O novo Governo de união nacional do Líbano, page formado hoje após um mês e meio de disputas entre maioria e oposição, terá como principais desafios recuperar a confiança dos libaneses em suas instituições e reformar a lei eleitoral
O secretário-geral do Conselho de Ministros do Líbano, Suheil Buyi, anunciou a formação do Governo, que é integrado por 16 membros da maioria anti-síria, 11 da oposição liderada pelo grupo xiita Hisbolá, e três nomeados pelo presidente do Líbano, Michel Suleiman.
Esta repartição está estipulada no acordo de Doha, alcançado no dia 21 de maio pelos líderes libaneses para colocar fim a uma crise que tinha culminado nos combates entre a maioria e a oposição, que tiraram 65 vidas.
Nesse pacto, o Hisbolá obteve uma importante vitória, plasmada na composição deste gabinete: a oposição tem direito de veto ao contar com mais de um terço dos ministros (11 de 30).
O novo Executivo, reflexo do complexo mapa político e social do Líbano, deverá fazer frente a suas próprias contradições e ao mesmo tempo terá a missão de tirar o país da beira do precipício.
“O Governo de união nacional é o Governo de todos os libaneses”, declarou Siniora em entrevista coletiva momentos depois da formação de seu Governo, que veio precedido de dolorosas concessões.
Apesar de tantos problemas, o Executivo tem uma data de caducidade realmente próxima, já que as próximas eleições gerais deveriam ser celebradas no ano que vem.
Por isso, uma das prioridades será modificar a lei eleitoral para adequá-la ao pactuado em Doha.
Nesse sentido, Siniora disse que seu Governo enfrenta dois desafios principais: readquirir o crédito dos cidadãos e reformar a lei eleitoral.
Em primeiro lugar, segundo Siniora, o Executivo deverá “recuperar a confiança (dos libaneses) no sistema político e nas instituições que se baseiam no equilíbrio e na liberdade”.
“A segunda responsabilidade do Governo atual é garantir a realização das próximas eleições legislativas com transparência através de uma lei que assegure a justiça e a concorrência pacífica”, acrescentou Siniora.
Insistiu, além disso, que é importante que se mantenha qualquer diálogo no seio do Governo e longe da rua para evitar incidentes violentos, como os que aconteceram antes do acordo de Doha.
“As divergências não podem ser eliminadas de um dia para outro, mas o importante é tramitá-las”, acrescentou.
Estas disputas não só tinham adiado a criação do Governo após o acordo de Doha, mas se traduziram em mais choques armados em diferentes regiões libanesas, como na cidade de Trípoli, onde esta semana morreram cinco pessoas.
A formação do Executivo tropeçava na divisão das pastas e também em alguns nomes que tentaram ser vetados a todo custo por serem considerados como um desafio.
No final, de qualquer forma, parece ter prevalecido o interesse por levar adiante o Governo e as duas partes fizeram algumas concessões inesperadas.
O ex-secretário-geral do Partido Sírio Nacional Social, Ali Qanso – próximo ao Hisbolá -, era rejeitado pela maioria, atribuindo a ele grande responsabilidade nos combates de maio e acusando-o de ter ameaçado de morte alguns de seus membros.
Finalmente, Qanso estará no Executivo como ministro de Estado sem pasta.
Mas também a oposição teve que fazer amargas concessões.
Assim, por exemplo, apesar de o Hisbolá ter rejeitado o nome do representante das Forças Libanesas, o ex-miliciano Samir Geagea, para a pasta de Justiça, acabará sendo um membro deste partido, Ibrahim Najjar, que vai ficar com a vaga.
O mosaico governamental demonstra a sociedade atomizada que compõe este pequeno país.
No Executivo estão representados maronitas (católicos do Oriente), grego-ortodoxos, católicos, armênios, drusos, sunitas e xiitas.
Agora, os 30 membros do gabinete enfrentam um período decisivo no qual os libaneses pedem estabilidade para poder ressurgir e recuperar parte do tempo perdido.