JOSÉ HENRIQUE MARIANTE
BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS)
Exceder o 1,5°C de aquecimento global “é iminente e inevitável”. Trazer os termômetros de volta ao limite de um planeta viável ainda é possível se as emissões de gases do efeito estufa caírem 6% ao ano, até 2035, mas não só isso. “O mundo está ficando sem tempo e sem desculpas” para não encarar o problema, afirma António Guterres.
A frase do secretário-geral da ONU, que se despede do cargo no fim deste ano, sintetiza o tom do relatório anual do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), publicado nesta quarta-feira (21). Um apelo ao exercício do possível diante do fato de que o 1,5°C, o limiar determinado pelo Acordo de Paris, vai ser superado antes de 2030.
“Porque não podemos desistir”, diz Inger Andersen, diretora do programa. “Cada fração adicional de grau Celsius faz diferença, e cada ano acima de 1,5 °C aumentará os impactos climáticos, como as inundações mortais, as ondas de calor e os incêndios florestais que têm assolado diversos países neste ano”, resume a ambientalista dinamarquesa.
Parece motivo suficiente, mas a contabilidade climática mostra uma realidade menos atenta aos eventos extremos. Na rota atual de emissões, o planeta chegará a 2100 com 2,8°C de aquecimento. Se as metas climáticas anunciadas pelos países signatários do acordo forem cumpridas, 2,6°C; no cenário mais otimista, 2,1°C.
É muito. O planeta precisa chegar a 2050 com um aquecimento na casa de 1,7°C, 1,8°C. Não passando desse patamar, seria possível voltar ao 1,5°C no fim do século se no meio do caminho houver um esforço hercúleo para remover 320 gigatoneladas de CO² equivalente da atmosfera.
Seja por meios naturais, como aflorestamento, seja por novas tecnologias. Algo como oito anos de emissões globais.
De acordo com o Pnuma, só em 2025 foram 58,4 gigatoneladas de CO² equivalente, ligeiramente acima do previsto no ano passado, ligeiramente abaixo do verificado em 2024. “Uma bem-vinda divergência em relação à tendência de crescimento das últimas décadas. No entanto, ainda é cedo para tirar conclusões sobre estabilização ou pico”, pondera Anne Olhoff, editora científica do relatório.
De novo, é muito. Para segurar o aquecimento em 1,7°C, 1,8°C em 2050, é preciso derrubar as emissões em 18% já em 2030 em relação aos níveis verificados em 2025; 45% em 2035; 69% em 2040. Lembrando que a remoção de carbono, natural ou fabricada, também tem que estar em curso.
Se a régua forem as atuais NDCs (contribuições nacionalmente determinadas, na sigla em inglês), as metas que os países se impõem, a queda estimada para 2030 gira em torno de 5% a 8%; ou de 11% a 15% em 2035.
A comparação dos dois últimos parágrafos não anima e elementos factuais que não estão no estudo, menos ainda. França e Alemanha, por exemplo, advogam a sobrevida dos motores de combustão interna para além de 2035 na Europa neste momento.
Medida protecionista, em torno de uma tecnologia decadente, que se soma a outras muitas, como iniciar a exploração de poços de petróleo com previsão de produção para daqui a duas décadas caso do Brasil e de outros países produtores ou em vias de se tornar um.
No ritmo atual, cinco anos de emissões de CO² acrescem 0,1°C na média de temperatura global. E por isso o relatório observa que, “sem ação urgente”, o pico de um “overshoot” administrável, o 1,7°C, 1,8°C de aquecimento em 2050, se tornará impossível.
“A lacuna nas emissões é agora uma lacuna de liderança”, diz Guterres, usando o título do relatório para cutucar os países do G20, responsáveis por 76% das emissões mundiais. Lacuna, no caso, é a diferença entre que os governos propõem em termos de emissões e o que o deveria estar sendo feito segundo as diretrizes do Acordo de Paris.
“O relatório mostra que as políticas climáticas podem reduzir as emissões”, afirma Olhoff.
O Pnuma se debruçou sobre 220 estudos que atestam a efetividade de práticas em diversos países. “A expansão da eletricidade renovável já é três vezes maior do que a prevista à época da adoção do Acordo de Paris. Vemos também que o aumento da capacidade de energia solar fotovoltaica já é sete vezes maior do que o previsto.”
Em médias, as políticas avaliadas no setor elétrico reduziram as emissões em 9%, enquanto instrumentos econômicos, como “cap-and-trade” e impostos sobre carbono, alcançaram reduções de 5% a 13%. “Precisamos expandir isso”, diz Olhoff, sublinhando que esses sucessos estão concentrados em setores, países e períodos específicos.
O relatório também analisa as metas do primeiro GST (Balanço Global, na sigla em inglês) e já abre o caminho para o segundo, que será discutido na COP31 em Antália, em novembro. O documento, que virou uma novela na COP28 em Dubai, em 2023, com o à época quase eufemismo sobre uma “transição para longe dos combustíveis fósseis” de “forma justa e ordenada”, é tratado pelo Pnuma como “insuficiente”.
À luz da necessidade de superar o “overshoot”, a ONU diz que, em 2030, é preciso cortar as emissões de carvão em 55%, as de petróleo, em 15%, e as de gás, em 5%. Em 2040, as respectivas reduções deveriam chegar a 75%, 30% e 35%. Em suma, acabar com a produção de energia a carvão em 15 anos.
“Temos cerca de 5.000 gigawatts de energia renovável instalada. Precisamos de mais 5.000. E isso tem que ser feito com rapidez, liderança política e coragem. É possível”, diz Andersen.
Segundo Roberto Kishinami, especialista sênior do Instituto Clima e Sociedade, o Brasil deveria ter ambição parecida. “O país pode ir além do zero líquido de emissões, exportando soluções que ajudam outras regiões do mundo nessa empreitada. Temos disponibilidade de energia renovável, recursos naturais necessários à transição climática e políticas públicas que incentivam atividades verdes com criação de empregos e renda”, afirma.
“Todos os governos têm um papel a desempenhar, mas, em particular, é hora de os principais produtores de combustíveis fósseis, como os EUA e a Arábia Saudita (que produzem de 20% a 25% dos combustíveis fósseis em todo o mundo), deixarem de fazer jogadas políticas e encararem a realidade científica”, declara Bill Hare, da Climate Analytics.
Retirados do Acordo de Paris por Donald Trump, os EUA foram abolidos do estudo. Sem as metas climáticas do país, a estimativa é que a temperatura global suba 0,1°C neste século. “Pesquisas recentes mostram que, a cada aumento de 0,1°C na temperatura, mais 140 milhões de pessoas ficam expostas a calor extremo”, lembra o ambientalista.