O papa Leão XIV denunciou “um ciclo interminável de desestabilização e morte” durante uma visita a Bamenda, centro da violência na região anglófona de Camarões que já deixou milhares de mortos em quase uma década, a etapa mais simbólica de sua viagem ao país.
Após dois dias na Argélia, em uma visita marcada por dois atentados suicidas e uma disputa com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o pontífice viajou para a zona de conflito na qual separatistas anglófonos enfrentam o exército de Camarões desde 2016.
“Aqueles que roubam os recursos de sua terra geralmente investem grande parte do lucro em armas, perpetuando assim um ciclo interminável de desestabilização e morte”, declarou Leão XIV durante um discurso na catedral de Bamenda.
A viagem, a quarta de um papa a Camarões, ocorre seis meses após as autoridades terem reprimido com violência os protestos contra a reeleição do presidente Paul Biya, de 93 anos, que dirige o país com mão de ferro desde 1982.
Na quarta-feira, o pontífice fez um apelo para que se “quebrem as correntes da corrupção”, para o respeito dos direitos humanos e do Estado de direito, e também pediu o fim do conflito separatista.
Em Bamenda, muitos aguardavam com ansiedade a missa do papa diante de 20.000 fiéis, na esperança de que ofereça uma saída à violência nesta região.
“Levamos em nossos corações a paz para este país que sofre e queremos ser uma presença de oração. Como ele mesmo disse, é a oração que pode mudar o mundo”, declarou a irmã Maria Imaculada, de 46 anos, no aeroporto de Bamenda, na manhã desta quinta-feira.
“Bom começo”
A segurança foi reforçada nas grandes avenidas da cidade, muitas das quais foram tomadas por habitantes concentrados na estrada que leva ao aeroporto para receber o sumo pontífice, com bandeiras do Vaticano e faixas com mensagens de boas-vindas e a favor da paz.
O conflito anglófono estourou em 2016, depois que protestos contra a maioria francófona foram reprimidos pelas autoridades.
A repressão provocou um confronto entre o exército e os insurgentes anglófonos que, segundo grupos de direitos humanos, deixou mais de 6.000 mortos até 2024.
Os separatistas declararam a República de Ambazônia nas duas regiões anglófonas, onde vive 20% da população camaronesa.
Na segunda-feira, grupos separatistas anunciaram uma trégua de três dias nas duas regiões por ocasião da visita do pontífice.
O grupo separatista Unity Warriors of Ambazonia disse à AFP que esperava que o papa pressionasse o governo a retomar as negociações e que “se pudesse discutir sobre as raízes do conflito”.
“É um bom começo que as armas sejam depostas para que não sejam novamente empunhadas”, considerou, por sua vez, o bispo de Ebolowa e vice-presidente da Conferência Episcopal de Camarões, Alain Alain Philippe Mbarga, nesta quinta-feira.
Diálogo
“É a primeira vez desde o início do conflito que todos falam o mesmo idioma: todos desejam as boas-vindas ao Santo Padre”, declarou Andrew Fuanya Nkea, arcebispo de Bamenda e presidente da Conferência Episcopal de Camarões.
No país, a Igreja desempenha um papel de mediação e gere uma extensa rede de hospitais, escolas e obras de caridade; meios de influência que a Santa Sé pretende consolidar.
“Falamos com as duas partes e achamos que é o momento de agirem e de ter esse diálogo”, declarou o arcebispo, próximo de Leão XIV.
Mas antes de abordar a paz ou a reconciliação, “é preciso resolver as causas do conflito: a descolonização inacabada de Camarões Ocidental, a marginalização, a erradicação identitária e as tentativas de assimilação”, sustentou Joseph Awah Fru, advogado de dez líderes separatistas detidos em Iaundé desde 2019.
Depois de sua viagem a Bamenda, Leão XIV celebrará na sexta-feira uma missa para centenas de milhares de pessoas em um estádio na capital econômica, Duala.
O pontífice continuará sua viagem pelo continente africano em Angola e na Guiné Equatorial até 23 de abril.