Após dois meses de intenso trabalho diplomático, o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, conseguiu hoje convencer Israel a aceitar uma investigação independente do ataque do Exército israelense à frota de barcos que levaria ajuda humanitária à faixa de Gaza, no dia 31 de maio.
O incidente será investigado por um comitê liderado pelo ex-primeiro-ministro da Nova Zelândia Geoffrey Palmer e pelo presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, em fim de mandato, que ocuparão o cargo de presidente e vice, respectivamente, segundo a ONU.
“Este é um fato sem precedentes”, assegurou Ban, que expressou seu desejo de que a investigação ajude a diminuir as tensões na região.
“A criação do comitê terá um efeito positivo na melhora das relações entre Israel e Turquia e também terá um impacto positivo no processo de paz no Oriente Médio”, afirmou.
Fontes diplomáticas disseram que o Governo israelense já tinha dado seu sinal verde na sexta-feira, na reunião entre o ministro da Defesa Ehud Barak e Ban, na sede da ONU.
Posteriormente, o secretário-geral conversou no fim de semana pelo telefone com o ministro de Assuntos Exteriores turco, Ahmet Davutoglu, e hoje fez o mesmo com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, segundo o porta-voz da ONU Martin Nesirky.
A decisão do Governo israelense representa um giro de 180 graus em comparação com a posição assumida por Netanyahu nos dias posteriores ao ataque à frota humanitária e à rejeição internacional à morte de nove cidadãos turcos que faziam parte dela.
O líder israelense se negou então a participar da criação do comitê proposto pela ONU e, em seu lugar, estabeleceu uma comissão de investigação interna.
Agora, quase dois meses depois, o primeiro-ministro israelense aceitou a iniciativa da organização, que responde à investigação “crível” solicitada pelo Conselho de Segurança após o incidente.
Esta virada das autoridades israelense se soma à decisão tomada em junho de aliviar o bloqueio à Faixa de Gaza após o aumento da pressão internacional.
A embaixadora dos EUA na ONU, Susan Rice, elogiou “a determinação e a liderança” mostradas por Ban, que insistiu em sua proposta apesar da falta de acordo inicial entre turcos e israelenses.
Além disso, ressaltou que o comitê da ONU “complementará” as investigações internas do ataque iniciadas por autoridades dos dois países.
“O enfoque do grupo está centrado de maneira apropriada no futuro e em como evitar que este tipo de incidente volte a ocorrer”, acrescentou.
Após o anúncio de hoje, o próximo passo é a nomeação por parte da Turquia e de Israel de seus respectivos representantes no comitê de quatro membros, que terá sede oficial em Nova York.
O porta-voz da ONU disse que o mandato do grupo é revisar o resultado das investigações internas de turcos e israelenses, com a possibilidade de pedir a eles “esclarecimentos e informações adicionais”.
Diante das suspeitas de que a autoridade do comitê seja limitada, Nesirky afirmou que seus membros são os que deverão decidir se precisarão chamar testemunhas ou viajar à região para cumprir com sua incumbência.
“O secretário-geral deixou claro que será uma investigação imparcial e crível, que se ajuste aos padrões internacionais”, reiterou.
Além disso, Nesirky negou que o atual conflito entre Uribe e o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, pela suposta presença de guerrilheiros em solo venezuelano, possa afetar a credibilidade do comitê.
“O secretário-geral tem confiança em Geoffrey Palmer e no presidente da Colômbia, para que realizem esta tarefa de maneira imparcial. Não tem a ver com nada mais”, afirmou.
Uribe, que no dia 7 de agosto passará o poder para seu sucessor, Juan Manuel Santos, deverá viajar três dias depois a Nova York, para participar da primeira reunião do comitê.
“Sabemos que têm um prazo muito curto de tempo, por isso deverão colocá-lo em andamento muito rápido”, reconheceu Nesirky, que lembrou que o comitê deverá submeter ao Conselho de Segurança e ao secretário-geral os resultados de seus primeiros questionamentos em meados de setembro.