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O perfume da múmia: pesquisa revela que restos mortais do antigo Egito cheiram bem

“Nos filmes e livros, coisas terríveis acontecem com as pessoas que cheiram corpos mumificados”, diz Cecilia Bembibre

Redação Jornal de Brasília

07/03/2025 21h58

perfume egito mumia

Crédito: nastya_ph – Shutterstock / Christian Tepper

LONDRES, Reino Unido – À primeira vista, parece repulsivo: sentir o cheiro da essência de um cadáver antigo.

Mas pesquisadores que cederam à curiosidade em nome da ciência descobriram que múmias egípcias em bom estado de conservação, na verdade, cheiram bem.

“Nos filmes e livros, coisas terríveis acontecem com as pessoas que cheiram corpos mumificados”, diz Cecilia Bembibre, diretora de pesquisa do Instituto de Patrimônio Sustentável da University College em Londres. “Ficamos surpresos em perceber que eram agradáveis.”

“Amadeirado”, “picante” e “doce” foram as principais descrições do que mais parecia uma degustação de vinho, e não um exercício de cheirar múmias. Também foram percebidas notas florais, que podem ser provenientes das resinas de pinho e zimbro usadas no embalsamento.

O estudo publicado na revista Journal of the American Chemical Society usou análises químicas e um painel de farejadores humanos para avaliar os odores de nove múmias que datam de até 5 mil anos, e estavam armazenadas ou expostas no Museu Egípcio do Cairo.

Os pesquisadores queriam estudar de forma sistemática o cheiro das múmias, porque há muito tempo esse é um assunto que fascina o público e os pesquisadores, diz Bembibre, uma das autoras do relatório. Arqueólogos, historiadores, conservadores e até escritores de ficção já dedicaram páginas de seu trabalho ao assunto – e por bons motivos.

O cheiro era um critério importante no processo de mumificação, que usava óleos, ceras e bálsamos para preservar o corpo e seu espírito para a vida após a morte. A prática era reservada essencialmente para faraós e nobres, e os aromas agradáveis estavam associados à pureza e às divindades, enquanto os odores ruins eram sinais de corrupção e decadência.

Sem coletar amostras das múmias, o que seria invasivo, os pesquisadores da UCL e da Universidade de Ljubljana, na Eslovênia, conseguiram mensurar se a origem dos aromas era o item arqueológico, os pesticidas e outros produtos usados para preservar os restos mortais, ou a deterioração causada por mofo, bactérias ou microorganismos.

“Estávamos bastante preocupados com a possibilidade de encontrar notas ou indícios de corpos em decomposição, mas não foi o caso”, diz Matija Strlic, professora de química da Universidade de Ljubljana. “Estávamos especificamente preocupados com a possibilidade de haver indícios de degradação microbiana, mas não era o caso, o que significa que o ambiente neste museu é, na verdade, muito bom em termos de preservação.”

Usar instrumentos técnicos para medir e quantificar as moléculas de ar emitidas pelos sarcófagos e determinar o estado de preservação sem tocar nas múmias foi como o Santo Graal, conta Strlic.

“Isso potencialmente nos diz a que classe social uma múmia pertencia, e com isso revela-se muita informação sobre o corpo mumificado, que é relevante não apenas para os conservadores, mas também para curadores e arqueólogos”, diz. “Acreditamos que essa abordagem pode ser de grande interesse para outros tipos de coleções em museus.”

Barbara Huber, pesquisadora de pós-doutorado no Instituto Max Planck de Geoantropologia, na Alemanha, que não esteve envolvida no estudo, diz que os resultados oferecem dados cruciais sobre compostos que poderiam preservar ou degradar restos mumificados. As informações poderiam ser usadas para proteger melhor os corpos antigos para as gerações futuras.

“A pesquisa, no entanto, também ressalta um desafio fundamental: os cheiros detectados hoje não são necessariamente os mesmos do momento da mumificação”, diz Huber. “Ao longo de milhares de anos, evaporação, oxidação, e até condições de armazenamento alteraram significativamente o perfil original do aroma.”

Huber foi autora de um estudo, dois anos atrás, que analisou resíduos de um jarro que continha órgãos mumificados de uma mulher nobre para identificar os ingredientes de embalsamamento, suas origens, e o que revelavam sobre as rotas de comércio. Ela então trabalhou com um perfumista para criar uma interpretação do aroma de embalsamamento, que foi chamada de “Aroma da Eternidade”, para uma exposição no Museu Moesgaard, na Dinamarca

Os pesquisadores do estudo atual esperam fazer algo semelhante, e usar seus resultados para desenvolver “paisagens olfativas”, recriar artificialmente os aromas que detectaram e aprimorar a experiência para futuros visitantes do museu.

“Os museus já foram chamados de cubos brancos, onde você é conduzido a ler, ver, e apreciar tudo à distância, com os olhos”, diz Bembibre. “Observar os corpos mumificados através de uma vitrine reduz a experiência, porque não podemos cheirá-los. Não temos a oportunidade de conhecer o processo de mumificação de forma sensorial, que é uma das maneiras pelas quais compreendemos o mundo e interagimos com ele.”

Estadão Conteúdo

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