O papa Bento XVI fez neste sábado um chamado para que o povo cigano “nunca mais” seja alvo de “humilhações, de rejeição ou de desprezo”, ao receber em audiência cerca de 2 mil pessoas do povo nômade pela primeira vez no Vaticano.
No encontro, organizado por causa dos 150º anos do nascimento do beato espanhol Ceferino Giménez Malla, conhecido como “El Pelé”, o primeiro cigano elevado à glória dos altares, o Pontífice lembrou como ao longo da história os ciganos conheceram “o sabor amargo da falta de acolhimento” e da “perseguição”.
“A consciência europeia não pode esquecer tanta dor”, assinalou Bento XVI, quem pediu aos representantes do povo romani presentes no Vaticano que “busquem sempre a justiça, a legalidade e a reconciliação” e que se esforcem para não serem “nunca a causa de sofrimento de outros”.
O papa ressaltou que a história do povo cigano “é complexa e, em alguns períodos, dolorosa”, com episódios incluindo perseguições, como as sofridas durante a Segunda Guerra Mundial.
Reconheceu que ainda persistem “problemas graves e preocupantes” como “as relações difíceis” com as sociedades nas quais residem.
No entanto, o Pontífice lançou uma mensagem de esperança ao afirmar que na atualidade estão sendo abertas novas oportunidades e convidou a escrever de forma conjunta “uma nova página dessa história” do povo cigano na Europa.
Durante a audiência, organizada pelo Conselho Pontifício para os Migrantes, a Conferência Episcopal Italiana (CEI) e a Comunidade de São Egídio, Joseph Ratzinger lembrou “El Pelé”, beatificado pelo papa João Paulo II em 4 de maio de 1997 na praça de São Pedro do Vaticano.
“El Pelé”, primeiro cigano mártir da história, nascido em 1861 em Benavent de Segrià (Lleida, norte da Espanha), foi detido em 19 de julho de 1936 por anarquistas quando tentava defender um sacerdote e dias depois, em 2 de agosto, foi fuzilado nas imediações do cemitério de Barbastro junto de três missionários franciscanos.
Entre os testemunhos escutados pelo papa na audiência na Sala Paulo XVI do Vaticano esteve o de Ceija Stojka, uma cigana austríaca que durante a Segunda Guerra Mundial foi deportada junto de sua família primeiro para Auschwitz e depois para Ravensbruck e Bergen Belsen, quando tinha apenas nove anos.
“Hoje Auschwitz e os campos de concentração estão adormecidos e nunca mais deverão despertar-se. No entanto tenho medo que Auschwitz esteja só dormindo”, confessou Stojka, que viveu o extermínio da maior parte de sua família.