre as medidas sugeridas está a recapitalização dos bancos e maiores avanços na reforma das regulações financeiras em linha com as melhoras propostas no marco de Basiléia III.
Em sua análise, o FMI destacou que a Europa se transformou no principal foco de instabilidade e que os riscos da dívida soberana continuam sendo “altos”.
De acordo com o organismo, isso se deve ao fato de os mercados continuarem preocupados com os elevados níveis de dívida pública, os riscos colocados pelos vencimentos da dívida e a estreita conexão entre a dívida pública e o setor bancário.
O FMI afirmou ainda que as necessidades de capital “aparentemente modestas” dos bancos americanos evidenciam o tamanho da intervenção governamental, sem a qual as contribuições de capital deveriam ter sido significativamente mais altas.
Essa situação, destacou o relatório do FMI, revela até que ponto o risco se transferiu dos balanços privados aos públicos.
Além disso, o organismo mencionou em seu relatório que as baixas contábeis nos balanços bancários entre 2007 e 2010 serão ligeiramente inferiores ao previsto em abril e chegarão a US$ 2,2 trilhões em vez dos US$ 2,3 trilhões previstos inicialmente.
O FMI avalia como positivo que mais de 75% dos bancos afetados já tenha realizado essas baixas e disse que fica pendente uma quantidade “residual” de US$ 550 bilhões.
No entanto, ainda conforme o organismo, o mais preocupante é que nos próximos 24 meses os bancos globais enfrentarão “iminentes pressões de financiamento”, já que precisarão refinanciar cerca de US$ 4 trilhões de dívida.
Desse total, cerca de 75% corresponde a bancos europeus.
O organismo advertiu que, dada a situação, os Governos devem planejar “cuidadosamente” a retirada de seus programas de apoio ao setor e aconselhou reestruturar o mais rápido possível as entidades mais débeis para que os mercados de financiamento voltem à normalidade.
O FMI comentou também a necessidade de se fortalecer os balanços de dívida soberana com medidas possíveis para que entrem em um caminho fiscal sustentável e encerrem o processo de reforma das regulações.
O relatório apontou que os mercados emergentes demonstraram uma forte capacidade de resistência diante dos problemas nos países desenvolvidos e a maioria continuou desfrutando do acesso aos mercados internacionais de capitais.
Para o FMI, o forte potencial de crescimento dos emergentes propiciou a entrada de fluxos de capital nesses países e, apesar de ter descartado uma bolha generalizada nos preços dos ativos, afirmou que poderia haver problemas como uma maior volatilidade.