São Paulo, 06 – Apesar do clima de trauma e desconfiança dentro da sociedade israelense depois dos ataques terroristas do Hamas e a consequente guerra na Faixa de Gaza, ainda existem movimentos em Israel que lutam pela paz e pela convivência com os palestinos.
O Standing Together tenta criar pontes entre judeus e árabes em Israel e tem sido um dos movimentos mais vocais nos protestos pela volta dos 50 reféns israelenses na Faixa de Gaza e o fim do conflito que já deixou mais de 60 mil mortos, segundo o ministério da Saúde de Gaza, que é controlado pelo Hamas.
Em entrevista ao Estadão, a ativista Ella Lotan, que é uma das lideranças do movimento, diz que um futuro de paz com os palestinos é o único caminho valido. “Os israelenses querem paz e segurança e cada vez mais estão entendendo que é preciso que todas as pessoas que moram nessa região, tanto em Israel quanto na Cisjordânia e em Gaza, tenham isso”.
Ella aponta que a guerra na Faixa de Gaza não tem nenhum sentido e que o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu quer ocupar o território palestino. “Poucos meses depois do 7 de outubro, Netanyahu passou a usar o slogan de que Israel buscava a ‘vitória total’ em Gaza e ele disse que estávamos a apenas um passo dessa tal vitória. Mas parece que esse momento nunca vai chegar. Se depender dele, ele vai continuar a guerra para sempre”.
A ativista destaca que a sociedade israelense está polarizada por conta da guerra e questões relacionadas a uma controversa reforma judicial, mas pode se unir contra o governo. “O governo quer nos separar e está fazendo um grande trabalho em polarizar os israelenses, mas temos que entender que não estamos um contra o outro, mas sim um grupo contra o governo”.
Confira principais trechos da entrevista:
Será que poderia contar um pouco sobre o que é o movimento Standing Together?
O movimento está presente em diversas regiões de Israel e a ideia é que judeus israelenses e árabes israelenses se encontrem e pensem em soluções para atingirmos justiça e paz para todos que vivem aqui.
O que mudou no movimento depois dos ataques de 7 de outubro?
A realidade do movimento logo depois dos ataques de 7 de outubro é muito diferente da realidade de agora. Tivemos algumas mudanças ao longo desse ano e meio, tanto dentro da opinião pública quanto dentro do nosso movimento no geral.
Acredito que a realidade pós-7 de outubro foi muito ruim para árabes israelenses. Eles sempre se sentiram um pouco vigiados, mas isso aumentou muito depois dos ataques.
Em muitas universidades nós criamos uma linha telefônica para árabes que se sentissem assediados e também abrimos espaços para que árabes e judeus pudessem conversar.
Em Israel existe uma distância entre árabes e judeus e essa distância ficou ainda maior depois dos ataques do Hamas.
Assim que a guerra começou, o nosso movimento foi o primeiro a pedir um acordo de cessar-fogo para a volta dos reféns. Naquela época a ideia não era tão popular, mas agora cerca de 70% do público israelense apoia um acordo de cessar-fogo para a volta dos reféns.
Acredito que ao longo desse conflito, as pessoas começaram a perceber que a guerra não tinha justificativa e continuar esse conflito apenas está matando os civis de Gaza e matando os reféns israelenses que ainda estão lá.
O público árabe também está cada vez mais perto do nosso movimento e nós conseguimos abrigar árabes-israelenses que sentiam que não tinham uma voz.
Muitas pessoas participaram das nossas manifestações e ajudaram na nossa coleta de comida e outros suprimentos que mandamos para a Faixa de Gaza. Penso que o Standing Together contribuiu para que as pessoas entendam que precisamos trabalhar juntos.
Existem palestinos da Cisjordânia e de Gaza que participam do movimento?
Nosso movimento só existe dentro das fronteiras de Israel. Nós não temos pessoas da Cisjordânia e de Gaza que fazem parte, mas muitas pessoas de Jerusalém Oriental, que não tem passaporte israelense, estão dentro do movimento.
Temos ativistas que têm famílias em Gaza e na Cisjordânia e temos contatos com gente de lá, mas elas não fazem parte do movimento oficialmente.
Na sua avaliação, esse é o momento de maior polarização na história de Israel?
O governo israelense está fazendo um grande trabalho no sentido de polarizar a sociedade. Eles querem nos segregar em grupos.
Mas nos últimos meses as pessoas começaram a perceber que não é um grupo contra o outro, mas nós contra o governo.
Estamos em um momento em que soldados foram chamados novamente para servir em Gaza e estão recusando, porque não querem fazer parte desta guerra e são contra a ocupação de Gaza.
O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu afirma que Israel conseguiu dar uma volta por cima depois de um ano e meio de guerra. Você concorda com isso?
Poucos meses depois do 7 de outubro, Netanyahu passou a usar o slogan de que Israel buscava a “vitória total” em Gaza e ele disse que estávamos a apenas um passo dessa tal vitória. Mas parece que esse momento é adiado a cada dia e nunca vai chegar.
Uma guerra que mata tantos civis inocentes em Gaza não pode ser considerada uma vitória. Ele está sacrificando as vidas dos reféns, dos civis do território palestino e dos soldados que ele manda para Gaza.
Quando pensamos em um futuro para a região, pensamos em um futuro de paz e igualdade para todos que vivem em Israel, Cisjordânia e Gaza, mas é claro que não é este futuro que o nosso governo está falando.
Eu realmente acredito que se depender de Netanyahu, ele vai continuar a guerra para sempre.
Para acabarmos com a guerra, precisamos de um protesto massivo das pessoas que vivem aqui e vimos isso acontecer no passado, antes de outros acordos de cessar-fogo. Precisamos que aconteça de novo.
Esse governo não está falando só de guerra, mas também de ocupar cada vez mais territórios dentro de Gaza. Eles não ligam para os sequestrados e estão pensando só em aumentar o território deles
Mas isso é bem diferente do que os israelenses pensam e querem.
O movimento tem uma posição uniforme sobre a criação de um estado palestino?
Nós somos um movimento social e não um partido político, então abrigamos pessoas com diferentes opiniões. O que sabemos é que queremos um futuro em que as pessoas tenham direitos iguais, com paz e prosperidade.
Mas quando falamos sobre como separar o território ou se devemos ter um Estado para todos ou dois Estados, nós temos opiniões muito diferentes.
Neste momento, no Parlamento, eles não estão conversando sobre coisas importantes para o nosso futuro, não estão falando sobre encerrar a ocupação da Cisjordânia, mas sim de avançar e expandir ainda mais os assentamentos.
Como os ataques de 7 de outubro afetaram a ideia de dois Estados para a sociedade israelense?
Acredito que as coisas mudaram muito desde os ataques de 7 de outubro. Quando tudo aconteceu, foi um choque para todos, talvez um pouco menos para ativistas que já militam pela paz faz tempo, porque parecia que algo deste tipo poderia acontecer.
Na minha opinião, se usarmos todo o nosso poder militar para lutar contra o Hamas, o Hamas apenas vai crescer e nós teremos esses ataques o tempo todo.
Uma solução que ainda não tentamos com Gaza é a solução da paz e os israelenses estão entendendo isso.
O movimento cresceu depois do inicio da guerra?
Nós temos 5 mil membros e milhares de pessoas participam das manifestações que organizamos todas as semanas.
O movimento está crescendo e as pessoas estão aceitando cada vez mais a nossa mensagem de que a guerra precisa acabar. Nós vemos isso nas ruas e também dentro do Exército israelense, já que muitos soldados estão recusando as convocações militares.
Na sua avaliação, os israelenses passaram a ver os palestinos como inimigos depois dos ataques de 7 de outubro?
Sim, existem pessoas que passaram a enxergar os palestinos como inimigos e o governo está ajudando a fomentar esse ódio, porque Netanyahu está tentando criar essa atmosfera de que estamos enfrentando um inimigo horrível e tudo é justificado quando se está enfrentando um inimigo.
Mas também existe o outro lado, em que os israelenses estão escolhendo a paz e se juntando ao Standing Together. No último ano nós vimos o tamanho das manifestações pedindo acordos de cessar-fogo e o fim da guerra.
Temos o dado de que 70% da população israelense quer o fim da guerra e isso mostra que o governo israelense não representa a população.
Acredito que existem duas narrativas completamente diferentes. O que o público está pedindo neste momento é paz e segurança, enquanto o governo de Israel está tentando controlar cada vez mais territórios.
Existem pessoas do movimento que serviram o Exército em Gaza nesta guerra?
Sim, muitas pessoas do movimento serviram o Exército durante a guerra. Elas entenderam em um primeiro momento que era importante lutar em Gaza. Até porque não é fácil dizer não, existem complicações.
Mas quando essas pessoas voltaram, elas concluíram que a guerra não nos leva a lugar algum. Essas pessoas viram coisas horríveis acontecendo em Gaza e entenderam que o objetivo da guerra não era trazer os reféns de volta, porque o conflito estava literalmente matando os sequestrados.
Qual futuro podemos esperar para a Faixa de Gaza?
O movimento apoia uma resolução da Liga Árabe que propõe a saída do Hamas de Gaza e um governo civil palestino no local.
Eles precisam controlar o próprio território, qualquer outra maneira irá levar a uma nova guerra entre nós.
Se Netanyahu sair do poder, a oposição a ele teria propostas muito diferentes em relação a Gaza e o futuro dos palestinos ou seria mais do mesmo?
A oposição não oferece algo diferente, mesmo nos partidos centristas ou de centro-esquerda. Ninguém fala sobre a ocupação da Cisjordânia e eles estavam com medo de falar sobre o fim da guerra até alguns meses atrás.
Existem outros temas que não são falados na política, como o alto custo de vida em Israel. É muito difícil viver aqui
Precisamos de uma nova geração de políticos, judeus e árabes.
Estadão Conteúdo