Os dois maiores partidos norte-americanos estão em uma encruzilhada. Após uma década remodelando o Partido Republicano à sua própria imagem, Donald Trump enfrenta na terça-feira, 3, a possibilidade de uma rebelião de eleitores, o que pode forçar os conservadores a repensar sua lealdade incondicional ao presidente de 80 anos, na reta final do mandato.
Já os democratas, que continuam impopulares, apesar do impulso das eleições, caminham para um embate interno entre líderes tradicionais e uma ala progressista mais ousada, que exige mudanças transformadoras.
Independentemente de vitória ou derrota, as eleições marcam o início de uma disputa pelo futuro político dos EUA, no crepúsculo da era Trump. Essa guerra ganhará rapidamente o centro da política americana, à medida que novos membros do Congresso se acomodem em Washington e a corrida presidencial de 2028 ganhe fôlego.
“Quando Trump deixar o cargo, criará um vácuo imenso. E a pergunta que fica é: para onde o país vai?”, questionou o ex-senador republicano John Sununu, que concorre a uma vaga no Senado por New Hampshire.
Mais do que qualquer política ou princípio, a força unificadora mais poderosa no Partido Republicano atual é Trump. Assim, à medida que o partido vislumbra o fim de uma era, surgem grandes incertezas sobre quem o guiará daqui para frente.
Há muito tempo, Trump desmantelou o tripé de Ronald Reagan, que definiu o Partido Republicano por gerações: conservadorismo fiscal (defesa de um Estado menor e do livre-comércio), valores sociais conservadores e uma política externa assertiva. O que resta hoje é um populismo fluido, que se molda conforme os caprichos do presidente.
Empresário audacioso, Trump afastou o Partido Republicano de uma base elitista, voltando-o para uma coalizão muito mais ampla de eleitores da classe trabalhadora, incluindo uma parcela da base tradicional democrata, como hispânicos, negros e jovens.
O estrategista David Urban afirmou que está acompanhando atentamente se a coalizão de Trump se manterá firme a partir de terça-feira. “Quando virmos o resultado, isso nos dirá muito sobre o futuro”, disse. “Se todo esse eleitorado ficar em casa – seja por descontentamento com a economia, com a guerra ou qualquer outro motivo -, surgirão muitas dúvidas sobre quem será o próximo grande nome a representar o partido.”
Herdeiros
Grande parte das especulações dentro do Partido Republicano para 2028 giram em torno do vice-presidente J.D. Vance, de 42 anos, que passou de crítico a seguidor fiel de Trump. Ele poderá enfrentar o desafio, comum a quem ocupa o segundo cargo mais importante do país, de construir uma identidade política própria e independente.
Caso os republicanos tenham um desempenho ruim, as chances de Vance como candidato presidencial podem ser prejudicadas. Outro nome especulado para 2028, o secretário de Estado Marco Rubio, também pode enfrentar um desafio semelhante.
Por outro lado, a indecisão poderia abrir caminho para o senador pelo Texas Ted Cruz, para o governador da Flórida, Ron DeSantis, ou talvez até para um crítico declarado de Trump, como o ex-governador de New Jersey Chris Christie – que, aos 64 anos, avalia um possível retorno à política.
Com poucas exceções, os líderes democratas esperam um bom resultado na terça-feira, mesmo que não conquistem a maioria em ambas as Casas do Congresso. No entanto, não há consenso sobre o que virá a seguir.
A cúpula do partido celebra a ascensão do deputado Hakeem Jeffries, que, caso os democratas conquistem a maioria, poderá se tornar o primeiro presidente da Câmara dos Deputados negro na história dos EUA.
Por outro lado, a ala progressista frustrada considera que Jeffries e o líder dos democratas no Senado, Chuck Schumer, fazem parte do problema. Eles exigem mudanças profundas tanto nas lideranças quanto nas diretrizes políticas que orientam o partido.
Essas exigências são particularmente intensas entre os democratas alinhados à organização batizada de Socialistas Democratas da América (DSA). Atualmente, apenas dois membros apoiados por esse grupo integram a Câmara. Espera-se que o número aumente para pelo menos sete no novo Congresso, graças ao sucesso, nas primárias, da chapa de candidatos apoiada pelo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani.
O candidato ao Senado por Michigan, Abdul El-Sayed, seria mais um defensor declarado da extrema esquerda, embora ele não conte com o apoio da DSA nem se identifique como um socialista.
O governador de Maryland, Wes Moore, um democrata cotado para a presidência que disputa a reeleição na terça-feira, evitou dizer se via com bons olhos a presença da DSA em seu partido. Em vez disso, afirmou que deseja “líderes sensatos, preparados para romper com o status quo e saibam agir com rapidez para fazer as coisas acontecerem”.
Ele reiterou que as lideranças democratas precisam agir com senso de urgência. “Não podemos ser um partido do ‘não’ e da lentidão. Quero ser de um partido do ‘sim’ e do ‘agora'”, disse Moore. “Quero ser de um partido profundamente impaciente para conseguir entregar o tipo de resultados que esperamos, bem como as coisas que desejamos ver para nossas famílias.”
A retórica de Moore coincide com a da ala ativista e engajada do Partido Democrata. No entanto, é quase certo que eles discordem quanto às táticas necessárias para combater Trump e seus aliados no Congresso. Além disso, a ala mais à esquerda da legenda pode ganhar ainda mais voz após as eleições.
Corbin Trent, ex-assessor da deputada Alexandria Ocasio-Cortez, afirmou que a terça-feira marca um novo começo, oferecendo aos democratas uma oportunidade imensa de promover mudanças transformadoras em áreas como saúde, habitação e infraestrutura, entre outras questões fundamentais. Contudo, ele não está otimista e acha que os caciques do partido não estão à altura do desafio.
Enquanto isso, Trump permanecerá no cargo por mais dois anos, independentemente de seu partido sofrer ou não grandes derrotas. E, mesmo politicamente fragilizado, continuará uma força dominante na política republicana e na disputa pela próxima indicação presidencial.
Estadão Conteúdo