O Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU conseguiu nesta quarta-feira (27) abrir uma ponte aérea urgente para mandar alimentos de Nairóbi a Mogadíscio, uma semana após a declaração do estado de crise de fome em duas regiões do sul da Somália.
“O avião que saiu hoje (quarta-feira) leva ao menos 10 toneladas de comida nutricional especialmente preparada para combater a desnutrição infantil”, declarou à Agência Efe Challiss McDonough, porta-voz do PMA na capital queniana. Estes voos se repetirão nas próximas semanas, “se não diariamente”, ao menos com certa regularidade. “Vamos fazer uma série de voos – ressaltou a porta-voz – para fazer chegar comida suficiente para atender as cerca de 30 mil crianças em Mogadíscio”.
A aeronave, um Boeing 737 de carga procedente da França, decolou nesta quarta-feira após superar os impedimentos burocráticos que na terça-feira impediram a saída do Aeroporto Internacional Jomo Kenyatta de Nairóbi.
Anteriormente, outro porta-voz do PMA, David Orr, que viajou a bordo do avião, disse à agência Efe antes de partir que, “nos 10 dias seguintes, a expectativa é levar a Mogadíscio por via aérea 80 toneladas” desse tipo de alimentos para crianças desnutridas.
Já no aeroporto da capital somali, Orr afirmou aos jornalistas que “haverá mais voos como este”.
“Traremos comida, tendas e outros utensílios básicos”, ressaltou o porta-voz do PMA.
A carga foi transportada em comboio até os armazéns da agência da ONU em Mogadíscio, onde será guardada até a distribuição, tão em breve for possível, entre as crianças desnutridas dos acampamentos da cidade, indicou Orr.
Milhares de pessoas afetadas pela crise de fome seguem chegando diariamente à capital, como, Dahir Diriye Osman, de 43 anos, pai de oito crianças, que perdeu a mulher e três filhos na viagem em direção a Mogadíscio.
“Nós estamos morrendo. Alguns morrem no caminho e outros estão frágeis. Por isso, a comida deveria ser fornecida diretamente a nós, porque não podemos esperar”, comentou a Efe Osman.
A falta de comida em Mogadíscio, que nos últimos dois meses recebeu 100 mil deslocados que buscam na capital somali refúgio da guerra e da seca, desembocou em saques e enfrentamentos entre a população afetada, denunciou na terça-feira, o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (Acnur).
Há uma semana, a ONU declarou oficialmente estado de crise de fome em duas regiões do sul da Somália, Bakool e Lower Shabelle, algo inédito no país durante as últimas duas décadas.
Quase a metade da população somali, 3,7 milhões de pessoas, vive em meio a uma crise humanitária, dos quais 2,8 milhões residem no sul, indicam os dados das Nações Unidas.
O drama da Somália insere-se no contexto mais amplo do Chifre da África, onde 11 milhões de pessoas estão em situação crítica pela seca e a fome, segundo a ONU.
A esse respeito, o ministro da Agricultura francês, Bruno Le Maire, anunciou na segunda-feira em Roma, em reunião urgente na sede da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) que abordou a crise na região, a realização de uma conferência de doadores nesta quarta-feira em Nairóbi, com o objetivo de analisar as ajudas para o Chifre da África.
No entanto, a porta-voz na capital queniana do Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) Rita Maingi declarou nesta quarta-feira à Efe que não se trata de uma conferência, mas de “uma reunião de doadores regular realizada mensalmente, que não é pública” e da qual, em princípio, não sairá nenhum anúncio.